Números! Estamos cercados de números por todos os lados!

Números! Estamos cercados de números por todos os lados!

Meu nome é Paulo, eu tenho 38 anos de idade, sou publicitário e eu detesto matemática. Para se ter uma ideia, eu me formei em publicidade em 2012, já com 30 anos nas costas. Mas antes, aos 18 anos, ingressei na faculdade de jornalismo, a qual não concluí. Às vésperas de prestar o vestibular, ainda indeciso, escolhi o jornalismo por um conjunto de fatores, entre eles, um dos que mais pesou foi que eu havia conferido a grade curricular do curso e não tinha nenhuma disciplina ligada a qualquer tipo de cálculo matemático. Entretanto a vida, essa vadia que amamos, nos ensina na marra que não adianta a gente querer controlar muito nossos passos. Sendo assim, cá estou hoje escrevendo um texto sobre números e equações. E apesar de um pouco confuso, admito que estou achando isso tudo muito interessante.

A real é que a gente não pára muito pra pensar o quão presente os números e a matemática estão na nossa vida e nas coisas que nós gostamos. Algumas expressões artísticas dependem incondicionalmente da matemática, como a música e principalmente a fotografia e, por consequência, o cinema. As escalas musicais e campos harmônicos tão diversos nada mais são que sequências padronizadas que podem ser logicamente entendidas através de alguns cálculos. Da mesma forma, a fotografia depende do cálculo entre a abertura do obturador e do diafragma para equilibrar a entrada de luz e a profundidade de campo que vai dar o foco desejado. Mas a coisa vai muito além disso. Há indícios de que uma fórmula matemática está presente na natureza, nas artes plásticas e até na formação de galáxias.

Muitos séculos atrás, um  matemático italiano chamado Leonardo Pisa, também conhecido como Leonardo Fibonacci, chegou a uma equação matemática infinita depois de muito analisar várias coincidências, Especialmente após observar o crescimento exponencial de uma população de coelhos, em 1202 ele registrou a famosa Sequência Fibonacci. Basicamente, é uma sequência numérica que começa pelo número 1, seguido pela soma de cada numeral com o número que o antecede. Ou seja, 1 + 1 = 2, 2 + 1 = 3, 3 + 2 = 5, e assim por diante. Até aí, para mim, tá tranquilo. Quando começam a entrar letras e a serem formadas equações, a coisa fica um pouco mais confusa pra mim, de qualquer forma, vou colocar aqui. É assim: Fn = Fn – 1 + Fn – 2, no qual “n” é o chamado índice e “fn” o termo geral, então, f2 = f1 + anterior = 1, f3 = f2+f1 = 1+1 = 2, f4 = f3+f2 = 2+1 = 3, f5 = f4+f3 = 3+2 = 5 e assim por diante. Pra quê colocar letras misturadas com números eu realmente não sei. Deve ser só pra confundir mesmo. Enfim, segue o baile.

Até aí, nada de mais, né… uma sequência de números. Mas a coisa se complica, mas fica mais interessante também. Ao longo do tempo a sequência Fibonacci foi sendo estudada e foi convertida em figuras geométricas. Ao transformar esses números em quadrados e organizá-los de maneira geométrica, pode ser construído um retângulo com características muito específicas, mas tão específicas que ele é chamado de Retângulo de Ouro. O lance é que se você dividir esse retângulo em um quadrado e um outro retângulo, este novo retângulo será igual ao original. Partindo da sequência 1, 1, 2, 3, 5, 8, organizam-se os números e os separam em quadrados. Dentro deste grande retângulo, você vai ter 6 quadrados de diferentes tamanhos. Se você partir do vértice entre os dois menores quadrados traçando uma espiral, você terá a também famosíssima Espiral de Fibonacci. E é aqui que tudo fica realmente impressionante.

Em inúmeros elementos da natureza você encontra espirais que são idênticas à Espiral de Fibonacci. Estamos falando de conchas marinhas, caramujos, plantas, flores e até furacões e formações de galáxias. Até pode ser uma baita coincidência, mas faz a gente pensar. Afinal, o velho Fibonacci, lá no século XIII, não estava pensando em nada disso quando estava lá contando coelhos. Mas ainda tem mais. Ainda em cima dessa sequência numérica, chegou-se à Proporção Áurea, um conceito visual famosão nas artes plásticas, arquitetura e design, por ser considerado harmônico para os olhos humanos. O valor da proporção áurea é de aproximadamente 1,618, o chamado número Phi, que é obtido quando se divide um número com o seu antecessor da sequência de Fibonacci. Cuidado pra não confundir com o valor de Pi. São duas letras gregas diferentes: phi (Φ) e Pi (π).

A loucura é que se você aplicar essa proporção áurea e até sobrepor a Espiral de Fibonacci nas principais obras de arte, ela vai encaixar certinho, naquele esquema do ponto focal onde você começa a ver a obra e como seu olhar vai sendo atraído através dela. Dá pra sacar isso na Monalisa e no Homem Vitruviano do DaVinci, n’A Criação de Adão do Michelangelo, na Moça com Brinco de Pérola do Vermeer e em vários lugares da Igreja Sagrada Família, obra arquitetônica mais audaciosa e genial do Gaudí.

Mas não acabou, cara! Essa danada dessa sequência numérica é amplamente usada em estudos seríssimos. Na física, é aplicado no estudo da ótica e raios de luz. Na ciência da computação e elaboração de games ela é um dos fundamentos para organizar algoritmos, processamento de textos, ordenação de estrutura de dados, engenharia de software e testes de programas. Até o mercado financeiro se faz valer do velho Fibonacci, pois dizem que dá pra aplicar a sequência naqueles gráficos das bolsas de valores e ter uma ao previsão do mercado, se ações vão subir ou cair e por aí vai. Nada comprovado, claro. Mas, olha, eu não duvido não.

Crescente, harmônica, impressionante, que se relaciona com a natureza, com o universo e com as artes. Assim também é a Strip Me, que está sempre trazendo estampas novas, em harmonia com a atualidade e as artes, numa produção em harmonia com a natureza. É só clicar e conferir!

Vai fundo!

Para ouvir: Já que estamos falando de matemática, cálculos e equações, temos aqui uma playlist de gênios! Aqui só entra quem tem altas graduações, phD e etc. Tem físisco, engenheiro, bioquímico… em todas as bandas que estão nessa playlist tem um integrante que é um doutor sabe-tudo! Top 10 tracks com PhD!

Para assistir: Tem uma série de 2012 muito boa chamada Touch. Ela durou pouco, só duas temporadas. Mas que vale a pena procurar pra assistir. É sobre um jornalista que  passa a criar seu filho autista sozinho, após sua esposa, e mão do guri, morrer durante o atentado de 11 de setembro de 2001. O garoto não fala, mas tem o hábito de escrever muitos números. Através da nossa querida sequência de Fibonacci, o pai consegue entender um padrão e se comunicar com o filho. Mas a série não fica só nisso, tem várias outras tretas no meio. Vale a pena ver, mas não é muito fácil de achar.

