Carmem Miranda: muito além das bananas.

Carmem Miranda: muito além das bananas.

O Brasil não é mesmo para amadores. Quando a família real portuguesa veio para cá em 1808, fugindo de Napoleão Bonaparte, chegou em frangalhos. A viagem durou meses e foi um martírio. Uma epidemia de piolhos assolou a nau em que estava a princesa Carlota Joaquina e outras mulheres da nobreza, que foram obrigadas a raspar seus cabelos. Quando desembarcaram no Brasil, usavam turbantes para esconder os cabelos curtos. Dias depois praticamente todas as mulheres brasileiras andavam pelas ruas do Rio de Janeiro usando turbantes, desconhecendo a epidemia de piolhos e acreditando que aquela era a última moda na Europa. Mas convenhamos, isso não faz de Carlota Joaquina a primeira influencer brasileira, afinal, além de tratar-se de um equívoco, eram súditos querendo agradar sua realeza. Influencer mesmo foi Carmem Miranda, que um século depois criava seus figurinos e conseguiu mostrar para o mundo um Brasil que até hoje é reconhecido por sua alegria, extravagância e musicalidade. E na sua época, realmente influenciou a moda e fez muita loja, aqui e nos Estados Unidos, investir em turbantes, brincos de argolas grandes e muitos penduricalhos e bijuterias. Por isso a Strip Me fez questão de prestar esta justa homenagem à eterna Pequena Notável.

Carmem Miranda é uma das personalidades mais importantes da história moderna do Brasil. Uma artista de múltiplos talentos e beleza única. Uma celebridade tão aclamada e, ao mesmo tempo, injustiçada, que ainda hoje divide opiniões. Ao contrário de Carlota Joaquina, que bateu os tamancos antes de partir de volta a Portugal, pois não queria levar do Brasil nem mesmo um grão de areia, Carmem Miranda se mudou para Los Angeles, mas fez questão de levar o Brasil consigo. Um Brasil meio estereotipado, é verdade, mas que, em meio a tantos exageros, podia ser facilmente identificado. Para fazer justiça ao incalculável valor de Carmem Miranda, selecionamos 10 curiosidades essenciais para você conhecer melhor essa personagem tão emblemática.

1. Eu que nasci com o samba.

Se pai e mãe é quem cria, o mesmo deve valer para a nacionalidade, não é? Carmem Miranda nasceu Maria do Carmo Miranda da Cunha na pequena cidade de Marco de Canaveses, no norte de Portugal, no dia 9 de fevereiro de 1909. Foi a segunda filha do casal José Maria Pinto da Cunha e Maria Emília Miranda. O casal já vivia muita dificuldade e estava com passagens compradas meses antes, para tentar uma nova vida no promissor Brasil. A viagem foi adiada quando Maria Emília soube que estava grávida de Maria do Carmo. Sabendo das condições precárias dos navios e do longo tempo de duração da viagem, o casal decidiu esperar a criança nascer para se mudar. A família chegou ao Rio de Janeiro no fim de outubro de 1909. Portanto, Carmem Miranda nasceu em Portugal, mas chegou ao Brasil com nove meses de idade. Depois que chegou aqui, nunca mais voltou a Portugal, nunca cantou um fado ou assou um pastelzinho de Belém na vida. Portanto é brasileiríssima, sim senhor!

2. Fazendo moda.

Aos 14 anos de idade, Maria do Carmo já era chamada pela família de Carmem, porque a menina adorava cantar e todos na casa gostavam da ópera Carmem, de Georges Bizet. Com aquela idade a menina já ajudava no sustento da família trabalhando numa chapelaria. Lá ela era responsável por montar chapéus femininos com diferentes ornamentos. Foi onde ela desenvolveu naturalmente uma excelente noção de moda e estética, combinando chapéus com vestidos das clientes. Além disso, vivia cantarolando enquanto trabalhava. Foi notada por uma cliente da loja, muito rica, que perguntou se ela cantava profissionalmente, pois era muito boa. Foi quando Carmem assumiu o nome Carmem Miranda e começou a buscar oportunidades para se apresentar em festas e no rádio. Em pouco tempo ela começou a cantar em bares e ser muito elogiada. Em 1928 foi contratada como cantora na rádio Roquete Pinto.

