100 anos da SAM-SP: Origens

100 anos da SAM-SP: Origens

Nenhuma revolução é legítima se não passar pela arte! A gente não quer só comida, a gente quer comida, barulho diversão e arte! Nenhuma revolução é legítima se não tiver uma identidade própria muito clara! O orgulho de ser quem somos passa necessariamente pelo autoconhecimento. Nenhuma revolução é legítima se não causar consequências, se não deixar marcas permanentes! Portas da percepção abertas para tudo que é novo! Novas formas, novas cores. Novos Baianos. Deglutição tropical, antropofagia cultural. Nesta altura do campeonato, você já deve estar desconfiado, mas eu vou te confirmar. É fevereiro! E nós vamos passar todo o mês celebrando uma das mais legítimas revoluções brasileiras! A Semana de Arte Moderna de 1922, que neste mês completa 100 anos. Então se prepara! Porque vão ser quatro posts, cada um abordando um aspecto específico deste que foi, com absoluta certeza, o momento mais importante das artes no Brasil. 

É lógico que pra começar a gente precisa dar aquela geral na situação toda antes de a Semana de Arte Moderna ser idealizada e acontecer. E aqui é fundamental que a gente dê uma olhada no contexto histórico do Brasil até então. Era o começo do século XX e o Brasil tinha recentemente se tornado uma república, depois de um golpe militar todo esculhambado, mas que acabou depondo o imperador Dom Pedro II. No início da república, apesar de a cidade do Rio de Janeiro ser a capital do país, era São Paulo quem dava as cartas, pois a maior parte da renda do Brasil vinha do café, e os estados de São Paulo e Minas Gerais eram os maiores produtores dessa delícia. Você já ouviu falar na escola da república do café com leite, né? Pois então, é dessa época que estamos falando. À medida que os cafeicultores enriqueciam e acabavam por colocar quem bem entendiam nos cargos públicos, a cidade de São Paulo crescia, tornava-se cosmopolita, vibrante. E começam a pipocar pelos bares e cafés da cidade, que a partir de 1905 podiam ficar abertos até tarde da noite graças à instalação da energia elétrica, muitos intelectuais. 

Importante lembrar uma coisa aqui. As camadas sociais eram muito mais definidas no começo do século XX. Existiam os muito ricos, a classe média, que tinha uma vida confortável, e os muito pobres, essencialmente negros “livres” desde 1888, que viviam sem emprego em cortiços e barracos na periferia. Claro que já existia uma cultura popular entre os pobres, mas era tudo muito separado. Intelectuais e artistas reconhecidos eram todos de famílias ricas, jovens que estudaram na Europa e etc. As coisas só começariam a mudar e o popular se misturar com o erudito (leia-se o pobre com o rico) com a popularização do rádio, a partir da década de 1930. Isso posto, fica mais claro entender quem eram esses artistas e intelectuais que criariam o movimento modernista brasileiro e acabariam dando luz à Semana de Arte Moderna. 

Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Menotti del Picchia, Victor Brecheret, Anita Malfatti, Sérgio Millet, Di Cavalcante e tantos outros eram todos artistas e intelectuais ricos, em contato com o que havia de mais atual nas artes da Europa. Eles começaram a se reunir e debater sobre o atraso do Brasil no aspecto cultural. Realmente, o Brasil, conservador que só ele desde sempre, tinha uma literatura baseada no parnasianismo (uma escola literária que preza pelo uso mais rebuscado da língua, poesias com rimas dentro da métrica… enfim, uma chatice!), a pintura classicista, que respeita formas, cores, sombras, luz, etc, e uma música erudita baseada nos compositores clássicos europeus. Deu pra sacar que era tudo importado, né? Não existia uma linguagem genuinamente brasileira. Vá lá que na literatura já rolava o movimento primitivista, ou seja, alguns autores que olhavam para dentro do Brasil para ambientar suas ideias. Seu maior nome foi Monteiro Lobato, com seu personagem clássico Jeca Tatu. Entretanto, a linguagem de obras como a de Lobato ainda eram rebuscadas na escrita, apesar de trazer elementos brasileiros. Mas até a turma que seria conhecida no futuro como modernista trazia seus conceitos de arte de vanguarda, como o cubismo, surrealismo e etc, da Europa. 