All That Jazz!

All That Jazz!

Pra começar, é tudo.

Liberdade, sentimento, fluidez, ritmo, história, mistura, quase nenhum ou total excesso de estudo. Se parar pra pensar, é realmente o começo, a revolução popular em cima do erudito. Mas não é assim, de qualquer jeito, qualquer nota, fora do tempo, da pauta ou do espaço. Tem que ser a nota certa, a nota azul que dá a intenção, o frisson, a emoção, muito bem colocada. Se há padrão, é melhor quebrar ou expandir. Sem perder o ritmo, o chimbau que abre e fecha no compasso, um trem chiando ao longe sobre a linha do tempo. Parece confuso, eu sei, mas tudo se encaixa. Traduzindo na língua universal da música, fica mais fácil. It’s all that jazz!

Sem perder o ritmo, seguimos na linha do tempo. Tudo se mistura, lenda e realidade, trabalho e arte, história, geografia, vida e morte. O sul dos Estados Unidos no fim do século dezenove não era nada fácil. Ainda mais pra quem era preto, filho de escravo. Via na plantação de algodão um destino inevitável, não tinha vodu, bourbon ou honk tonk que remediasse. O jeito era cantar na lavoura e na igreja. Lamentos, spirituals, expressão de tristeza negra na essência, na falta de melhor palavra que trouxesse luz, nasceu o blues. Arkansas, Delaware, Georgia, Mississippi, o som se espalhava pelas planícies feito grama, até que achou residência fixa em New Orleans, Louisiana.

As vastidões das planícies, das plantações de algodão, depois, com as cidades crescentes, movimentadas e, claro, sempre segregadas, não tinha como o blues ser uma coisa só. Foi se multiplicando. Swing, be bop, isso bem no comecinho. Depois virou jazz pra valer, free jazz, soul music, funk, hip hop e R&B. Se espalhou mesmo. All that jazz, é tudo! Música, sofisticação, improviso, ato político. Nunca é só música, tem sempre um algo mais, um impulso. Mas não vamos perder o ritmo, ainda estamos no princípio. Nos honk tonks, que eram os bares e bordéis para negros com música ao vivo. Mas o jazz indomável não se prendia a um simples quartinho e ia pra rua, através de garotos tocando juntos na calçada, um deles, inclusive, vai ficar mundialmente conhecido, Louis Armstrong e seu trompete fantástico. E ainda nem chegamos em 1920. Então vamos acelerar o beat.

Pops, como era conhecido o Louis Armstrong, saiu das ruas pra ganhar o mundo, e revolucionar, popularizar, o jazz no meio do caminho. Foi o primeiro a montar uma banda com músicos pretos e brancos na mesma formação, ganhou as telas de cinema e encheu as ondas do rádio de grandes canções. Na sua cola vieram Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Ray Charles, Dizzy Gillespie, Charlie Parker, Miles Davis, Coltrane, Duke Ellington… sem falar em Sinatra, Tony Bennett, Nat King Cole. Cara, realmente o mundo mudou depois de New Orleans e seus honk tonk boys and girls.

Dito tudo isso, se você ainda pensa que o jazz é só uma cornetinha solando num ritmo quebrado de três compassos ou cinco, se situa! O jazz é a música moderna na essência. É música negra folclórica, é música erudita europeia, ópera e o diabo, tudo junto e misturado. Desde os terrenos encharcados de New Orleans ao blues elétrico de Chicago. Do jazz veio o diabo cristão do rock, Black Sabbath e Rolling Stones, a santeria Black Magic Woman de Carlos Santana e a psicodelia de Jimi Hendrix. O jazz está em tudo. Até no ritmo alucinado da escrita de Kerouac.

O jazz é a mistura, o orgulho, a modernidade, a sofisticação. Mais que música, é um mood, um estado de espírito, um way of life, viver na brisa, no improviso, aquela intersecção que nos encanta a todos, inclusive muito inspira a Strip Me, o jazz é a esquina mais cool entre a diversão e a arte.

Vai fundo!

Para ouvir: Elencar as canções mais importantes do jazz é trabalho hercúleo, é muita coisa! Mas a gente se esforçou pra te trazer um top 10 tracks jazz standards.

Para assistir: Um dos caras que melhor representam a música negra e, em especial o jazz, é Quincy Jones. Além de músico fantástico, Quincy também se enveredou na produção musical e trabalhou com grandes gênios, de Ray Charles a Michael Jackson. O documentário Quincy, lançado em 2018, dirigido pela dupla Alan Hicks e Rashida Jones e produzido pela Netflix é maravilhoso e mostra boa parte da história do jazz e da música opo.

Para ler: Louis Armstrong é considerada unanimemente como a personificação do jazz. Não à toa. Sua trajetória se confunde com a do gênero musical e isso é contada deliciosamente no excelente livro Pops, A Vida de Louis Armstrong, escrito pelo Terry Teachout e lançado em 2010 pela editora Lafonte. Leitura mega recomendada!

Double Trouble

Double Trouble

Século XXI, a tecnologia se supera a cada mês! Robôs executando tarefas como limpar a casa, veículos que não precisam de um ser humano ao volante, comunicação instantânea por vídeo entre pessoas em diferentes continentes, estudos avançados por uma vacina contra o câncer. Tudo isso e muito mais já é realidade para nós. Entretanto, existe uma coisa que a ciência, a tecnologia e a medicina ainda não conseguiram realmente desvendar: a mente humana. Avançamos muito, é verdade. Hoje em dia são conhecidos vários transtornos e distúrbios mentais tais como o déficit de atenção, hiperatividade, transtorno bipolar, borderline e tantos outros. Mas tem um deles que chama mais a nossa atenção por ter inspirado algumas obras muito marcantes: o TDI, Transtorno Dissociativo de Identidade, um distúrbio mental terrível que era conhecido antigamente por Dupla Personalidade.

O TDI é um distúrbio mental causado, na maioria dos casos, por traumas muito fortes na infância, como abusos sexuais, uma morte muito trágica de alguém muito próximo e assim por diante. Para apagar este trauma, a pessoa cria uma nova personalidade, bem diferente de si e que não conhece ou vivenciou aquele trauma. Com o passar do tempo e estudando mais a fundo a doença, constataram que muitos pacientes desenvolviam mais de uma personalidade. Por isso o termo dupla personalidade foi abandonado e substituído pelo TDI. Além de ser uma doença difícil de ser diagnosticada e tratada, ela também é muito rara. Uma doença tão rara que seria improvável que nós a conhecêssemos tão bem e estivéssemos falando sobre ela num blog de cultura pop, não fosse por um único fator: o cinema!