3. Eu fiz tudo pra você gostar de mim.

Em 1930 Joubert de Carvalho compôs a marchinha Ta-Hí (Pra Você Gostar de Mim), e Carmem Miranda foi a escolhida para interpretar e gravar a canção. Numa época em que pouca gente tinha uma vitrola dentro de casa e ainda menos gente tinha poder aquisitivo para se dar ao luxo de comprar um disco, O compacto de Ta-Hí de Carmem Miranda vendeu impressionantes 35 mil cópias, um recorde avassalador para a época. Com apenas 21 anos de idade, Carmem Miranda era alçada ao posto de maior cantora do Brasil. Do rádio, ela migrou logo para o cinema, o que só fez aumentar sua popularidade. Entre 1932 e 1939 ela estrelou 7 filmes, sendo que o último imortalizou sua imagem.

4. Tem graça como ninguém.

Na década de 1930 o cinema sonorizado era novidade e uma verdadeira mania em todo o mundo. No Brasil, os filmes produzidos eram muito simples. A maioria trazia histórias bobas, muitas vezes sem pé nem cabeça, mas que serviam como desculpa para números musicais, em especial marchinhas e sambas que seriam apresentadas no carnaval. Em 1939 o filme Banana da Terra era mais um desses filmes carnavalescos. Tudo girava em torno de uma ilha fictícia chamada Bananolândia, que estava com uma produção excessiva de banana e resolve-se vende-la ao Brasil. O longa contava com Oscarito como protagonista, mas Carmem Miranda roubou a cena ao aparecer cantando num chiquérrimo cassino carioca pela primeira vez vestida de baiana, com um turbante ornamentado por frutas, estética pela qual ela seria eternamente lembrada. Além disso, ela aparecia naquele traje cantando O Que é Que a Baiana Tem. Banana da Terra fez com que se estabelecesse a imagem de Carmem Miranda, que ao perceber tamanho sucesso, passou a criar variações para aquele mesmo modelo. Sim, era ela que criava todos os seus figurinos, mesmo depois de ficar famosa. Ah, sim. O filme também ajudou a catapultar a carreira do jovem compositor Dorival Caymmi.

5. Daqui não saio, daqui ninguém me tira.

Com o sucesso de Banana da Terra, Carmem Miranda passou a se apresentar vestida de baiana, como no filme, em seus shows no Cassino da Urca. Foi num desses shows que um dos mais importantes produtores da Broadway, Lee Shubert, se encantou com Carmem Miranda e decidiu leva-la consigo para se apresentar no seu próximo espetáculo em New York. Shubert fez uma daquelas propostas irrecusáveis, com um salário polpudo. Para sua surpresa, o produtor ouviu Carmem dizer que só aceitaria se seu conjunto fosse junto. Carmem Miranda já se apresentava acompanhada do conjunto Bando da Lua desde 1934 e sabia que, por mais que houvessem ótimos músicos de jazz nos Estados Unidos, nenhum conseguiria tocar sambas e marchinhas como músicos brasileiros. O conjunto era formado por seis músicos. Depois de muita negociação, Shubert aceitou pagar por 4 músicos, os outros dois foram junto bancados pela própria Carmem Miranda. E a cantora estava certa, o conjunto fez toda a diferença em suas apresentações e até mesmo nos filmes.. O Bando da Lua a acompanhou até sua prematura morte em 1955.

