Giorgio by Moroder by Strip Me

Giorgio by Moroder by Strip Me

Essencialmente a arte pode ser compreendida como uma transformação. Seja qual for o propósito, seja qual for a inspiração, seja qual for o sentimento. Sendo assim, não existe nada permanente na arte, sequer ela própria. A transformação promovida pela arte se dá em qualquer aspecto possível. Por exemplo, a arte pode pegar a realidade e distorcê-la, enchê-la de ruídos e entregar uma pintura abstrata, uma poesia concreta ou uma música dodecafônica. Da mesma maneira, a arte pode se fazer valer de padrões estabelecidos, para corrompe-los e criar algo novo. Foi assim que surgiu, por exemplo, a ainda pouco compreendida música eletrônica.

Acredite, a música eletrônica não começou com o Kraftwerk. Sua origem é bem mais antiga. Em 1948 foi lançada a obra Étude aux chemins de fer. Uma gravação feita à partir de repetições, sobreposições de gravações e efeitos como reverb. O autor foi o compositor francês Pierre Schaeffer, um visionário que entendeu o potencial de um estúdio de gravação. Schaeffer foi o primeiro compositor a usar fitas magnéticas como técnica de gravação. Até então, as gravações eram feitas direto em acetatos (o pai do disco de vinil). Na sua cola vieram o compositor erudito alemão Stockhausen com ideias inovadoras  de ritmos, melodias e uso de instrumentos improváveis. Outro nome fundamental é o norte americano John Cage, que se fez valer de instrumentos que apareciam como grande novidade no fim dos anos 50,como o famoso Moog. Só então, juntando tudo isso, com a tecnologia que se desenvolvia em larga escala nos anos 70, é que o Kraftwerk deu o pontapé inicial na música eletrônica propriamente dita, com o clássico Autobahn, de 1974. Mas peraí! Falta um elemento fundamental nessa história toda. Um elemento vindo da Itália.

Claro que não dá pra falar de música eletrônica sem falar do legendário Giorgio Moroder. Produtor prolífico, Moroder se destacou ao lado de Donna Summer, produzindo vários discos da diva da disco. Entre eles o clássico álbum I Remember Yesterday, de 1977, onde está a emblemática I Feel Love, talvez a música mais conhecida da cantora. O que torna esta faixa tão especial é que ela tem seu arranjo todo executado por sintetizadores. O próprio Moroder já declarou em uma entrevista que o único instrumento utilizado além de sintetizadores é um bumbo. Não uma bateria completa. Só o bumbo. Nos discos seguintes de Donna Summer, Moroder continuou explorando os sintetizadores e criando arranjos inovadores e dançantes que fizeram história. Working The Midnight Shift, Journey to the Center of Your Heart, Lucky e Hot Stuff são ótimos exemplos. Entretanto, no início dos anos 80, Donna Summers trocou de gravadora e a parceria com Moroder chegou ao fim. Mas ela manteve o alto nível e passou a contar com a produção de ninguém menos que Quincy Jones.

Apesar de ser o que mais lhe deu notoriedade, a trajetória de Giorgio Moroder não se resume aos discos de Donna Summer. O cara já trabalhou com a nata do pop. Cher, Bowie, Freddie Mercury, Barbara Streisand, Blondie, Sigue Sigue Sputnik, Cheap Trick, Bonnie Tyler, Liza Minelli, Elton John, Roger Daltrey, Nina Hagen… a lista é longa! Além do trampo como produtor, Moroder também lançou vários discos já na onda dos sintetizadores, criando texturas sonoras impressionantes. As faixas From Here to Eternity e E=MC² demonstram uma inventividade e bom gosto impressionantes. Inclusive com seu trabalho como compositor, ele está em atividade até hoje, com 81 anos de idade e 50 de carreira na música. E não pense você que ele perdeu a mão ou ficou ultrapassado.

Sempre se cercando de talentos de seu tempo, seus últimos trabalhos solo contaram com parcerias de peso como Kyle Minogue, Britney Spears, Sia, Charli XCX, Foxes, entre outros. E são trampos realmente bons. Fora isso, Moroder ainda produziu algumas algumas trilhas sonoras de filmes bem marcantes, como  Flashdance, Scarface, Um Tira da Pesada, Top Gun… e recentemente ele escreveu a trilha sonora de um jogo do universo do filme Tron, o game TRON RUN/r. O homem não pára! É incansável!Com uma história e uma obra dessas, esse cara merece uma homenagem digna dos seus feitos. Ainda bem que isso já foi providenciado.

Lógico que estamos falando da dupla mais descolada que já apareceu por essas bandas nos últimos 20 anos. Daft Punk! No genial disco de 2013, Random Access Memories, Giorgio Moroder não só colaborou na produção do álbum, como se faz presente intitulando uma das músicas, onde sua história é brevemente contada entre melodias sintéticas e uma deliciosa batida. Ninguém duvida que Random Access Memories é a obra prima e definitiva da Daft Punk. E não é para menos! Além da óbvia criatividade e talento da dupla, comprovado em toda sua obra, neste disco eles ainda contam com participações especialíssimas e conseguem revisitar as origens da música eletrônica e suas próprias referências sem soar nostálgico ou datado. As músicas tem um frescor pop, são modernas e mostram nos detalhes os arranjos timbres e harmonias que soam vintage, porém sofisticadas.

A música eletrônica é a síntese a arte em transformação. É a música sem barreiras. É o jazz que se transforma em trance e trip hop, é o punk e hardcore que se transforma no jungle e drum ‘n bass, a disco que se transforma no house. Um estilo se alimentando do outro, inspirando, provocando, devorando. Cá estamos nós, mais uma vez sendo antropofágicos na vida e na arte. Essa é total a onda da Strip Me, o lugar certo para você encontrar camisetas com estampas que tem tudo a ver… com tudo! Sinergia, comportamento, barulho, diversão & arte! Vem conferir na nossa loja!

Vai fundo!

Para ouvir: Uma playlist com a fina flor do que o Giorgio Moroder já produziu. Top 10 tracks Giorgio Moroder

Para assistir: Tem um documentário super interessante e divertido sobre a música eletrônica, suas origens, vertentes, filosofias (ou ausência delas) e os principais nomes do gênero. O filme é da cineasta brasileira Iara Lee, foi lançado em 1998 e se chama Modulations. E a delícia é que tem ele na íntegra no Youtube! É só clicar aqui.

A grande questão do século XX: Beatles ou Stones?

A grande questão do século XX: Beatles ou Stones?

11 entre 10 pessoas que gostam de rock já foram questionados sobre quem é melhor: Beatles ou Rolling Stones, e pensaram bem antes de responder. Claro, porque não é uma pergunta fácil. Não é como perguntar quem é melhor Pelé ou Maradona, Madonna ou Lady Gaga, ou Pulp Fiction ou Cães de Aluguel, cujas respostas são todas óbvias. Beatles x Stones é uma questão tão complexa, que paira no ar há mais de meio século, e ninguém chegou a uma conclusão concreta e definitiva.

Claro que muita coisa já rolou, muita gente já disse muita coisa a respeito. Hoje sabemos que a rivalidade que diziam existir entre as bandas é balela. Eram todos amigos. E, é óbvio que, para manter os nomes de suas bandas em evidência na imprensa, não desmentiam e alimentavam essa lenda. Provavelmente tudo começou quando John Lennon declarou, em 1966, que tudo que os Beatles faziam, os Stones faziam igual 4 meses depois. Desde então, há referência dos Stones em capa de disco dos Beatles e vice versa, vira e mexe uma banda alfinetava a outra na imprensa. Mas no fim da noite, em Londres era comum ver Mick Jagger e Paul McCartney tomando uma cerveja juntos ou George Harrison e Brian Jones trocando figurinhas sobre instrumentos musicais.

Olha, a real é que se a gente parar pra pensar mesmo, tentar comparar as duas bandas e dizer qual é melhor, é uma parada muito descabida. Porque são bandas bem diferentes em vários aspectos, sem falar que uma delas encerrou atividades em 1970, e a outra continuou firme. Mas a gente naturalmente gosta de uma boa disputa. Além do mais, são duas bandas tão incríveis, que é uma delícia revisitar suas histórias, sucessos e lendas, ainda mais tendo como desculpa essa rivalidade. Então, vamos a alguns fatos.