Alguns dos grandes filmes da história do cinema trazem um protagonista ou um vilão (ou um protagonista vilão) com algum distúrbio mental, em geral o TDI. Separamos 5 filmes para comentar aqui, mas tem vários outros que merecem uma menção honrosa. O excelente Fragmentado, do M. Night Shyamalan e lançado em  é um grade exemplo de um caso com múltiplas personalidades e é um baita filme! As Duas Faces de um Crime, dirigido pelo Gregory Hoblit e lançado em 1996 é outro filmaço onde um jovem Edward Norton dá um show em seu primeiro papel de destaque. Também não dá pra deixar de fora Ilha do Medo, filme de 2010 do nosso amado Martin Scorsese. E, pra não dizer que só estamos falando de filmes densos e sombrios, também tem o divertidíssimo Eu, Eu Mesmo e Irene, escrito e dirigido pelos irmãos Bob e Peter Farrelly, lançado em 2000 com Jim Carrey como protagonista.  E, é claro, tem muitos outros. Mas vamos aos nossos escolhidos.

Já começamos com os dois pés no peito! Um filme de 1960, de um dos diretores mais geniais e controversos de todos os tempos, um filme que mudou o jeito de se fazer cinema e pautou todos os filmes de suspense e terror que viriam depois dele. Psicose é um clássico absoluto, tem a sequência de cenas mais reproduzida da história, uma trilha sonora emblemática e um roteiro brilhante que parece que vai contar a história de uma bela mulher que fica com uma bolada em dinheiro de seu chefe, mas na verdade o trunfo da história é um jovem perturbado e dominado pela mãe. Com este filme Alfred Hitchcock passou de um diretor aclamado para um dos grandes gênios do cinema.

Travis Bickle não tinha exatamente um distúrbio de dupla personalidade. Mas não dá pra dizer também que era um cara são, gozando de 100% de suas faculdades mentais. No mínimo era um sociopata com borderline fortíssima! Mas o que fez com que ele figurasse neste top 5, além de seus distúrbios mentais, é a icônica cena ao espelho onde ele fala ameaçadoramente consigo mesmo com uma arma na mão. “You talking to me? Well I’m the only one here. Who the fuck do you think you’re talking to?”. Taxi Driver é um dos mais importantes filmes de Martin Scorsese. Retrata uma cidade decadente e um veterano de guerra, que passou anos matando no Vietnã, tentando se readaptar à vida em sociedade. Além de tudo, é Robert DeNiro numa atuação impressionante.

Aqui mais um filme onde não há um caso evidente de dupla personalidade. Mas se trata de um personagem riquíssimo, divido entre diferentes temperamentos. Jack Torrance é um escritor que  leva sua família para passar o inverno em um hotel isolado, para que ele possa escrever seu livro em paz. Mas ali uma estranha aura vai dominar Jack, transformando-o num homem violento, enquanto seu filho, com dons paranormais, tem as mais bizarras visões. O Iluminado é uma verdadeira obra de arte. Esteticamente é maravilhoso, mesmo sendo um filme de terror e suspense, tem muitos momentos com cores vivas e transita entre o sombrio e o colorido com perfeição, sem falar nos enquadramentos irretocáveis. Claro, direção do mestre Stanley Kubrick, além do roteiro baseado no livro de mesmo nome de Stephen King, além de ter Jack Nicholson arrebentando no papel principal. É um filme perfeito! Foi lançado em 1980 e ainda segue incrivelmente moderno e surpreendente.

Agora sim vamos falar do supra sumo da dupla personalidade no cinema! O único problema é que a primeira regra é que a gente não pode falar sobre o Clube da Luta. Mas a gente ignora as regras pra falar deste que é um dos filmes mais impressionantes feitos nos anos 90! Um filme tão marcante que é impossível que você não tenha ouvido falar no Tyler Durden. O filme saiu em 1999, teve direção brilhante do David Fincher e roteiro baseado no excelente livro de mesmo nome de Chuck Palahniuk. Durante uma terrível crise de insônia e identidade, um jovem consumista e solitário se torna cada vez mais próximo do indomável e charmoso Tyler Durden, com quem conversa muito sobre a vida, os dilemas da sociedade, e acaba criando um clube secreto de luta, para purificar o corpo e a alma através da violência. Um filme maravilhoso e perturbador com atuações fantásticas e uma trilha sonora animal!

Finalizamos essa lista com o filme mais polêmico de 2019! Por se tratar de mais um filme de personagens de histórias em quadrinhos, muita gente desdenhou. Mas, depois de lançado, o filme gerou muita discussão, foi acusado de incentivar o caos e a violência. Tudo conversa fiada! Joker é um filme bom demais, com um protagonista carismático e intrigante, um ótimo roteiro e amparado por excelentes referências. Sim, afinal, este certamente é o filme do Todd Phillips que os fãs do Martin Scorsese mais gostam! Joker tem a estética de Taxi Driver e o roteiro muito inspirado no Rei da Comédia, ambos grandes filmes de Scorsese. Sim, o filme conta a origem do mais famosos vilão do Batman, mas vai muito além dos quadrinhos e nos entrega uma história surpreendente de um comediante com sérios problemas mentais tentando se estabelecer no meio artístico. É um filmaço!

Você já sabe que filme bom de verdade sempre dá as caras na Strip Me, não é? Além das estampas novas de Taxi Driver e Clube a Luta que você viu por aqui, tem muitas outras estampas incríveis relacionadas á sétima arte na nossa loja. É só chegar pra conferir!

Vai fundo!

Para ouvir: Uma playlist todinha trabalhada na loucura! Canções sobre distúrbios mentais no capricho! Top 10 Broken Minds Tracks!

Para assistir: A gente falou no texto da revolução que Hitchcock causou com Psicose. Mas ainda dá pra ir mais pra trás pra entender melhor a estética dos filmes de terror e, ainda por cima, contemplar a primeira vez em que aparece no cinema um evidente caso de distúrbio de dupla personalidade.  Estamos falando do clássico de 1920 O Médico e o Monstro, título original Dr. Jekill and Mr. Hyde, dirigido pelo aclamado John S. Robertson. Pra quem gosta decinema e curte tentar entender quem somos e de onde viemos, este filme é indispensável! E dá pra ver todinho de graça no Youtube!

Para ler: Vamos recomendar aqui a leitura do, já citado no texto acima, livro Clube da Luta, do Chuck Palahniuk. Além de ser uma história incrível e super bem contada, o livro traz muito mais detalhes sobre os planos do Projeto Mayhem e um final um pouco diferente do filme. Vale a pena demais ler! Tem uma edição de 2012 da editora Leya que é facinho de achar e num preço bem acessível.