6. The South American Way.

Eu sei que vai parecer teoria da conspiração, mas a verdade é que o sucesso enorme de Carmem Miranda nos Estados Unidos não se deveu somente ao talento dela ou ao acaso. Em 1940 a Segunda Guerra Mundial avançava a passos largos e os Estados Unidos haviam acabado e entrar pra valer no conflito. Precisando do apoio de outras nações do continente americano, os Estados Unidos iniciaram uma campanha massiva de boa vizinhança e homenagens aos países latinos, incentivando principalmente o cinema a criar obras com essa temática. O Brasil e a Argentina, além de serem os países mais fortes da América do Sul na época, eram também liderados por ditaduras que flertavam com o fascismo e estavam propensos a apoiar o Eixo. Carmem Miranda caiu como uma luva para essa campanha e logo saiu dos palcos da Broadway direto para Hollywood. Assim, além ela protagonizou filmes como o famoso That Night in Rio, além de uma produção equivocada e de mau gosto chamada Down Argentine Way, uma suposta homenagem à cultura argentina, mas protagonizada por uma brasileira, que mais irritou do que agradou aos hermanos. Para você ver como não é teoria da conspiração, não por coincidência, na mesma época foi criado, sob encomenda, o personagem Zé Carioca pelo Walt Disney

7. Dizem que eu voltei americanizada.

Carmem Miranda partiu para os Estados Unidos no fim de 1939. Um ano depois, no fim de 1940, ela já era aclamadíssima nos Estados Unidos pelas suas apresentações na Broadway e também por já ter protagonizado seu primeiro filme em Hollywood. Foi com essa bagagem que ela desembarcou no Rio de Janeiro para o fim de ano de 1940. Após receber uma recepção muito calorosa no aeroporto e pela imprensa em geral, ela resolveu fazer algumas apresentações no Cassino da Urca. Acontece que ela resolveu apresentar alguns números novos junto com seus números antigos, incluindo algumas canções em inglês. E é importante você saber que a elite rica brasileira sempre foi, em sua maioria, conservadora, retrógrada, amarga e intolerante. Na noite do primeiro show de Carmem, estavam na plateia alguns militares ligados ao governo e muitos ricos que apoiavam a ditadura do Estado Novo, todos com um discurso de nacionalismo conservador. Carmem Miranda foi recebida por uma plateia fria e carrancuda, que a considerava artificial e americanizada. E conservador nenhum gosta do imperialismo ianque, certo?  Ela não foi aplaudida em nenhum momento e saiu do palco desolada. Mas deu a volta por cima. Antes de voltar para os Estados Unidos, fez outro show, onde abriu a apresentação com a novíssima canção Dizem que Eu Voltei Americanizada. O show foi um sucesso.

8. E agora, com saudade, vou cantar pra não chorar.

Em dado momento, a carreira de todo artista grandioso ganha os mesmos contornos. Por ter que trabalhar muito e por muito tempo sem parar, acabam pintando as anfetaminas pra ficar acordado e as pílulas para dormir. O auge de Carmem Miranda nos Estados Unidos se deu em 1942, onde, mesmo com o Brasil já unido aos Aliados na Segunda Guerra, ela se consolidou como grande estrela. Ela chegou a ser a mulher mais bem paga de Hollywood e era conhecida como Brazilian Bombshell. Com os excessos de remédios e álcool, seu círculo de amizades foi mudando. Além disso, depois de 1945, a indústria cinematográfica perdeu o interesse pela latinidade e passou a procurar outros temas. Mesmo assim, Carmem Miranda continuava com prestígio e continuou atuando. Em 1947 ela conheceu David Sebastian, um aspirante a produtor de Hollywood e conhecido por ser um aproveitador barato. Mas Carmem se apaixonou por ele. Com dois meses de namoro já se casaram. Além de aproveitador, Sebastian era um homem violento, e Carmem Miranda viveu sob um relacionamento extremamente abusivo. Sebastian tomou conta das finanças da artista, a proibia de sair e a agredia verbalmente e fisicamente, em algumas ocasiões. Carmem Miranda, era muito católica e não aceitava o divórcio de jeito nenhum. Muitos afirmam que a morte prematura de Carmem, causada pelo aumento do consumo de drogas, muito se deve ao seu casamento infeliz.