Primeiro a gente tem que ter em mente que os Beatles vieram primeiro. E o sucesso dos Stones tem tudo a ver com o surgimento e ascensão dos cabeludinhos de Liverpool. Depois de uma temporada exaustiva tocando por 5 horas seguidas por noite nos inferninhos de Hamburgo, os Beatles acertaram a mão ao contratar Brian Epstein como seu empresário e, depois de serem rejeitados pela Decca, assinaram contrato com a EMI. Com o surgimento da beatlemania os diretores da Decca se arrependeram amargamente e, quando os Stones bateram na porta, eles não pensaram duas vezes e já assinaram um contrato. Depois do relativo sucesso do primeiro single da banda, Come On, um cover de Chuck Berry, os Stones precisavam de mais um novo sucesso. Na época, 1963, Beatles e Stones já se conheciam e Lennon e McCartney deram para os Stones a música I Wanna Be Your Man, que virou sucesso.

Dá pra afirmar sem medo que até 1964 os Beatles eram realmente superiores. Mas nessa época Keith Richards e Mick Jagger passam a compor com frequência, esbanjando talento. No disco 12 X 5 dá pra sacar isso em canções como Good Times Bad Times e Congratulations. Com os primeiros discos dos Stones pintando, já fica evidente uma grande diferença entre eles e os Beatles. Os Rolling Stones eram uma banda muito purista em relação ao blues. Enquanto os Beatles não tinham muitas amarras a nenhum gênero musical. Flertavam com boleros (chegando a fazer uma versão de Besame Mucho), standards do jazz norte americano, com a soul music, com o country… Neste aspecto, os Stones merecem mais aplausos, pois conseguiam ser criativos e apresentar canções de qualidade mesmo “presos” a um só gênero.

Depois de 1966 os Beatles decidiram abandonar os palcos para ser uma banda exclusivamente de estúdio. Isso deu a eles ainda mais liberdade. Passaram a usar arranjos cada vez mais complexos, sobrepor instrumentos, vozes… afinal, não iriam precisar reproduzir nada daquilo num palco, que nos anos 60 não contava com tecnologia nenhuma. Sequer retorno a turma tinha direito. Mais uma vez as obras das duas bandas se mostram distantes e difíceis de se comparar, não por qualidade, mas por temática. Os Beatles apresentam em Revolver uma psicodelia ensolarada com Good Day, Sunshine e Doctor Robert, enquanto os Stones apostam em canções mais cruas, mas não menos inspiradas, como Paint it Black e Under My Thumb, do belíssimo disco Aftermath. São dois discos excelentes. Depois, em 1967, veio Sgt. Pepper’s… e a régua subiu ainda mais. Muita gente diz que os Stones fizeram o Their Satanic Majesties Request como uma resposta ao Sgt. Pepper’s…. Conversa fiada. Era simplesmente a manifestação da época. Em 1967 o flower power, a cultura oriental e etc estavam em alta. Todo mundo lançou discos nessa onda. E, com exceção da belíssima She’s a Rainbow, Her Satanic Majesties… é um disco bem fraquinho. Mas é bom lembrar que eles lançaram no mesmo ano os ótimos discos Flowers e Between the Buttons.

Em 1970 as duas bandas tinham amadurecido muito musicalmente. E mais uma vez se distanciado em termos de estética musical. Os Beatles, já em 1968, não funcionavam mais tão bem como conjunto. O Álbum Branco mostra bem isso. Tem grandes canções, mas fica evidente que não houve colaboração entre os músicos para compor e fica impresso o estilo de cada em suas composições. Em compensação, Beggars Banquet é um disco que apresenta uma banda em plena forma, coesa, encorpada e com excelentes composições. Ambas as bandas acompanham a tendência do rock, que se torna cada vez mais pesado. Orquestrações dão espaço a mais guitarras com efeitos fuzz e wah wah. Há muita controvérsia sobre a origem do nome Let It Bleed, disco lançado em dezembro de 1969.  Apesar de os Beatles lançarem o álbum Let It Be só em maio de 1970, a canção de mesmo nome já circulava em meados de 1969. Além do mais, os integrantes das duas bandas eram realmente amigos e sabiam dos planos uns dos outros. Por isso especula-se que o título Let It Bleed tenha sio uma brincadeira com o disco dos Beatles que seria lançado na sequência. Ah, sim. Além de tudo, existe o fato de que as bandas nunca lançavam seus discos ao mesmo tempo, sempre davam pelo menos dois ou três meses de intervalo, para não haver competição nas vendas.

Bom, depois de 1970 não faz mais sentido querer comparar as duas bandas, já que os Beatles se separaram, e não faz nenhum sentido querer comparar os discos solos de John Lennon, Paul McCartney e George Harrison com o Sticky Fingers, por exemplo. Todavia, é relevante ressaltar que os Stones lançaram seus discos mais consistentes e brilhantes ao longo da década de 1970. O que demonstra mais uma vez o amadurecimento da banda.

Desde o início as duas bandas tiveram trajetórias bem diferentes. É, no mínimo, injusto querer comparar as duas e vaticinar que uma é melhor que a outra. O que podemos dizer é que são duas bandas inacreditáveis, excelentes e geniais. Ambas indispensáveis para a evolução do rock n’ roll e da cultura pop. Tão essenciais que estampam camisetas nas mais variadas formas. Mas é claro, em nenhum outro lugar você encontra essas duas bandas retratadas de maneira tão deliciosa, original e charmosa como na Strip Me. Onde barulho, diversão e arte são antropofagicamente traduzidos em camisetas sensacionais! Vem conferir na nossa loja!

ps: Com o objetivo de manter a máxima imparcialidade, este texto foi escrito ao som dos discos Who’s Next, do The Who, e Face to Face, dos Kinks.

Vai fundo!

Para ouvir: É lógico, uma playlist caprichada com o que há de melhor entre Beatles e Stones. As faixas serão selecionadas de acordo com sua data de lançamento, pra rolar uma comparação legal entre as duas bandas. Então se liga na play Top 10 Tracks Beatles x Stones.

Para Assistir: Dois documentários essenciais para conhecer essas duas bandas: Let It Be, filme do diretor Michael Lindsay-Hogg, lançado em 1969 e Shine a Light, filme brilhante de Martin Scorsese, lançado em 2008, que acompanha a Bigger Bang Tour.

Para ler: The Beatles: A Biografia, de Bob Spitz, lançado em 2007 pela editora Lafonte é a mais completa e honesta obra literária sobre os Beatles. Livro indispensável. Do lado dos Stones, eu até poderia recomendar o livro do Christopher Sandford, mas acho muito mais válido e enriquecedor recomendar a estupenda autobiografia do Keith Richards, Vida, um livro saborosíssimo de se ler, lançado pela Editora Globo em 2010.

Samba Rock Bamba Roll

Samba Rock Bamba Roll

Não dá pra negar. Apesar de todos os problemas, nós moramos num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. E esse climão gostoso de domingo de sol, pé na areia, caipirinha na mão e não ter nada mais importante pra fazer do que curtir essa vibe toda, fez com que surgissem uns caras que conseguiram transformar essa aura toda em música. Música esta que ficou conhecida, mundialmente inclusive, como samba rock.

Mas é claro que o samba rock não surgiu de caso pensado. Na verdade, gênero musical nenhum foi pensado, convenhamos. Chuck Berry não parou um dia e pensou “Vou pegar esse fraseado de guitarra do country, colocar no compasso do blues e inventar uma parada chamada rock n’ roll.”. Não. Ele simplesmente tocou essa parada, recebeu um telefonema do Marvin, o primo dele que estava fazendo um som com o Marty McFly, e compôs Johnny B. Goode. O resto é história. Mas, assim como no rock o Chuck Berry provavelmente não foi realmente o primeiro a tocar guitarra daquele jeito, o samba rock também não tem uma origem muito bem definida.

Se quiser ser pragmático, a gente teria que voltar nos idos tempos da Carmem Miranda, que disseram que voltou americanizada e tal. O fato é que pós Segunda Guerra, começou a rolar um intercâmbio forte entre a cultura dos Estados Unidos e as culturas da América Latina. Claro, a gente fala intercâmbio, mas a cultura norte americana do cinema e do jazz foi muito mais injetada por aqui do que o samba e outros ritmos latinos do lado de lá. Mas mesmo assim rolou, Carmem Miranda bombou em Hollywood, ritmos como o bolero e o tcha tcha tcha também fizeram muito sucesso. Nos anos 1950 muitos conjuntos brasileiros incorporavam uma linguagem de big bands de jazz e bebop ao tocar samba. Isso, de certa forma, foi o pontapé inicial para o que seria a bossa nova, que iria eliminar os arranjos de metais e refinar as melodias. Por outro lado, tinha uma turma que gostava mesmo era de dançar, e essas bandas mandavam ver no ritmo.