A Viagem da Psicodelia

A Viagem da Psicodelia

Liberdade, expansão mental, aglutinações sensoriais, as portas de Willian Blake e Aldous Huxley totalmente escancaradas para o livre acesso. Essa é a definição mais completa de psicodelia. Mas se você procura uma parada mais racional, podemos dizer que o termo foi usado pela primeira vez em 1957, numa reunião da Academia de Ciência de New York pelo psiquiatra britânico Humphry Osmond. A origem etimológica é a junção de duas palavras gregas, psique (ψυχή – alma) e delein (δηλειν – manifestação). Ou seja, psicodelia é a manifestação da mente, um estado de estímulo sensorial e psíquico exacerbado. Além de um estado mental, a psicodelia também é o nome dado a todo um movimento artístico multimídia que coloriu o mundo à partir de 1967.

Aquele miolinho da década de 60 chega a ser difícil de explicar, porque foi uma sucessão absurda de fatos que acabariam por formatar o movimento hippie e a psicodelia. A geração de jovens daquela década eram os filhos do pós Segunda Guerra Mundial. Com o fim da Guerra, os Estados Unidos tomaram a dianteira da economia mundial e estabeleceram o american way of life e o consumismo em sua sociedade. A Guerra Fria decolava e o combate aos comunistas gerou, entre outras coisas ruins, a Guerra do Vietnã. Em 1967 o conflito no Vietnã já se mostrava totalmente descabido, jovem nenhum queria largar tudo para morrer entupido de napalm em selvas asiáticas. Estes mesmos jovens estavam crescendo sob a sombra da geração anterior que começou a questionar tudo isso. Era a Geração Beat, que falava de auto conhecimento, desprezo ao consumismo e a entrega à vida de excessos. Em paralelo a música avançava, o rock n’ roll deixava de ser uma música inocente para se tornar uma voz empolgante de protesto. Para completar, as artes plásticas viviam um momento de total transformação com a Pop Art, que se apresentava como uma evolução do surrealismo. O doce, quer dizer, a cereja no bolo, era o LSD, que teve no camarada Timothy Leary seu maior entusiasta.

A psicodelia enquanto movimento artístico estético teve uma plenitude relativamente curta e poucos representantes. Artistas como Rick Griffin e Wes Wilson já transitavam pela Pop Art, o Surrealismo e a Art Nouveu. Acabaram ficando conhecidos por conceber cartazes de shows e festivais, bem como capas de discos, que é onde a psicodelia é graficamente reconhecida em sua totalidade. Em telas, murais e obras mais imponentes, dessas que vão para as paredes dos museus, ela acaba sendo um sub-gênero, que aparece como um elemento. Por exemplo, a famosa Marilyn Monroe, do Andy Warhol, é uma obra Pop Art que carrega influências psicodélicas óbvias através de suas cores fortes. Esteticamente a psicodelia reinou soberana nos cartazes e capas de discos de 1967 até o comecinho da década de 1970. Depois disso, foi se diluindo entre os novos conceitos de estética que pintaram mundo afora.

A real é que a psicodelia é uma parada etérea, é uma mistura de sentidos mesmo. Não dá pra limitá-la a um conceito estético, musical ou filosófico, porque é isso tudo junto, cada elemento se alimentando um do outro. A filosofia alimenta a música, que alimenta a estética, as cores… é um todo. É o rock n’ roll, é a alegoria do paz e amor, é a liberdade sexual, é a expansão da mente através de alucinógenos que aguçam as percepções e sentidos, é uma metamorfose ambulante que nos deu Jimi Hendrix e Robert Crumb, só pra ficar em dois exemplos distintos e fundamentais.

A mistura de cores, música, arte, positividade e consciência de união e liberdade atravessou as décadas e hoje inspira toda uma coleção linda e super alto astral de camisetas Strip Me. Afinal, não dá pra parar no tempo, né? Ontem era The Byrds, hoje é Tame Impala, a psicodelia se renova e traz toda essa aura viajandona paz e amor em estampas alucinadas! Vem ver!

Vai fundo!

Para ouvir: Uma playlist com o ontem e o hoje da música psicodélica pra ouvir até chapar! Top 10 tracks psicodélicas!

Para assistir: Neste texto, não falamos sobre o Brasil, que também viveu intensamente a psicodelia com um jeitinho só nosso, o Tropicalismo. Para conferir esse astral brazuca da psicodelia, vale assistir o documentário O Barato de Iacanga, dirigido pelo Thiago Mattar, lançado em 2019 e disponível na Netflix.

Para ler: Existem vários bons livros sobre a vida e obra de Jimi Hendrix. O jornalista francês Franck Medioni escreveu um desses livros, uma biografia bem completa e que contextualiza muito bem a época em que Jimi Hendrix viveu seu auge como artista. O livro chamado simplesmente Jimi Hendrix – Biografia saiu pela editora L&PM e é super fácil de achar, além de ser baratinho. Leitura recomendada.

Delícias da Transformação

Delícias da Transformação

Os primeiros europeus que chegaram no Brasil á partir de 1500 deram de cara com povos esquisitíssimos. Além da língua incompreensível que falavam, tinham hábitos muito incomuns. Andavam nus, depilavam o corpo, tomavam banho diariamente, alguns eram muito agressivos, eram afeitos à guerra e, quando guerreavam, capturavam seus inimigos mais fortes e os comiam em rituais místicos. Em resumo, era um povo muito limpinho, mas canibal. Mas o ato de comer carne humana não era pelo simples alimento. Eles acreditavam que comendo seus inimigos, os índios incorporavam suas qualidades, como bravura, força e inteligência. Era o que acabou ficando conhecido como banquetes antropofágicos.

Vários europeus  do século XVI presenciaram e registraram tais banquetes em seus diários. O relato mais famoso foi o do alemão Hans Staden, que esteve no litoral do atual estado de São Paulo, mais especificamente em Ubatuba, em 1554 e foi capturado pelo índios Tamoio. A história desse cara é inacreditável, era pra ele ter sido comido, mas por uma porção de acasos, incluindo ele se passar por francês, ele ficou como prisioneiro por mais de um ano na tribo e acabou sendo libertado. Mas durante a sua estadia presenciou alguns desses rituais antropofágicos. Em 1557 Staden volta para a Europa, onde escreve um livro contando o que viveu no Novo Mundo, livro este que se torna um sucesso.

Ao raiar do século XX, mais de 350 anos depois de Hans Staden voltar pra casa e colocar no papel sua história, um intelectual chamado Eduardo Prado redescobre o livro de Staden e o publica no Brasil. Oswald e Mario de Andrade, Tarsila do Amaral e toda a turminha modernista da Semana de Arte de 1922 lê este livro e faz a conexão com o primitivismo e a busca de uma identidade que eles tanto queriam. Assim como os índios deglutiam seus inimigos ritualisticamente para absorver sua força, bravura, e inteligência, os modernistas entenderam que não precisavam renegar a arte que vinha da Europa, mas sim absorvê-la e transformá-la em algo novo e genuinamente brasileiro. Surge assim o Manifesto Antropofágico.