Além de tudo, 1922 é um ponto de intersecção fundamental entre a história política e artística, que gerou mudanças essenciais para a história do Brasil como conhecemos hoje. Como já foi dito aqui, no começo do século XX era São Paulo quem dava as cartas no país. À medida que o ano de 1922 se aproximava, era preparada uma infinidade de festividades Brasil afora, pois aquele seria o ano do primeiro centenário da independência do país. E existe um aspecto muito importante da história que precisa ficar claro pra todo mundo: A história é fabricada! Os fatos chegam até nós no colégio distorcidos, exagerados, com alguns lados ocultos. A independência do Brasil é um ótimo exemplo disso. Por muito tempo após o fatídico 7 de setembro, era considerada como a data oficial da independência o dia 12 de outubro de 1822, que foi quando aconteceu a solenidade de coroação de Dom Pedro I como imperador do Brasil. O revisionismo histórico impulsionado por Dom Pedro II e pelos militares positivistas, já quase no fim do império, motivou algumas mudanças, fazendo com que alguns momentos soassem mais heroicos do que realmente foram. Assim passou-se a considerar o 7 de setembro como data oficial, mas sem grande alarde. Após a proclamação da república e São Paulo tendo seus intelectuais e milionários mandando no país, um novo revisionismo histórico passou a acontecer, ainda mais com o centenário da independência se avizinhando. Até então, a história do Brasil era essencialmente contada tendo como cenário os estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Pernambuco. São Paulo, buscando algum protagonismo na história, deu ênfase na independência ter sido proclamada às margens do Rio Ipiranga e criou a imagem dos bandeirantes como grandes heróis desbravadores, que até então não tinham esse nome e eram apenas caçadores de pedras preciosas e exterminadores de indígenas, ou seja, nada mais que uma nota de rodapé nas páginas da história. 

Com a década de 1920 florescendo, o momento era de transformação, crescimento e busca por uma identidade própria, genuinamente brasileira. Os intelectuais e artistas mais ligados a vanguarda já davam seus primeiros passos e sofriam os ataques dos conservadores. Em 1913 o escultor Lasar Segall fez uma pequena exposição com obras claramente influenciadas pelo cubismo de Pablo Picasso e Georges Braque, que foi recebida com entusiasmo por Mário de Andrade e sua turma, mas recebeu críticas pesadas da imprensa e do público em geral. Em 1917 Anita Malfatti faz sua mais famosa exposição, com telas calcadas no surrealismo e modernismo. Monteiro Lobato escreve um artigo que ficou famoso, chamado Paranoia ou Mistificação. Neste artigo, uma crítica a exposição de Malfatti, Lobato destila todo o seu desprezo por uma pretensa arte, que não segue regras, que é provocadora e de qualidade questionável. Tal artigo foi publicado no jornal O Estado de S. Paulo e é considerado o marco zero do movimento modernista. Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Menotti del Picchia, eram todos amigos e passaram a se reunir com frequência para encontrar meios de responder artigos como aquele de Monteiro Lobato, além de divulgar e enaltecer uma arte mais moderna e repudiar as artes encharcadas de conservadorismo e padrões estéticos. 

Com todas essas cartas na mesa, o ano de 1922 nasce cheio de promessas de mudanças. E se você está achando estranho não ter lido até agora o nome do Tarsila do Amaral, ou sobre o Abaporu, sobre o Macunaíma e sobre o manifesto Pau Brasil e o manifesto Antropofágico, não se desespere! Ainda tem muita história pela frente! Nos próximos textos, vamos falar sobre como foi a Semana de Arte Moderna, as obras, os textos, as músicas que rolaram no evento, como foi a recepção do público e da crítica, depois vamos falar das consequências e das principais obras modernistas e também vamos falar sobre o impacto décadas depois e como toda essa aura seria recriada nas mãos dos tropicalistas. Mas hoje nós paramos por aqui, em janeiro de 1922, quando Mário de Andrade, em uma de suas mais célebres obras, Paulicéia Desvairada, vaticina logo no prefácio: “Está fundado o Desvairismo!” 

Enquanto você espera os próximos textos, dá uma olhada nas estampas novíssimas da Strip Me sobre a Semana de Arte Moderna de 1922, isso sem falar de tantas outras sobre arte, música, cinema, cultura pop e muito mais! Confere lá na nossa loja as novidades!  

Vai fundo! 

Para ouvir: A produção musical no início do século XX era bem limitada e essencialmente de música erudita, né. Então, ao longo desses 4 posts sobre os 100 anos da Semana de Arte Moderna, vamos caprichar numa playlist cheia de brasilidade, com o que rola de som enquanto os textos são produzidos Uma playlist que vai crescendo a cada post, até chegar a ser um top 40 tracks! SAM-SP 1922 – Top 10 Tracks

Para assistir: Em 2002 a TV Cultura fez um ótimo documentário sobre a semana de Arte Moderna de 1922. Com vários depoimentos de gente que fez parte do movimento modernista, em gravações antigas, claro, é um doc que vale a pena demais ser visto! Tá completinho no Youtube

Para ler: Com certeza a obra mais emblemática da literatura modernista brasileira veio a ser publicada 6 anos depois da Semana de Arte Moderna. Claro, é o indispensável Macunaíma, de Mário de Andrade. Um livro delicioso, divertido e que diz muito, mas muito mesmo, sobre o Brasil de ontem, de hoje e de sempre. Leitura necessária! 

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