Nas periferias do Rio de Janeiro e de São Paulo aconteciam bailes nos anos 1960 que eram muito populares, onde as pessoas iam para dançar.  Como eram organizados por comunidades pobres, não tinha som ao vivo, era um DJ (que na época não tinha o glamour de hoje em dia) que ficava colocando discos para as pessoas curtirem na pista. E rolava de tudo. Tocava uma música do Ray Charles, aí entrava um Jackson do Pandeiro, na sequência um Fats Domino, Moreira da Silva… e assim ia. O importante era não deixar a pista esfriar, seguindo sempre ritmos dançantes. Muita gente diz que o samba rock nasceu nesses bailes. E faz sentido, se a gente pensar que frequentavam essas festas nomes como Jorge Ben Jor, Erasmo Carlos, Gerson King Combo, Cassiano, Hyldon, Wilson Simonal, Tim Maia

Mas o grande expoente mesmo é o Jorge Ben Jor. Se João Gilberto influenciou toda uma geração com uma batida de violão única, Jorge Ben fez o mesmo. Seu disco de estreia, Samba Esquema Novo, já mostra isso. É um disco com uma linguagem bem bossanovista, mas que já traz um suingue a mais, que ele iria mostrar em músicas como Minha Menina, em parceria com os Mutantes. Mas foi com o clássico disco Jorge Ben, de 1969, que o bicho pegou.  Nesse disco ele teve como banda de apoio o Trio Mocotó, um trio que era banda fixa de uma casa noturna de São Paulo onde Jorge Ben gostava de ir nos fins de noite se divertir e fazer umas jams. Nesse disco temos verdadeiros clássicos do samba rock como Take it Easy, My Brother Charles, Que Pena (Ela Não Gosta Mais de Mim), Cadê Tereza, Charles Anjo 45 e País Tropical. A coisa deu tão certo que o Trio Mocotó se lançou como banda e gravou vários discos muito bons. Esse estilo de som misturando suingue com uma guitarrinha e uma linguagem mais pop, fez a fama de muita gente. O caso mais interessante é o de Erasmo Carlos.


Em 1971 a Jovem Guarda já tinha acabado e Roberto Carlos dava sequência a uma inacreditável carreira se sucesso como cantor romântico. Seu parceiro Erasmo Carlos ficou mio de lado e começou a perder popularidade. Incentivado por André Midani, presidente da gravadora Philips no Brasil, e por Jorge Ben, seus amigos de longa data, Erasmo se inspirou nessa nova onda do samba rock e concebeu um clássico absoluto da música pop brasileira, o excelente disco Carlos, Erasmo! Neste disco estão canções brilhantes como De Noite na Cama, Masculino e Feminino, É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo, Agora Ninguém Chora Mais e Maria Joana.

Pra concluir este texto, vale contar a inacreditável história que resultaria no disco Gil & Jorge: Ogum Xangô, um disco que tem sua base no samba rock, mas se tornou uma obra de experimentalismo harmônico e rítmico que extrapola qualquer rótulo. Em 1975 Eric Clapton e Cat Stevens vieram ao Brasil passar uns dias de férias a convite da gravadora Philips, que vendia seus discos por aqui. Para a chegada dos artistas internacionais, o presidente da gravadora, André Midani, organizou em sua casa uma festinha privé com vários artistas, entre eles Caetano Veloso, Rita Lee, Gilberto Gil e Jorge Ben. Noite adentro aparecem violões por toda a parte e começa uma jam session daquelas. Cat Stevens em poucos minutos pede o boné e encosta o violão, não acompanhando o som frenético que rolava. Um tempo depois, Eric Clapton também não aguenta o tranco e se retira da roda, ficando somente a observar incrédulo o som que Gilberto Gil e Jorge Ben improvisavam. Gil e Jorge tocaram por um tempão para um seleto público boquiaberto. Eles nunca tinham tocado juntos antes. No fim da festa, André Midani chegou para os dois músicos e falou: “Ainda essa semana quero vocês no estúdio. Se virem pra reproduzir no estúdio o que fizeram aqui.”. Assim saiu o disco Gil & Jorge: Ogum Xangô, um disco com 9 faixas, algumas com mais de dez minutos de duração, de puro ritmo e improvisos deliciosos. É um disco incrível. E quem estava presente naquela lendária noite, diz que o disco não reproduz metade do que os caras fizeram lá ao vivo.

O samba rock é isso. Brasilidade contemporânea, antropofagia sonora, liberdade, barulho, diversão e arte. Te soa familiar? Mas é claro! A Strip Me é total samba rock e todo esse clima alto astral libertário! Vem aproveitar e conferir!

Vai fundo!

Para ouvir: Uma playlist repleta de som e malemolência pra você curtir. Top 10 tracks samba rock.

The Dark Side of the Rainbow

The Dark Side of the Rainbow

O que seria de nós sem as teorias da conspiração? São elas que tornam tudo mais interessante, instigante e divertido! Afinal, é muito mais interessante dizer que o maior clássico dos Scorpions, a canção Wind of Changes, foi escrita pela CIA e entregue à banda com a promessa de sucesso avassalador, sendo que a letra da música falava sobre liberdade, a queda da União Soviética e o fim da Guerra Fria. E a diversão de ficar olhando as capas dos discos dos Beatles em busca de pistas que comprovem que Paul McCartney morreu em 1966, e foi substituído por um sósia (e excelente baixista, diga-se)? Claro, tem também o intrigante caso da capa do disco Breakfast in America, da banda Supertramp, a qual traz vários indícios premonitórios do atentado de 11 de setembro de 2001 às torres gêmeas. Isso sem falar do Lemmy, do Motorhead, ser illuminati, do Steve Wonder não ser realmente cego, da Courtney Love ter matado o Kurt Cobain

Mas com certeza, a teoria da conspiração mais interessante do mundo da música é que o disco Dark Side of The Moon foi elaborado pela banda Pink Floyd para servir como trilha sonora alternativa do clássico filme O Mágico de Oz. A junção das duas obras, batizada de Dark Side of The Rainbow, é largamente discutida no meio musical e pela internet afora desde 1995. Logo de cara, a ideia soa bem estranha. O que teria em comum um disco de rock progressivo lançado em 1973, que aborda as profundezas da mente humana, com um filme lançado em 1939, baseado num livro de conto de fadas, sobre uma garotinha órfã perdida num mundo mágico tentando voltar para casa? Bom, essa é uma das delícias das teorias da conspiração: por mais absurda que seja, qualquer explicação acaba sendo válida. Mas vamos com calma.

O Fantástico Mágico de Oz é um livro infantil de fantasia, os chamados contos de fadas. Foi escrito por L. Frank Baum, ilustrado por W. W. Denslow e lançado em 1900. Em 1938 a gigante produtora de cinema MGM comprou os direitos do livro para adaptar para o cinema a história, que contaria com a inovadora tecnologia Technicolor, sendo um dos primeiros filmes coloridos da história. O filme ficou pronto e foi lançado em 1939. Na época não teve grande bilheteria, mas foi aclamadíssimo pela crítica. Teve 6 indicações ao Oscar, levando 2 estatuetas. Com o tempo, foi sendo reexibido e caiu no gosto popular. Na década de 1950 passou a ser exibido na televisão e ganhou ainda mais notoriedade. Hoje é considerado um dos mais importantes filmes da história do cinema. É um filme bom? Com certeza é. Mas é meio chatinho, vamos combinar. Foi super inovador na época, mas para os padrões atuais as canções são piegas, o andamento do filme é arrastado e o roteiro é um pouco ingênuo, apesar de levantar uma ou outra questão interessante sobre amor, companheirismo, aceitação, misticismo e etc. Além do mais, foi o filme que revelou para o mundo a atriz Judy Garland e imortalizou a canção Over the Rainbow.