9. Bananas is my business.

Outra coisa que ajudou a fazer com que Carmem Miranda se tornasse cada vez mais amargurada era o fato de ela estar presa à sua personagem. Depois de 1945, Hollywood diminuiu muito suas produções com temática latina. No filme Sonhos de Estrela, Carmem aparece interpretando uma dama brasileira da alta sociedade vivendo nos Estados Unidos. Aparece sem seu figurino, não canta e seu papel de uma mulher espevitada e irreverente é secundário na trama. O jornal New York Herald Tribune publicou uma crítica ao filme que diz em certo ponto: “Carmen Miranda faz o que sempre fez, só que não tão bem”. As críticas fizeram com que ela tivesse cada vez mais dificuldade de abandonar a personagem Carmem Miranda vestida de baiana e de turbante com frutas. Dificuldade reforçada pelos produtores que sempre a chamavam para o mesmo tipo de papel, muitas vezes com aquele tipo de figurino, e sempre para fazer pontas ou números musicais nos filmes, mas não para atuar como protagonista, como acontecia no início dos anos 1940. Em 1947 ela escreveu junto com Ray Gilbert e Aloysio de Oliveira a música I Make My Money With Bananas, com uma letra irônica, onde dizia que ela queria contracenar com Clark Gable uma cena de amor, mas os produtores diziam que ela não era capaz, então ela ganhava dinheiro com bananas. A música nunca foi gravada oficialmente, mas fez parte dos shows da cantora até o fim de sua vida.

10. E dos balangandans já nem existe mais nenhum.

Em 1955 Carmem Miranda já era considerada uma veterana de Hollywod e era respeitada como uma grande artista. Entretanto, ela estava longe das telonas desde 1953. Acontece que ela sempre teve uma agenda de shows em Las Vegas, New York e até mesmo nos cassinos de Havana muito concorrida, mesmo durante as produções cinematográficas. Em 1954 ela teve um colapso por consumir muita anfetamina e estar dias sem dormir. Em dezembro ela voltou para o Brasil, onde estivera pela última vez em 1940. No Rio de Janeiro, foi “internada” numa suíte do Copacabana Palace para uma desintoxicação monitorada por médicos. No começo de 1955 ela voltou para Los Angeles, onde morava. Voltou também para seu marido abusivo e para as drogas. Ainda assim, a CBS ofereceu a ela um programa de TV, o The Carmem Miranda Show, nos moldes do popularíssimo I Love Lucy. Estava tudo pronto para o programa ser elaborado e começar a ser gravado. Porém, na noite do dia 4 de agosto, ela se apresentou no programa de Jimmy Durante. Em seu número, onde dançava com o apresentador, ela chegou a ter falta de ar e quase cair, mas chegou ao final do número e se despediu do público muito aplaudida. Depois do show, ela estava animada e convidou parte do elenco para ir a sua casa tomar umas bebidas. A festinha ainda rolava quando ela se despediu, às três da manhã, dizendo que ia dormir. Subiu as escadas até seu quarto, tirou a roupa, vestiu um roupão, acendeu um cigarro e foi ao banheiro, provavelmente para remover a maquiagem. Pegou um espelho de mão e, quando voltava para o quarto, caiu no corredor. Foi encontrada morta com o cigarro em uma mão e o espelho na outra, na manhã seguinte pela faxineira. Carmem Miranda morreu aos 46 anos de idade de um ataque cardíaco fulminante.

Todas as homenagens a Carmem Miranda são mais que merecidas. Dessa gente que diz que ela só estragou a imagem do Brasil no exterior com um estereótipo caricato e irreal, a gente só lamenta! Carmem Miranda foi grandiosa, virou ícone pop no mundo e levou a música, a alegria e a diversidade do Brasil mundo afora! É a nossa primeira e única influencer, que a Strip Me fez questão de homenagear! Assim, como tantos outros nomes incríveis permeiam as coleções de cinema, arte, música e cultura pop! Cola na nossa loja pra conferir e ficar por dentro dos lançamentos que pintam toda semana!

Vai fundo!

Para ouvir: Uma playlist com os maiores clássicos da Carmem Miranda! Carmem Miranda Top 10 tracks

Para assistir: O documentário lançado em 1995 chamado Bananas is My Business, escrito e dirigido pela Helena Solberg é excelente e muito revelador de toda a história de Carmem Miranda, com depoimentos de gente de Marco de Canaveses, onde ela nasceu, até grandes figuras de Hollywood que a conheceram! Vale a pena demais assistir. Tem completinho e legendado no Vimeo. Link Aqui.

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