Assim como a história, a arte não é estática e imutável. Ela é volátil, deliciosamente mutante e adaptável aos novos tempos, aos novos conceitos. A arte não tem dono porque ela é única pra cada um, seja para quem a produz, como para quem a consome. É nessa aura livre, de absorção e transformação que a Strip Me está sempre se reinventando e apresentando novas coleções e novas estampas. É o caso da nova coleção com capas de discos clássicos em versão minimalista. Discos que, além de clássicos incontestáveis, verdadeiramente nos encantam e influenciam, e aparecem nesta coleção com a cara da Strip Me, numa estética moderna e descolada.

Além do mais são discos que tem tudo a ver com as transformações e antropofagias da arte. Afinal, uma das maneiras mais objetivas de descrever o primeiro disco dos Strokes, o brilhante Is Thsi It?, é dizer que se trata de uma banda que deglutiu avidamente Velvet Underground e Rolling Stones, para em seguida conceber uma música visceral e muito original, mas que não nega suas origens. Não é à toa que, quando este disco foi lançado, em 2001, muita gente alardeou se tratar do novo Nirvana.

Sim, porque a banda de Kurt Cobain havia sido catapultada para o sucesso dez anos antes com o disco Nevermind seguindo a cartilha da busca pela originalidade absorvendo tudo de bom que veio antes deles. Nirvana reinventou o punk rock, conseguiu impor no mercado moralista e irreal da música pop uma mistura inigualável de agressividade e lirismo com bases fincadas no mundo real, na apatia e inconformismo juvenil, além, é claro, de referências sensacionais da música. Iggy Pop & The Stooges, Bob Dylan.. ah, sim, e também David Bowie!

Mas é claro! Não dá pra não falar do camaleão do rock, a personificação da antropofagia musical, the one and only David Bowie! O cara ajudou a moldar toda a estética dos anos 70, transcendendo a música tanto quanto a capa o disco Alladin Sane, de 1973, que se tornou icônica. Neste disco, além de todas as suas influências pregressas, este disco é altamente antropofágico, pois Ziggy Stardust é morto e devorado, para que Bowie renasça como Alladin Sane. Com certeza um dos discos mais irrepreensíveis de Bowie. Um disco com grandes canções e uma capa tão marcante quanto aquela daqueles caras atravessando uma rua.

Se o Bowie é a personificação a antropofagia musical, os Beatles com certeza são a alma. É indiscutível que a transformação mais incrível que a música pop já viveu se deu por culpa desses 4 caras e Liverpool. É só pegar os principais discos de 1960 pra trás. Era tudo meio parecido. Rocks ótimos e muito divertidos, claro, de Chuck Berry e Little Richards, baladas lindas de Buddy Holly e Fats Domino, standards do jazz e uma florescente soul music que despontava com Isley Brothers e The Ronnetes. Os Beatles pegaram isso tudo, engoliram, digeriram e criaram um tempero muito próprio para uma nova música pop. Não só criaram, como desenvolveram! Chegaram a um ápice criativo altamente condimentado com o Sgt. Pepper’s… e alcançaram o equilíbrio e maturidade em seu último e genial suspiro fonográfico: Abbey Road.

Olha, essa coleção está incrível  e é altamente recomendável que você dê uma boa conferida. Aliás, é preciso estar atento e forte na nossa loja sempre! Afinal, estamos em constante transmutação, com novas ideias, estampas, coleções, diversão & arte.

Vai fundo!

Para ouvir: Uma playlist com o creme de la creme dos 4 discos que estampam essa nova coleção. Top 10 tracks Minimal Classic Albums.

Para ler: Chega a ser indispensável a leitura de Duas Viagens ao Brasil, o livro de Hans Staden escrito em 1557. Uma história épica, inacreditável e empolgante, que retrata a história deste alemão aventureiro e, em paralelo, do Brasil recém descoberto.

Brasil em foco.

Brasil em foco.

Quando você quer conhecer ou se aprofundar em alguma atividade, seja tocar um instrumento, desenhar, fotografar, praticar um esporte… a tendência é procurar os nomes mais importantes e influentes do ramo pra se inspirar e usar como referência, né? Usando o célebre pensamento de John Lennon, de pensar globalmente e agir localmente, é normal que a gente pense nos maiores nomes do mundo. O próprio Lennon, ou, sei lá, Jimi Hendrix na música, Michelangelo ou Van Gogh nas artes e por aí vai. Acontece que em todas as áreas artísticas temos grandes exemplos aqui mesmo, no Brasil. Em especial na fotografia, alguns são reconhecidos no mundo todo como grandes mestres. É o caso de Sebastião Salgado, German Lorca, Bob Wlfenson, entre outros.

A fotografia é uma parada muito interessante porque parte de uma técnica básica bem específica e científica, exposição à luz e controle de lentes para foco e profundidade. Entretanto, é uma expressão artística que permite que cada artista imprima sua marca, sua personalidade. Mais impressionante é notar que isso também ocorre no show business. Fotógrafos especializados em retratar artistas, concertos e moda  também se destacam,ainda que pareça (ou que efetivamente) façam fotos comerciais, dá pra notar a personalidade, sensibilidade e força individual no trabalho de cada um. Por isso hoje, vamos elencar aqui os 5 profissionais da fotografia mais emblemáticos e conhecidos que atuaram, e ainda atuam, no cenário pop brasileiro.

Rui Mendes

Talvez o mais conhecido fotógrafo da cena musical no país, Rui Mendes se formou em fotografia na Fort Vancouver Junior College, nos Estados Unidos, no final dos anos 1970. Voltou ao Brasil em seguida e começou a trabalhar na Folha de S. Paulo. Amante da música, se ligou rapidamente aos músicos de São Paulo e passou a fotografá-los. À medida que ia conhecendo mais gente, aumentava seu leque de artistas em seu portfólio e começou a fotografar inclusive para capas de discos. RPM, Lulu Santos, Camisa de Vênus, Legião Urbana, Barão Vermelho, Ira!, Titãs, Capital Inicial, Kiko Zambianchi, Inocentes, Ultraje a Rigor, Ratos de Porão, Sepultura, Skank são só alguns dos artistas que já olharam para a lente de Rui Mendes. Além disso seu trampo como fotojornalista também impressiona, em revistas como Vogue, Trip, Época, TPM, Galileu, entre outras.