Dark Side of the Moon é o oitavo disco da banda inglesa Pink Floyd. Indiscutivelmente é a obra prima dos caras, o disco que marcou a transição da psicodelia e viagens chapadas para o mundo real, com canções mais diretas e com temas sérios. Vinda de uma extenuante turnê em 1972, a banda começou a se reunir para criar um novo disco. Foi Roger Waters quem propôs que fizessem canções mais diretas e abordando temas referentes a mente humana, tendo como inspiração a triste história de seu amigo Syd Barrett, guitarrista e fundador da banda. A banda concebeu todas as canções do disco entre o fim de 1972 e o início de 1973, chegando a fazer muitas apresentações ao vivo tocando essas músicas. Com a certeza da aceitação do público, a banda foi confiante para o estúdio e gravou as 10 faixas sem medo de abusar de efeitos e truques de estúdio. Concluídas as gravações, Aubrey Powell e Storm Thorgerson, dois designers britânicos, foram os responsáveis pela icônica capa do prisma, com certeza uma das capas de discos mais famosas do mundo.

De quem foi a ideia de sincronizar o filme com o disco, ninguém sabe. O que se sabe é que em 1995 um jornalista chamado Charles Savage escreveu uma matéria num pequeno jornal do estado de Indiana, nos Estados Unidos, falando sobre essa sincronia entre as obras, que a banda supostamente teria feito o disco pensando no filme… e a notícia começou a se espalhar. A internet, que engatinhava na época, ajudou muito a divulgar a ideia mundo afora e a coisa não parou mais. Os defensores da teoria que a sincronia é proposital afirmam que o filme retrata a mente da Dorothy, personagem principal, e toda a busca dela, e as criaturas que ela conhece pelo caminho, são metáforas para a sua própria personalidade e seu amadurecimento. Temática que vai totalmente de encontro com disco do Pink Floyd.

Essa justificativa até que não é tão descabida. É uma interpretação válida para a história contada no filme. O que não faz sentido é a razão de a banda fazer um disco de 43 minutos para um filme com mais de uma hora e meia de duração. Para cobrir o filme todo, o disco tem que ser tocado duas vezes e meia. E é na primeira vez que o disco toca inteiro, que as sincronias realmente impressionam. Nas repetições poucos momentos chamam a atenção pra valer. Certamente o momento mais incrível é na cena do tornado, numa perfeita harmonia com a música A Great Gig in the Sky, música instrumental intensa. Quando a música está acabando e vai ficando mais suave, na cena a casa, que estava voando no meio do tornado, vai descendo ao chão levemente. Quando a música acaba e a Dorothy abre a porta para um mundo todo colorido e ela pisa nos tijolos amarelos da estrada, soam as máquinas registradoras da música Money. Essa sequência é muito legal mesmo! Outra ótima sequência é quando aparece o Espantalho pela primeira vez e começa a tocar a música Brain Damage, com a frase “The lunatic is on the grass” enquanto ele dança e escapam de dentro deles tufos de capim seco (grass é capim, mato, em inglês). Quando ele se coloca na estrada junto com Dorothy, também aparece na música a frase “Keep the loonies on the path”, ou seja, mantenha os malucos no caminho. Ao final da primeira execução do disco, já no fim da música Eclipse, Dorothy encontra o homem de lata. Quando a música acaba e soam batimentos cardíacos, na cena Dorothy encosta o ouvido no peito do homem de lata, que quer ir até o mágico de Oz para pedir exatamente um coração! Na sequência, o disco recomeça e são poucas as cenas dignas de nota. Vale mesmo é citar o final do filme. Já na terceira execução do disco, ao final da música Time, Dorothy descobre como voltar pra casa. Quando ela acorda em seu quarto no Kansas, deitada na cama, ela abre os olhos e a música diz “Home. Home again. I like to be here when I can.”. A música acaba e começa A Great Gig in the Sky pela terceira vez. Quando a música começa, aparece escrito “The End” na tela. Quando começam os créditos, ouve-se a frase dita no início da canção: “I am not frightened of dying. Any time will do, I don’t mind. Why should I be frightened of dying? There’s no reason for it, you’ve got to go sometime.”. Convenhamos, uma bela maneira de fechar um filme que fala sobre caminhos e voltar para casa.

É lógico que todos os integrantes da banda negaram a teoria. O engenheiro de som e produtor do disco, Alan Parsons, chegou a dizer que em 1973 nem tinha como isso ser feito, pois ainda não existiam as fitas VHS, e não tinha como projetar o filme no estúdio de gravação para fazer esse trabalho. O baterista Nick Mason, do alto do peculiar humor britânico, afirmou que não era verdade, e que o que realmente aconteceu é que o disco era pra ser a trilha o filme A Noviça Rebelde.

De qualquer forma, se você estiver de bobeira num domingo de tarde, sem nada pra fazer, vale a pena pegar um dos vários vídeos no Youtube com o filme e o disco sincronizados e assistir. Afinal, trata-se de um disco realmente brilhante e delicioso de se ouvir, e o filme, em muitos momentos, funciona como videoclipe para as músicas. Agora, o que não é teoria da conspiração, mas verdade verdadeira é que se você colocar pra tocar o disco Dark Side of The Moon e abrir o site da Strip Me, você vai dar de cara com um monte de estampas incríveis sobre cinema, música, arte e muito mais. Inclusive, funciona sem o disco estar tocando também. Clica aqui pra conferir.

Vai fundo!

Para ouvir: É verdade que Dark Side of The Moon é a obra prima do Pink Floyd. Mas a banda tem muitos outros discos incríveis. Então hoje a nossa playlist é Top 10 Tracks Pink Floyd!

Para ler: The Dark Side of the Moon – Os bastidores da obra prima do Pink Floyd, excelente livro escrito pelo jornalista e escritor John Harris. Lançado em 2005 pela editora Jorga Zahar no Brasil, este livro traz detalhes interessantíssimos sobre o momento que a banda vivia antes do disco, a concepção, os shows, as gravações… é uma leitura muito saborosa!

MTV 40

MTV 40

Se um artista ou banda quer se destacar e arrebanhar fãs, ou seguidores, é impensável que uma canção seja lançada nas plataformas digitais sem que haja uma veiculação simultânea de um videoclipe da mesma canção no Youtube e redes sociais. Um cenário que em absolutamente nada se assemelha ao que ocorria 40 anos antes. Até o mês de agosto de 1981 o artista ou banda estava totalmente nas mãos e uma grande gravadora, que produzia um disco caríssimo, investiria mais uma quantidade obscena de dinheiro em publicidade com anúncios em revistas especializadas, cartazes e totens para lojas de discos e “um cafezinho” pro DJ que tocasse as músicas no disco no rádio. Videoclipe? Nem pensar! Na real, nem existia direito esse conceito. Pouquíssimas bandas apostavam em produzir um vídeo conceitual para acompanhar o lançamento de uma canção. Mas os anos 80 tinham chegado pra ficar, e alguma coisa precisava mudar.

No dia 1 de agosto de 1981 entrou no ar um novo canal na televisão norte americana. Sua estreia aconteceu com cenas do lançamento da Apollo 11 e dos astronautas na lua. Quando a bandeira norte americana é fincada em solo lunar, as listras e estrelas somem encobertas por um fundo colorido e, sobre ele, as letras M, T e V se sobrepunham. O canal Music Television foi criado pelo produtor de TV Robert W. Pittman, que era funcionário anteriormente da Warner. Pittman viu que havia toda uma geração de adolescentes que consumiam música e não tinham nada na televisão que os agradasse, a programação se resumia a programas infantis para crianças pequenas e jornalismo e entretenimento para adultos, o adolescente ficava no limbo. A princípio o canal transmitia shows de bandas dos mais variados estilos do pop e rock e alguns poucos clipes que já existiam, tudo intermediado por VJs jovens e descolados, que falavam diretamente com a molecada. Tudo era muito colorido e meio anárquico. Foi um tiro certeiro. Em pouco tempo, a MTV já era uma febre entre os jovens.

O conceito estético do canal foi elaborado com muito cuidado, pensado em cada detalhe. O trampo ficou por conta de um escritório de design gráfico chamado Manhattan Design, um coletivo de designers de New York, que funcionou entre os anos de 1979 e 1991, o projeto é creditado a Pat Gorman, Frank Olinsky, Patti Rogoff e ao primeiro diretor criativo da MTV, Fred Seibert. O Manhattan Design já trabalhava com música projetando capas de discos e cartazes de shows da cena blues e jazz nova-iorquina. O que mais chamou a atenção na época foi que a identidade visual da marca não apresentava uma cor ou uma paleta de cores. Uma vez que se tratava de televisão, modernidade e ritmo, os criadores propuseram que a marca mudaria de cor a todo momento, um conceito nunca utilizado até então. Além disso, foram responsáveis por criar vinhetas e aberturas de programas, que ficaram marcados pela pluralidade, uma Pop Art em movimento, com cores e recortes. Mesmo depois do escritório encerrar suas atividades em 1991, o mesmo conceito seguiu firme no canal e foi aplicado em outros países.

Artistas antenados e notoriamente mais performáticos viram nos videoclipes uma oportunidade de enriquecer suas criações musicais e aumentar sua popularidade entre os jovens. Bowie, Michael Jackson e Madonna entraram de cabeça nesse mundo. Até a metade dos anos 80 o pop dominou o canal. As coisas realmente começaram a mudar em 1988 com o sucesso avassalador de Sweet Child O’Mine, dos Guns N’ Roses. Um clipe modesto, simplesmente mostrando a banda tocando num estúdio de ensaios, mas muito bem filmado e com todo o poder da canção em si. Dali em diante, o rock se faria cada vez mais presente, até culminar com mais uma bomba que cairia sobre a música pop três anos depois, com um trio esfarrapado vindo de Seattle. É, o grunge, de maneira geral, virou tudo de cabeça pra baixo, inclusive a MTV. Com todas essas mudanças e a MTV cada vez mais influente, as gravadoras investiam cada vez mais em videoclipes, que começavam a ter orçamentos cinematográficos. Aliás, a linguagem de videoclipe influenciou muito o cinema que seria produzido nos anos 90. E mais, à partir de 1992 a MTV passou a incluir nas informações do clipe apresentado, no início do vídeo, o nome do diretor responsável. Foi quando começamos a nos familiarizar com nomes como Spike Jonze, Michel Gondry e David Fincher, que depois se tornariam grandes diretores de cinema.

A MTV contribuiu muito para a modernização da televisão de maneira geral. Seja na linguagem mais coloquial e direta, na estética camaleônica e vibrante, ou no comportamento, apresentando um humor auto crítico e anárquico. A personificação dessa atitude toda veio através do desenho Beavis & Butt-Head. Dois moleques toscos que criticavam os clipes que o canal passava com um humor deliciosamente mordaz. A dupla ganhou o mundo e chegou a virar filme. Com certeza uma das mais brilhantes criações do canal.

Se você tem mais de 30 anos de idade com certeza deve estar se perguntando se a gente não vai falar do Disk MTV, Do Fúria Metal, do Teleguiado, do Gordo A Go Go, do Rock Gol… pois é. A MTV brasileira entrou no ar em 1991 e tem uma história tão incrível e deliciosa que merece um post só pra ela. Por isso, desta vez vamos nos ater à MTV norte americana, que acabou de completar 40 anos. 40 anos que mudaram o mercado musical incorrigivelmente.

Como uma profecia, após a bandeira com a logo multicolorida da MTV ser fincada na lua inaugurando o canal, o primeiro clipe a ser veiculado foi Video Killed the Radio Star, dos Buggles. Nascia uma nova era. Multimídia, mutante, provocadora, libertária. Com certeza a MTV é uma influência imensa, que faz a Strip Me ser a empresa que é hoje. Antropofagia rock n’ roll, liberdade em movimento, diversão & arte.

Vai fundo!

Para ouvir: Uma playlist com o que rolou de melhor na MTV norte americana entre 1981 e 1990, uma música de cada ano. 10 tracks MTV US.

Para assistir: A MTV não surgiu do nada. Desde o início dos anos 60 já rolavam filmes com músicas e tal. Mas o clipe como conhecemos hoje surgiu das mãos de Richard Lester, o jovem diretor britânico que dirigiu o primeiro filme dos Beatles, A Hard Day’s Nght. No filme é possível “recortar” as cenas musicais e vê-las como clipes. Em especial a música Can’t Buy Me Love tem uma estética de videoclipe inacreditável para a época. O filme é de 1964 e é divertidíssimo e deve ser visto por todo mundo que curte música.

All That Jazz!

All That Jazz!

Pra começar, é tudo.

Liberdade, sentimento, fluidez, ritmo, história, mistura, quase nenhum ou total excesso de estudo. Se parar pra pensar, é realmente o começo, a revolução popular em cima do erudito. Mas não é assim, de qualquer jeito, qualquer nota, fora do tempo, da pauta ou do espaço. Tem que ser a nota certa, a nota azul que dá a intenção, o frisson, a emoção, muito bem colocada. Se há padrão, é melhor quebrar ou expandir. Sem perder o ritmo, o chimbau que abre e fecha no compasso, um trem chiando ao longe sobre a linha do tempo. Parece confuso, eu sei, mas tudo se encaixa. Traduzindo na língua universal da música, fica mais fácil. It’s all that jazz!

Sem perder o ritmo, seguimos na linha do tempo. Tudo se mistura, lenda e realidade, trabalho e arte, história, geografia, vida e morte. O sul dos Estados Unidos no fim do século dezenove não era nada fácil. Ainda mais pra quem era preto, filho de escravo. Via na plantação de algodão um destino inevitável, não tinha vodu, bourbon ou honk tonk que remediasse. O jeito era cantar na lavoura e na igreja. Lamentos, spirituals, expressão de tristeza negra na essência, na falta de melhor palavra que trouxesse luz, nasceu o blues. Arkansas, Delaware, Georgia, Mississippi, o som se espalhava pelas planícies feito grama, até que achou residência fixa em New Orleans, Louisiana.

As vastidões das planícies, das plantações de algodão, depois, com as cidades crescentes, movimentadas e, claro, sempre segregadas, não tinha como o blues ser uma coisa só. Foi se multiplicando. Swing, be bop, isso bem no comecinho. Depois virou jazz pra valer, free jazz, soul music, funk, hip hop e R&B. Se espalhou mesmo. All that jazz, é tudo! Música, sofisticação, improviso, ato político. Nunca é só música, tem sempre um algo mais, um impulso. Mas não vamos perder o ritmo, ainda estamos no princípio. Nos honk tonks, que eram os bares e bordéis para negros com música ao vivo. Mas o jazz indomável não se prendia a um simples quartinho e ia pra rua, através de garotos tocando juntos na calçada, um deles, inclusive, vai ficar mundialmente conhecido, Louis Armstrong e seu trompete fantástico. E ainda nem chegamos em 1920. Então vamos acelerar o beat.

Pops, como era conhecido o Louis Armstrong, saiu das ruas pra ganhar o mundo, e revolucionar, popularizar, o jazz no meio do caminho. Foi o primeiro a montar uma banda com músicos pretos e brancos na mesma formação, ganhou as telas de cinema e encheu as ondas do rádio de grandes canções. Na sua cola vieram Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Ray Charles, Dizzy Gillespie, Charlie Parker, Miles Davis, Coltrane, Duke Ellington… sem falar em Sinatra, Tony Bennett, Nat King Cole. Cara, realmente o mundo mudou depois de New Orleans e seus honk tonk boys and girls.

Dito tudo isso, se você ainda pensa que o jazz é só uma cornetinha solando num ritmo quebrado de três compassos ou cinco, se situa! O jazz é a música moderna na essência. É música negra folclórica, é música erudita europeia, ópera e o diabo, tudo junto e misturado. Desde os terrenos encharcados de New Orleans ao blues elétrico de Chicago. Do jazz veio o diabo cristão do rock, Black Sabbath e Rolling Stones, a santeria Black Magic Woman de Carlos Santana e a psicodelia de Jimi Hendrix. O jazz está em tudo. Até no ritmo alucinado da escrita de Kerouac.

O jazz é a mistura, o orgulho, a modernidade, a sofisticação. Mais que música, é um mood, um estado de espírito, um way of life, viver na brisa, no improviso, aquela intersecção que nos encanta a todos, inclusive muito inspira a Strip Me, o jazz é a esquina mais cool entre a diversão e a arte.

Vai fundo!

Para ouvir: Elencar as canções mais importantes do jazz é trabalho hercúleo, é muita coisa! Mas a gente se esforçou pra te trazer um top 10 tracks jazz standards.

Para assistir: Um dos caras que melhor representam a música negra e, em especial o jazz, é Quincy Jones. Além de músico fantástico, Quincy também se enveredou na produção musical e trabalhou com grandes gênios, de Ray Charles a Michael Jackson. O documentário Quincy, lançado em 2018, dirigido pela dupla Alan Hicks e Rashida Jones e produzido pela Netflix é maravilhoso e mostra boa parte da história do jazz e da música opo.