Seu Jorge por Rui Mendes

Caroline Bittencourt

Morando e atuando hoje em Copenhagen, Dinamarca, Caroline é uma fotógrafa jovem, brasileira, que se destacou fotografando shows entre Rio e São Paulo nos anos 2000. Seguindo a regra, ela sempre nutriu muito amor e interesse pela música brasileira, o que facilitou para que ela pudesse circular com desenvoltura no cenário musical. Ela já retratou algumas capas de discos, mas sua fotografia impressiona mesma quando retrata shows. Ela tem uma sinergia com o artista em ação no palco, e soma-se a isso seu apreço pela técnica e o uso de equipamento essencialmente analógico. Estão em seu portfólio nomes como Adriana Calcanhoto, Orquestra Imperial, Cidadão Instigado, Criolo e Los Hermanos.

Adiana Calcanhoto por Caroline Bittencourt

Marcos Hermes

Carioca, Marcos Hermes começou a fotografar ainda jovem no começo dos anos 1990. Logo se destacou com seus trabalhos para revistas como a Bizz, Claudia, Veja e Quatro Rodas. Se especializou em fotografar concertos e shows, e conseguiu ir muito longe com as suas fotos. Além de já ter fotografado nomes consagrados do Brasil como Caetano Veloso, Maria Bethânia, Ney Matogrosso e Elza Soares, Marcos Hermes também já trabalhou com o supra sumo da música pop, fotografando oficialmente Rolling Stones, Paul McCartney, Elton John, Beyoncé, Amy Winehouse, Steve Wonder, entre outros.

Caetano Veloso por Marcos Hermes

Daryan Dornelles

Um gênio da fotografia brasileira, Dornelles é um dos fotógrafos com mais personalidade  dos últimos tempos. Seja para capas de discos, fotos de divulgação ou registrando shows, ele consegue uma sintonia fina entre a obra do fotografado e a imagem que será reproduzida, resultado de muita intimidade com a música. Dornelles já declarou que quando vai fotografar determinado artista, ouve sua obra exaustivamente para alcançar essa conexão. São dele algumas das imagens mais marcantes de artistas como Chico Buarque, Martinho da Vila, Criolo, Marisa Monte e Tiê.

Emicida por Daryan Dornelles

J.R. Duran

José Ruaix Duran nasceu em Barcelona, na Espanha, mas foi no Brasil que ele se consagrou um dos mais requisitados fotógrafos do mundo, e onde morou por um longo período entre sua carreira de mais de 50 anos. Então dá pra dizer que ele é brasileiro sem medo de errar. Ele talvez seja o fotógrafo do show business mais conhecido do país. Com seu estilo forte, nítido, charmoso e elegante, J.R. Duran fotografou algumas das capas mais importantes da revista Playboy do Brasil, além de consagrado na moda e publicidade. Pra se ter ideia, ele já ganhou dez Prêmios Abril de Fotojornalismo, passando a ser horsconcours desse prêmio.

MC Guimê por J.R. Duran

A fotografia junta tanta coisa boa de forma artística, representando a música e a moda com beleza e intensidade, que tem tudo a ver com a Strip Me. Também somos apaixonados por fotografia, por isso acabamos de lançar uma coleção especial com este tema! Vem conferir!

Vai fundo!

Para ouvir: Uma playlists com alguns dos artistas que foram retratados pelos fotógrafos citados neste post. Top 10 tracks Foto BR!

Orgulho, diversão & arte.

Orgulho, diversão & arte.

Hoje fechamos a trilogia de posts dedicados ao mês do orgulho LGBTI+. Já demos uma geral na história, já falamos sobre os direitos na teoria e na prática, tudo direitinho. Mas convenhamos que a gente não é de ferro e também precisa relaxar e curtir a vida, não é mesmo? Por isso, vamos fechar essa trilogia com o astral lá em cima falando do que a gente mais gosta: arte! Afinal, a arte está recheada de grandes obras e grandes personalidades que representam muito bem os homossexuais de todo o mundo. Vamos falar sobre alguns deles.

É muito legal notar que existem filmes, peças de teatro, canções e pinturas que retratam ou são inspiradas em temáticas gays, mas que são concebidas por artistas héteros. Da mesma maneira, tem muito artista homossexual que não necessariamente explora este tema em suas obras. Um grande exemplo disso é o gênio da Pop Art, Andy Warhol. Notoriamente homossexual, afeito a festas e bares que celebravam a diversidade, por onde transitavam artistas de vanguarda, transexuais e todo o tipo de pessoas que não se encaixavam nos padrões “normais” da sociedade dos anos 1960 e 1970, Warhol conseguiu ser visto e celebrado em todo o mundo como um artista genial, sem precisar esconder seu estilo de vida. Produziu obras de arte incomparáveis sem esbarrar em nenhum momento na militância. Ter o orgulho de não esconder sua vida pessoal, por mais excêntrica que fosse, mostrando que isso não interferia negativamente na sua competência como profissional já foi militância suficiente.

Na música não são poucos os exemplos de artistas gays que tem uma obra invejável sem colocar em evidência sua sexualidade. Rob Halford é um dos vocalistas de heavy metal mais influentes do estilo e fez história frente à banda Judas Priest. Ele se assumiu homossexual em 1998 numa entrevista para a MTV e chocou muita gente. O rock, e em especial o metal, é um meio muito machista e homofóbico. O fato de Halford ter se assumido publicamente ajudou muito a abrir o diálogo e quebrar esses preconceitos. Aqui no Brasil um dos músicos mais influentes da música pop também se assumiu tardiamente, porém sem causar tanta surpresa quanto o vocalista do Judas Priest. Lulu Santos é um dos músicos mais respeitados do rock e pop desde os anos 1980. Exímio guitarrista e compositor de muito bom gosto, Lulu Santos sempre foi discreto com sua via pessoal, e na música nunca foi panfletário, apesar de falar frequentemente sobre amor livre e diversidade. Ele assumiu ser gay somente em 2018 e todo mundo ficou feliz por ele, porém, surpreso mesmo, ninguém ficou.  Mas tudo bem.

Deixando um pouco de lado os artistas e falando sobre obras de arte, não há mídia melhor para representar um grupo de pessoas tão plurais, cheias de vida, de amor, de cores e de histórias fantásticas como o cinema. É onde as imagens, a música e a história se juntam para proporcionar uma experiência de vida capaz de nos encantar, inspirar, divertir e fazer pensar. Então fizemos um top 5 filmes sensacionais que representam muito bem a comunidade gay e, cada um à sua maneira, proporciona reflexões importantíssimas.

5 – Meninos Não Choram

É um filme pesado, é verdade. Mas é uma história incrível e muito bem retratada no filme. História real, aliás. Brandon era um rapaz que nasceu mulher, mas desde criança se identificava como homem e tentou se impor como tal. É uma história trágica sobre aceitação e preconceito. Um filme de roer as unhas, emocionante, e com atuações inacreditáveis. Tanto que Hilary Swank ganhou Oscar de melhor atriz em 2000 pela sua atuação como protagonista. Boys Don’t Cry foi lançado em 1999, escrito e dirigido por Kimberly Peirce e tem uma baita trilha sonora boa!

4 – Madame Satã

O representante brasileiro nesta lista é um ótimo filme, também baseado em uma história real e com atuações excelentes. Madame Satã era o “nome de guerra” de João Francisco dos Santos. Ele foi um dos primeiros transformistas do  Brasil e virou ícone da liberdade sexual no país, com uma trajetória surpreendente no Rio de Janeiro dos anos 1930. O filme foi lançado em 2002, dirigido por Karim Aïnouz e protagonizado com brilhantismo por Lázaro Ramos.

3 – Filadélfia

Um clássico, né? Este filme está aqui porque representa muito bem o preconceito que os gays sofriam nos anos 1980 e 1990, agravado pelo surgimento da AIDS. Mas além de retratar super bem este momento, é um filmaço em todos os aspectos. Uma trilha sonora arrebatadora com Bruce Springsteen, Neil Young, Sade, Maria Callas, Peter  Gabriel, atuações impressionantes de Tom Hanks e Denzel Washington e direção irretocável do gênio Jonathan Demme. O filme foi lançado em 1993 e ganhou dois Oscars no ano seguinte: Melhor Ator e Melhor Canção Original.

2 – Tudo Sobre Minha Mãe

Que o Almodóvar é um gênio, não há dúvida, né? Porém, na hora de escolher qual o seu melhor filme, aí dúvida é o que não falta, tantos são os filmes excelentes dele. Mas com certeza um que sempre vai estar entre seus 3 melhores trabalhos é este. Uma história comovente e arrebatadora, colocada impecavelmente num roteiro que consegue ser dramático e bem humorado, bem amarrado e instigante. A trama se desenrola quando uma mãe solteira tem seu filho envolvido em um acidente e vai à procura do pai da criança, que virou travesti. Uma história insólita e cheia de surpresas que acaba por tratar diversos temas espinhosos com muita propriedade. O filme escrito e dirigido por Almodóvar foi lançado em 1999 e levou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

1 – Priscilla – A Rainha do Deserto

É uma escolha óbvia? Um baita clichê? É sim! Mas nenhum filme na história conseguiu com tanta perfeição representar o espirito gay com tanto brilhantismo. Está tudo lá. A alegria, o glamour, a paixão pela arte, os preconceitos, é claro, e todas as dificuldades e delícias de se assumir como é e viver assim. Priscilla – A Rainha do Deserto é um road movie delicioso, engraçado e empolgante, desses filmes que a gente já viu um monte de vezes, mas sempre acaba vendo de novo. O filme foi lançado em 1994, escrito e dirigido por Stephan Elliott e se tornou, logo de cara, um clássico absoluto. Ah, sim, e também tem uma trilha sonora daquelas!

E assim finalizamos nossa trilogia de posts especiais no mês do orgulho LGBTI+. Posts que, além de homenagear e celebrar a diversidade, reforçam o posicionamento da Strip Me como uma marca que abraça a diversidade e faz coro com todas as vozes que clamam por liberdade e igualdade. Afinal tudo que é escrito aqui representa os princípios e valores da marca. Orgulho, diversão e arte em junho, no ano todo e por toda a vida!

Vai fundo!

Para ouvir: A playlist hoje dá uma geral nas trilhas sonoras dos cinco filmes indicados neste post! Confere lá! Top 10 tracks LGBTI+ Soundtracks!

40 Anos Sem o Rei do Reggae.

40 Anos Sem o Rei do Reggae.

O começo da história até que é comum aqui no Brasil. Um garoto negro, nascido na favela em meio a muita pobreza e apaixonado por futebol consegue vencer na vida e ser mundialmente reconhecido. Acontece que a história que vamos contar hoje não se passa no Brasil e, apesar de realmente apaixonado por futebol, esse garoto negro venceu na vida através da música e de um estilo de vida que, até então, o mundo desconhecia. Hoje vamos relembrar a história de um dos maiores ícones da cultura pop dos século XX: Bob Marley, que no dia 11 de maio deste ano completou 40 anos de sua morte.

Photo by Dennis Morris

A história do Bob Marley é muito interessante, cheia de passagens curiosas. Pra começar, ele cresceu em Trenchtown, a maior favela de Kingston, capital da Jamaica. Lá, com apenas 5 anos de idade o pequeno Marley levantava uma grana lendo a mão das pessoas na rua. Claro que devia ser uma baita enrolação, mas já demonstrava que era um garoto com muito carisma para lidar com as pessoas. Um tempo depois, a mãe de Bob, que já não estava mais com o pai dele, passou a viver com um homem que tinha um filho chamado Neville Livingston, que tinha a mesma idade e de cara ficou amigão do Bob. Os dois moleques não se largaram mais e passaram a dividir uma grande paixão: ouvir rádio e cantar suas músicas favoritas. Já na juventude, Neville adotaria o apelido pelo qual ficou conhecido mundo afora: Bunny Wailer.

Paint on canvas by Mick Rock – 2008

Adolescentes, Bob e Bunny viviam procurando diversão e conheceram um grupo vocal ali mesmo, em Trenchtown, e passaram a andar com aquela rapaziada. E acabaram se tornando muito amigos de um desses rapazes, um certo Peter Tosh. Pirando no dubstep, rocksteady e ritmos caribenhos como o calipso, que dominavam a Jamaica nos anos 1960, o trio montou a banda The Wailing Wailers, conseguiram gravar dois ou três compactos que tiveram uma aceitação local muito boa. Tanto é que os caras resolveram arriscar trocar de ilha, saindo da Jamaica e indo para a Inglaterra. Ali, ironicamente, iriam acabar entrando na gravadora Island Records. Mas não foi moleza.

Bunny Wailer, Bob Marley e Peter Tosh nos tempos de Wailing Wailers, 1964
(Photo by Michael Ochs)

Na Inglaterra, eles fizeram uma tour morna, que não rendeu muita grana. Na real, mal se pagou. Tanto é que a banda se viu ali sem sequer ter grana pra voltar para a Jamaica. Foi quando conheceram um produtor tido como malandro na cena musical londrina chamado Chris Blackwell. Blackwell era dono da Island Records e tinha revelado o primeiro grande nome do reggae, Jimmy Cliff. Acontece que Cliff tinha acabado de sair da Island para assinar com uma grande gravadora. Blackwell viu naqueles jamaicanos, principalmente no carismático Bob Marley, seu novo Jimmy Cliff. Ele ofereceu o seguinte acordo para os rapazes. Ele pagava a passagem de volta deles para a Jamaica. Mas em troca, antes de partir, eles gravariam um disco, que Blackwell lançaria pela Island. Foi assim que surgiu um dos maiores clássicos do reggae, o disco Catch a Fire.