Para ler: Louis Armstrong é considerada unanimemente como a personificação do jazz. Não à toa. Sua trajetória se confunde com a do gênero musical e isso é contada deliciosamente no excelente livro Pops, A Vida de Louis Armstrong, escrito pelo Terry Teachout e lançado em 2010 pela editora Lafonte. Leitura mega recomendada!

10 Anos sem Amy

10 Anos sem Amy

Originalidade e criatividade nunca forma o forte da Inglaterra, já reparou? Pensa bem, desde a idade média a gente vê despontando grandes gênios da pintura, da música, da literatura a maioria deles italianos, alemães, espanhóis… mas ingleses quase não se vê. É um país tão sem originalidade que o prato mais tradicional da culinária deles é peixe frito com batata frita. Entretanto, há e ser dito: o que eles não tem de originalidade, tem de sobra o poder de rápida assimilação e desenvolvimento. Não foram eles que inventaram o tear, mas foram eles que o desenvolveram para produção em larga escala e iniciando a Revolução Industrial. Não foram eles que inventaram o rock n’ roll, mas foram eles que o elevaram ao patamar de arte com Beatles, The Who, Bowie, Led Zeppelin

Photo by: Phill Griffin

Claro, existem exceções. A música negra, de maneira geral, os ingleses absorveram rapidamente, mas não foram capazes de superar os criadores do soul, do jazz e  do reggae. Bob Marley, Isley Brothers, Jimmy Cliff, James Brown, Aretha Franklin, Coltrane, Nat King Cole, Ella Fitzgerald, Billie Holiday, são todos artistas respeitadíssimos na ilha da rainha, influenciaram muita gente, mas ninguém chegou perto deles em genialidade e qualidade artística. Pelo menos assim foi até 2003.

Photo by: Jake Cheesun

Em outubro de 2003 foi lançado o disco Frank, álbum de estréia de Amy Winehouse, até então uma cantora desconhecida que se apresentava em pubs de Londres e impressionava todo mundo com sua voz incrível, presença de palco gigantesca e ótimas melodias que ela mesma compunha. Além disso, Amy revitalizava o jazz e os standards norte americanos. Era um Cole Porter de saias, em pleno século XXI respeitando o passado, mas flertando com o moderno R&B e novas tendências musicais. Era uma artista brilhante a ponto de explodir. E ela explodiria em muitos sentidos.

Photo by: Phil Knott

Amy Jade Winehouse nasceu em Londres no dia 14 de setembro de 1983. Ela vinha de uma família simples muito ligada à música. Sua avó paterna fora cantora de jazz e o pai era músico amador e tinha em casa uma vasta coleção de discos. Como vemos em muitas histórias de artistas geniais, a música sempre foi uma âncora para Amy, que teve desde cedo uma vida complicada. Seus pais se separaram quando ela tinha 6 anos de idade, fato que a desestabilizou muito. Adolescente, por volta de 14 anos, precisou tomar remédios controlados para ansiedade e, em seguida, já aprendeu os prazeres e excessos da vida boêmia, álcool, drogas… se distanciou da escola e se aproximou ainda mais da música.

Photo by: Phil Griffin

Em 2001 Amy já tinha gravado uma demo que rodava entre os executivos de pequenos selos de Londres. Quem resolveu apostar na cantora foi a Island Records. Foi onde Amy conheceu o produtor Salaam Remi, que se tornaria seu parceiro de composições, amigo confidente e o responsável por lapidar o talento dela. Entre meados de 2002 e 2003 o disco Frank foi concebido e gravado. O disco não alcançou vendas muito altas, mas foi muito elogiado pela crítica e levou Amy Winehouse a um patamar acima das apresentações improvisadas em pubs. Ela entrou para um circuito alternativo de shows que trouxeram mais maturidade musicalmente, além de abrir muitas portas. Junto com o ritmo frenético de shows, após um ano do lançamento de Frank, Amy começou a ser cobrada por um novo disco. O que acabou a levando a um terrível bloqueio criativo. Seu primeiro disco era formado por canções muito pessoais baseadas nas desventuras conjugais de seus pais e de um relacionamento fracassado vivido por ela. Agora sua vida se limitava a tocar, fazer shows e cair na farra. Ela não tinha de onde tirar inspiração para compor. Até que em 2005, num pub no bairro de Camden, ela conhece Blake Fielder-Civil.

Foi paixão à primeira vista. Com Blake Amy começou uma relação tumultuada e muito intensa. Apesar de muitas brigas e desconfianças que ele tivesse outras mulheres, eram um casal muito ligado. Também foi com Blake que Amy conheceu realmente o lado negro da força e experimentou pela primeira vez heroína e crack. Aí você pensa: “Daí em diante foi só ladeira abaixo.”. Engano seu! Porque quando ela se afundou no vício, tentaram várias vezes interna-la em clínicas de reabilitação, as famosas rehabs. Ela já estava relutante, mas depois que seu pai disse a ela uma vez que ela não precisava se internar e podia tentar ficar limpa por conta própria, ela disse” Vocês querem que eu vá pra rehab, mas não não não.”. Sem falar que o tempestuoso relacionamento com Blake reacendeu a chama musical e Amy compôs várias canções. Morria assim o bloqueio criativo e nascia assim um clássico.

No fim de 2006 Back to Black é lançado e o single Rehab se torna um hit avassalador mundo afora. Daí em diante, parece que o mundo em volta de Amy acelerou rumo ao inevitável. Tudo explodiu. O consumo cada vez maior de álcool e drogas faziam com que ela aparecesse em shows sem a menor condição de cantar, a fama lhe tirou a privacidade e ela era constantemente vista pelas ruas de Londres em frangalhos… tudo foi ficando insuportável. Em agosto de 2007 ela teve uma overdose e foi hospitalizada, em seguida, Blake Fielder-Civil foi preso após uma batida em sua casa onde foram encontradas quantidades consideráveis de várias drogas. A prisão de Blake só piorou as coisas para Amy. O tempo passava voando e ela foi perdendo shows, sem a menor condição de compor novas canções… e sua saúde se deteriorando a passos largos. Desde adolescente, Amy era bulímica, uma prática muito perigosa. O desequilíbrio agressivo da bulimia combinado ao excesso de álcool e drogas desgastou muito o organismo da cantora. Num piscar de olhos, cinco anos se passaram entre o lançamento de Back To Black e o dia 23 de julho e 2011.

Photo by: Terry Richardson

Na manhã daquele dia 23 de julho de 2011, Amy Winehouse foi encontrada morta em sua casa, em Londres. Exames detectaram uma quantidade assustadora de álcool no sangue dela. Ela vinha tentado parar de usar drogas na época, mas continuava bebendo muito. Frágil por conta da bulimia, é possível que o excesso de álcool em seu organismo tenha feito seu coração parar de bater. Amy morreu dois meses antes de completar 28 anos de idade. Sendo assim, sua morte reacendeu aquela famosa conversa da maldição dos 27 anos, idade em que, coincidentemente, alguns dos mais importantes músicos do rock morreram, como Jimi Hendrix e Kurt Cobain.

Photo by: Terry Oneill

Assim a boa e velha Inglaterra chegou ao século XXI confirmando sua expertise em gerar artistas que conseguem assimilar e ir além do que é feito fora da ilha. Amy Winehouse sintetizou o jazz, o R&B e a soul music numa linguagem nova e atraente; no melhor estilo antropofágico em que a Strip Me tanto se inspira, Amy Winehouse é uma das artistas mais geniais dos últimos 20 anos. Não poderíamos de jeito nenhum deixar os 10 anos de sua morte passar em branco. Preferimos sempre Back to Black.

Vai fundo!

Para ouvir: Todo mundo sabe que músicas como Rehab e Back to Black são maravilhosas. Por isso a gente elaborou uma playlist pra você ouvir um pouco mais do trampo da Amy Winehouse, além das músicas mais conhecidas. Top 10 tracks 10 anos sem Amy.

Para assistir: O documentário super intimista e bem elaborado, lançado em 2015 e dirigido por Asif Kapadia, intitulado, Amy, é simplesmente indispensável para quem quer conhecer  e entender a carreira meteórica de Amy Winehouse. E pra facilitar a sua vida, esse doc está completinho e legendado no Youtube. É só clicar aqui.

A Viagem da Psicodelia

A Viagem da Psicodelia

Liberdade, expansão mental, aglutinações sensoriais, as portas de Willian Blake e Aldous Huxley totalmente escancaradas para o livre acesso. Essa é a definição mais completa de psicodelia. Mas se você procura uma parada mais racional, podemos dizer que o termo foi usado pela primeira vez em 1957, numa reunião da Academia de Ciência de New York pelo psiquiatra britânico Humphry Osmond. A origem etimológica é a junção de duas palavras gregas, psique (ψυχή – alma) e delein (δηλειν – manifestação). Ou seja, psicodelia é a manifestação da mente, um estado de estímulo sensorial e psíquico exacerbado. Além de um estado mental, a psicodelia também é o nome dado a todo um movimento artístico multimídia que coloriu o mundo à partir de 1967.

Aquele miolinho da década de 60 chega a ser difícil de explicar, porque foi uma sucessão absurda de fatos que acabariam por formatar o movimento hippie e a psicodelia. A geração de jovens daquela década eram os filhos do pós Segunda Guerra Mundial. Com o fim da Guerra, os Estados Unidos tomaram a dianteira da economia mundial e estabeleceram o american way of life e o consumismo em sua sociedade. A Guerra Fria decolava e o combate aos comunistas gerou, entre outras coisas ruins, a Guerra do Vietnã. Em 1967 o conflito no Vietnã já se mostrava totalmente descabido, jovem nenhum queria largar tudo para morrer entupido de napalm em selvas asiáticas. Estes mesmos jovens estavam crescendo sob a sombra da geração anterior que começou a questionar tudo isso. Era a Geração Beat, que falava de auto conhecimento, desprezo ao consumismo e a entrega à vida de excessos. Em paralelo a música avançava, o rock n’ roll deixava de ser uma música inocente para se tornar uma voz empolgante de protesto. Para completar, as artes plásticas viviam um momento de total transformação com a Pop Art, que se apresentava como uma evolução do surrealismo. O doce, quer dizer, a cereja no bolo, era o LSD, que teve no camarada Timothy Leary seu maior entusiasta.

A psicodelia enquanto movimento artístico estético teve uma plenitude relativamente curta e poucos representantes. Artistas como Rick Griffin e Wes Wilson já transitavam pela Pop Art, o Surrealismo e a Art Nouveu. Acabaram ficando conhecidos por conceber cartazes de shows e festivais, bem como capas de discos, que é onde a psicodelia é graficamente reconhecida em sua totalidade. Em telas, murais e obras mais imponentes, dessas que vão para as paredes dos museus, ela acaba sendo um sub-gênero, que aparece como um elemento. Por exemplo, a famosa Marilyn Monroe, do Andy Warhol, é uma obra Pop Art que carrega influências psicodélicas óbvias através de suas cores fortes. Esteticamente a psicodelia reinou soberana nos cartazes e capas de discos de 1967 até o comecinho da década de 1970. Depois disso, foi se diluindo entre os novos conceitos de estética que pintaram mundo afora.

A real é que a psicodelia é uma parada etérea, é uma mistura de sentidos mesmo. Não dá pra limitá-la a um conceito estético, musical ou filosófico, porque é isso tudo junto, cada elemento se alimentando um do outro. A filosofia alimenta a música, que alimenta a estética, as cores… é um todo. É o rock n’ roll, é a alegoria do paz e amor, é a liberdade sexual, é a expansão da mente através de alucinógenos que aguçam as percepções e sentidos, é uma metamorfose ambulante que nos deu Jimi Hendrix e Robert Crumb, só pra ficar em dois exemplos distintos e fundamentais.

A mistura de cores, música, arte, positividade e consciência de união e liberdade atravessou as décadas e hoje inspira toda uma coleção linda e super alto astral de camisetas Strip Me. Afinal, não dá pra parar no tempo, né? Ontem era The Byrds, hoje é Tame Impala, a psicodelia se renova e traz toda essa aura viajandona paz e amor em estampas alucinadas! Vem ver!

Vai fundo!

Para ouvir: Uma playlist com o ontem e o hoje da música psicodélica pra ouvir até chapar! Top 10 tracks psicodélicas!

Para assistir: Neste texto, não falamos sobre o Brasil, que também viveu intensamente a psicodelia com um jeitinho só nosso, o Tropicalismo. Para conferir esse astral brazuca da psicodelia, vale assistir o documentário O Barato de Iacanga, dirigido pelo Thiago Mattar, lançado em 2019 e disponível na Netflix.

Para ler: Existem vários bons livros sobre a vida e obra de Jimi Hendrix. O jornalista francês Franck Medioni escreveu um desses livros, uma biografia bem completa e que contextualiza muito bem a época em que Jimi Hendrix viveu seu auge como artista. O livro chamado simplesmente Jimi Hendrix – Biografia saiu pela editora L&PM e é super fácil de achar, além de ser baratinho. Leitura recomendada.

Delícias da Transformação

Delícias da Transformação

Os primeiros europeus que chegaram no Brasil á partir de 1500 deram de cara com povos esquisitíssimos. Além da língua incompreensível que falavam, tinham hábitos muito incomuns. Andavam nus, depilavam o corpo, tomavam banho diariamente, alguns eram muito agressivos, eram afeitos à guerra e, quando guerreavam, capturavam seus inimigos mais fortes e os comiam em rituais místicos. Em resumo, era um povo muito limpinho, mas canibal. Mas o ato de comer carne humana não era pelo simples alimento. Eles acreditavam que comendo seus inimigos, os índios incorporavam suas qualidades, como bravura, força e inteligência. Era o que acabou ficando conhecido como banquetes antropofágicos.

Vários europeus  do século XVI presenciaram e registraram tais banquetes em seus diários. O relato mais famoso foi o do alemão Hans Staden, que esteve no litoral do atual estado de São Paulo, mais especificamente em Ubatuba, em 1554 e foi capturado pelo índios Tamoio. A história desse cara é inacreditável, era pra ele ter sido comido, mas por uma porção de acasos, incluindo ele se passar por francês, ele ficou como prisioneiro por mais de um ano na tribo e acabou sendo libertado. Mas durante a sua estadia presenciou alguns desses rituais antropofágicos. Em 1557 Staden volta para a Europa, onde escreve um livro contando o que viveu no Novo Mundo, livro este que se torna um sucesso.

Ao raiar do século XX, mais de 350 anos depois de Hans Staden voltar pra casa e colocar no papel sua história, um intelectual chamado Eduardo Prado redescobre o livro de Staden e o publica no Brasil. Oswald e Mario de Andrade, Tarsila do Amaral e toda a turminha modernista da Semana de Arte de 1922 lê este livro e faz a conexão com o primitivismo e a busca de uma identidade que eles tanto queriam. Assim como os índios deglutiam seus inimigos ritualisticamente para absorver sua força, bravura, e inteligência, os modernistas entenderam que não precisavam renegar a arte que vinha da Europa, mas sim absorvê-la e transformá-la em algo novo e genuinamente brasileiro. Surge assim o Manifesto Antropofágico.

Assim como a história, a arte não é estática e imutável. Ela é volátil, deliciosamente mutante e adaptável aos novos tempos, aos novos conceitos. A arte não tem dono porque ela é única pra cada um, seja para quem a produz, como para quem a consome. É nessa aura livre, de absorção e transformação que a Strip Me está sempre se reinventando e apresentando novas coleções e novas estampas. É o caso da nova coleção com capas de discos clássicos em versão minimalista. Discos que, além de clássicos incontestáveis, verdadeiramente nos encantam e influenciam, e aparecem nesta coleção com a cara da Strip Me, numa estética moderna e descolada.

Além do mais são discos que tem tudo a ver com as transformações e antropofagias da arte. Afinal, uma das maneiras mais objetivas de descrever o primeiro disco dos Strokes, o brilhante Is Thsi It?, é dizer que se trata de uma banda que deglutiu avidamente Velvet Underground e Rolling Stones, para em seguida conceber uma música visceral e muito original, mas que não nega suas origens. Não é à toa que, quando este disco foi lançado, em 2001, muita gente alardeou se tratar do novo Nirvana.

Sim, porque a banda de Kurt Cobain havia sido catapultada para o sucesso dez anos antes com o disco Nevermind seguindo a cartilha da busca pela originalidade absorvendo tudo de bom que veio antes deles. Nirvana reinventou o punk rock, conseguiu impor no mercado moralista e irreal da música pop uma mistura inigualável de agressividade e lirismo com bases fincadas no mundo real, na apatia e inconformismo juvenil, além, é claro, de referências sensacionais da música. Iggy Pop & The Stooges, Bob Dylan.. ah, sim, e também David Bowie!

Mas é claro! Não dá pra não falar do camaleão do rock, a personificação da antropofagia musical, the one and only David Bowie! O cara ajudou a moldar toda a estética dos anos 70, transcendendo a música tanto quanto a capa o disco Alladin Sane, de 1973, que se tornou icônica. Neste disco, além de todas as suas influências pregressas, este disco é altamente antropofágico, pois Ziggy Stardust é morto e devorado, para que Bowie renasça como Alladin Sane. Com certeza um dos discos mais irrepreensíveis de Bowie. Um disco com grandes canções e uma capa tão marcante quanto aquela daqueles caras atravessando uma rua.

Se o Bowie é a personificação a antropofagia musical, os Beatles com certeza são a alma. É indiscutível que a transformação mais incrível que a música pop já viveu se deu por culpa desses 4 caras e Liverpool. É só pegar os principais discos de 1960 pra trás. Era tudo meio parecido. Rocks ótimos e muito divertidos, claro, de Chuck Berry e Little Richards, baladas lindas de Buddy Holly e Fats Domino, standards do jazz e uma florescente soul music que despontava com Isley Brothers e The Ronnetes. Os Beatles pegaram isso tudo, engoliram, digeriram e criaram um tempero muito próprio para uma nova música pop. Não só criaram, como desenvolveram! Chegaram a um ápice criativo altamente condimentado com o Sgt. Pepper’s… e alcançaram o equilíbrio e maturidade em seu último e genial suspiro fonográfico: Abbey Road.

Olha, essa coleção está incrível  e é altamente recomendável que você dê uma boa conferida. Aliás, é preciso estar atento e forte na nossa loja sempre! Afinal, estamos em constante transmutação, com novas ideias, estampas, coleções, diversão & arte.

Vai fundo!

Para ouvir: Uma playlist com o creme de la creme dos 4 discos que estampam essa nova coleção. Top 10 tracks Minimal Classic Albums.

Para ler: Chega a ser indispensável a leitura de Duas Viagens ao Brasil, o livro de Hans Staden escrito em 1557. Uma história épica, inacreditável e empolgante, que retrata a história deste alemão aventureiro e, em paralelo, do Brasil recém descoberto.

Brasil em foco.

Brasil em foco.

Quando você quer conhecer ou se aprofundar em alguma atividade, seja tocar um instrumento, desenhar, fotografar, praticar um esporte… a tendência é procurar os nomes mais importantes e influentes do ramo pra se inspirar e usar como referência, né? Usando o célebre pensamento de John Lennon, de pensar globalmente e agir localmente, é normal que a gente pense nos maiores nomes do mundo. O próprio Lennon, ou, sei lá, Jimi Hendrix na música, Michelangelo ou Van Gogh nas artes e por aí vai. Acontece que em todas as áreas artísticas temos grandes exemplos aqui mesmo, no Brasil. Em especial na fotografia, alguns são reconhecidos no mundo todo como grandes mestres. É o caso de Sebastião Salgado, German Lorca, Bob Wlfenson, entre outros.

A fotografia é uma parada muito interessante porque parte de uma técnica básica bem específica e científica, exposição à luz e controle de lentes para foco e profundidade. Entretanto, é uma expressão artística que permite que cada artista imprima sua marca, sua personalidade. Mais impressionante é notar que isso também ocorre no show business. Fotógrafos especializados em retratar artistas, concertos e moda  também se destacam,ainda que pareça (ou que efetivamente) façam fotos comerciais, dá pra notar a personalidade, sensibilidade e força individual no trabalho de cada um. Por isso hoje, vamos elencar aqui os 5 profissionais da fotografia mais emblemáticos e conhecidos que atuaram, e ainda atuam, no cenário pop brasileiro.

Rui Mendes

Talvez o mais conhecido fotógrafo da cena musical no país, Rui Mendes se formou em fotografia na Fort Vancouver Junior College, nos Estados Unidos, no final dos anos 1970. Voltou ao Brasil em seguida e começou a trabalhar na Folha de S. Paulo. Amante da música, se ligou rapidamente aos músicos de São Paulo e passou a fotografá-los. À medida que ia conhecendo mais gente, aumentava seu leque de artistas em seu portfólio e começou a fotografar inclusive para capas de discos. RPM, Lulu Santos, Camisa de Vênus, Legião Urbana, Barão Vermelho, Ira!, Titãs, Capital Inicial, Kiko Zambianchi, Inocentes, Ultraje a Rigor, Ratos de Porão, Sepultura, Skank são só alguns dos artistas que já olharam para a lente de Rui Mendes. Além disso seu trampo como fotojornalista também impressiona, em revistas como Vogue, Trip, Época, TPM, Galileu, entre outras.

Seu Jorge por Rui Mendes

Caroline Bittencourt

Morando e atuando hoje em Copenhagen, Dinamarca, Caroline é uma fotógrafa jovem, brasileira, que se destacou fotografando shows entre Rio e São Paulo nos anos 2000. Seguindo a regra, ela sempre nutriu muito amor e interesse pela música brasileira, o que facilitou para que ela pudesse circular com desenvoltura no cenário musical. Ela já retratou algumas capas de discos, mas sua fotografia impressiona mesma quando retrata shows. Ela tem uma sinergia com o artista em ação no palco, e soma-se a isso seu apreço pela técnica e o uso de equipamento essencialmente analógico. Estão em seu portfólio nomes como Adriana Calcanhoto, Orquestra Imperial, Cidadão Instigado, Criolo e Los Hermanos.

Adiana Calcanhoto por Caroline Bittencourt

Marcos Hermes

Carioca, Marcos Hermes começou a fotografar ainda jovem no começo dos anos 1990. Logo se destacou com seus trabalhos para revistas como a Bizz, Claudia, Veja e Quatro Rodas. Se especializou em fotografar concertos e shows, e conseguiu ir muito longe com as suas fotos. Além de já ter fotografado nomes consagrados do Brasil como Caetano Veloso, Maria Bethânia, Ney Matogrosso e Elza Soares, Marcos Hermes também já trabalhou com o supra sumo da música pop, fotografando oficialmente Rolling Stones, Paul McCartney, Elton John, Beyoncé, Amy Winehouse, Steve Wonder, entre outros.

Caetano Veloso por Marcos Hermes

Daryan Dornelles

Um gênio da fotografia brasileira, Dornelles é um dos fotógrafos com mais personalidade  dos últimos tempos. Seja para capas de discos, fotos de divulgação ou registrando shows, ele consegue uma sintonia fina entre a obra do fotografado e a imagem que será reproduzida, resultado de muita intimidade com a música. Dornelles já declarou que quando vai fotografar determinado artista, ouve sua obra exaustivamente para alcançar essa conexão. São dele algumas das imagens mais marcantes de artistas como Chico Buarque, Martinho da Vila, Criolo, Marisa Monte e Tiê.

Emicida por Daryan Dornelles

J.R. Duran

José Ruaix Duran nasceu em Barcelona, na Espanha, mas foi no Brasil que ele se consagrou um dos mais requisitados fotógrafos do mundo, e onde morou por um longo período entre sua carreira de mais de 50 anos. Então dá pra dizer que ele é brasileiro sem medo de errar. Ele talvez seja o fotógrafo do show business mais conhecido do país. Com seu estilo forte, nítido, charmoso e elegante, J.R. Duran fotografou algumas das capas mais importantes da revista Playboy do Brasil, além de consagrado na moda e publicidade. Pra se ter ideia, ele já ganhou dez Prêmios Abril de Fotojornalismo, passando a ser horsconcours desse prêmio.

MC Guimê por J.R. Duran

A fotografia junta tanta coisa boa de forma artística, representando a música e a moda com beleza e intensidade, que tem tudo a ver com a Strip Me. Também somos apaixonados por fotografia, por isso acabamos de lançar uma coleção especial com este tema! Vem conferir!

Vai fundo!

Para ouvir: Uma playlists com alguns dos artistas que foram retratados pelos fotógrafos citados neste post. Top 10 tracks Foto BR!

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