Importante dizer que na época dos Wailing Wailers na Jamaica, a banda interpretava canções de amor sem muito conteúdo. Mas, pouco antes da viagem para a Inglaterra, ainda com uns 18, 19 anos de idade, Bob Marley se converteu ao Rastafari. Uma seita religiosa criada na própria Jamaica, com base nas raízes dos negros etíopes, e que tinham a maconha como erva sagrada. Após sua conversão, Bob Marley passou a escrever canções que professavam sua fé, cantando sobre os principais valores do Rastafari, a igualdade, pureza, e amor. Bob Marley, Bunny Wailer e Peter Tosh realmente abraçaram a causa rasta, inclusive se tornando veganos, não consumindo álcool e nem tabaco, bem como drogas sintéticas.  Desta forma, o disco Catch a Fire já veio envolto numa densa névoa de maconha, literalmente, e de canções incríveis! Nessa época, a banda já se apresentava com o nome mais enxuto: The Wailers. Eles cumpriram sua parte no acordo com Blackwell, gravaram o disco e voltaram pra casa. Na Inglaterra, Blackwell se ligou que tinha uma pérola nas mãos e lançou o disco com uma alteração muito marcante, sem consultar a banda. O disco saiu em 1973 sob o nome Bob Marley and The Wailers. E, tal qual a fumaça do cigarrinho de artista da banda, a canção Stir It Up foi pras cabeças e alavancou a venda do disco. Bob Marley and The Wailers começavam a ganhar fama internacional.

Photo by Dennis Morris

Impulsionados pelas boas vendas na Inglaterra, a banda foi tentar a sorte nos Estados Unidos. Lá caíram nas graças da turma da música negra que dominava o começo dos anos 1970 e acabaram sendo contratados como banda de abertura dos shows da Sly and the Family Stone. Acontece que a turnê não durou mais que dez shows. De cara, o show de Bob Marley and The Wailers passou a ofuscar a atração principal. Muita gente pirava no show de abertura e acabava não dando muita bola para a Sly and the Family Stone. Resultado, tour cancelada para os jamaicanos. Mas tudo bem. Eles fizeram alguns shows por conta própria e começaram a fazer seu nome em solo ianque. Enquanto isso, a banda já começava a se estranhar. Esse negócio de Bob Marley and The Wailers pegou mau pro Bunny Wailer e pro Peter Tosh. Ego inflado + grana entrando. Já viu, né? De qualquer forma, a banda continuou produzindo. Ainda no final de 1973 a banda lança o segundo disco, Burnin’. O disco que fez realmente tudo mudar. Este disco caiu nas mãos de Eric Clapton, que chapou no som e acabou regravando I Shot the Sheriff. Foi quando o nome de Bob Marley se tornou conhecido mundialmente.

Daí em diante, foi só ladeira (e fumaça) acima. Claro que o trio fundamental, Marley, Wailer e Tosh, se dissolveu em meio a muita treta. Bob Marley, malandramente, acabou mantendo o nome Bob Marley and The Wailers em seus discos, mesmo sem Bunny Wailer e Peter Tosh. Entre 1973 e 1981 foram 11 discos lançados, todos com sucesso estrondoso no mundo todo. Bob Marley se tornou um proeminente ativista pelos direitos humanos e pela paz, tendo sido inclusive baleado num atentado na Jamaica. Mas não foi isso que o matou, mas sim sua teimosia. Em 1977 ele machucou o pé jogando futebol. Ficou com uma ferida feia no dedão do pé. Ferida essa que ele não cuidou. Talvez ele tenha esquecido… Enfim.  Só em 1980 que foi atrás de saber porque aquele machucado no dedo não sarava nunca. Acabou sendo diagnosticado com um raro melanoma. A solução era amputar o dedo. Mas Bob não topou. Temia que isso prejudicasse sua performance no palco, onde ficava em pé e dançava por horas. Além do mais, a crença rasta valorizava muito o corpo, e uma amputação ia contra esses conceitos.. No fim, o tal melanoma evoluiu para um câncer que se espalhou pelo corpo de Marley e acabou o matando em 11 de maio de 1981.

Photo by Dennis Morris

Vamos finalizando, porque esse texto já está enorme. Uma pena, porque a vida do Bob Marley é cheia de histórias incríveis e interessantes. Desde o atentado que ele sofreu na Jamaica por querer fazer um show gratuito para apaziguar os ânimos políticos do país, até sua breve passagem pelo Brasil onde teve seu visto de trabalho negado pelos militares e jogou uma pelada com Chico Buarque, Alceu Valença e Moraes Moreira. Sem falar que ele espalhou pelo mundo o reggae como forma de música de protesto, que foi incorporada pelos punks ingleses, em especial o The Clash. Mas quem sabe essas histórias não pintam por aqui numa outra oportunidade, né? Afinal, o Bob Marley tem tudo a ver com tudo que a Strip Me mais acredita e ama: Engajamento, personalidade, diversão e arte!

Vai fundo!

Para ouvir: Claro, uma playlist delícia com o que há de melhor na obra do Bob Marley, mas dando aquela desviada das obviedades. Top 10 tracks do Rei do Reggae.

Para assistir: Eu sei que não tem tanto a ver com o Bob Marley em si, mas eu acho que é um filme tão divertido e que traz tanto dessa aura jamaicana, além de ser um filme muito subestimado. Estou falando de Jamaica Abaixo de Zero, filme lançado em 1993 sobre a improvável equipe de trenó que disputou as Olimpíadas de Inverno do Canadá de 1988.

Para ler: O ótimo livro No Woman No Cry – Minha vida com Bob Marley, escrito pela esposa de Bob, Rita Marley e lançado no Brasil em 2019 pela editora Belas Letras. Uma narrativa detalhada e fluente sobre a trajetória de Bob Marley, tanto pessoal como profissionalmente.

PERFIL COLLAB STM: A ARTE LIVRE DE GUILHERME HAGLER

PERFIL COLLAB STM: A ARTE LIVRE DE GUILHERME HAGLER

Ser livre! Como é bom ser livre! Quando se trata de arte então, não tem nada melhor! Ser livre para criar, para explorar os mais diversos temas. Da racionalidade ao ocultismo, da crítica social ao amor idealizado! Ser livre para fazer arte seja como for. Na dança, na fotografia ou desenhando! Carregado de muito talento e muitas referências legais de cultura pop, o trampo do Guilherme Hagler transmite essa liberdade, um conjunto que tem tudo a ver com a Strip Me.

O Guilherme Hagler é mineiro nascido em Juiz de Fora e criado em Belo Horizonte. Ele cresceu dentro de uma família de mulheres talentosas, artistas que não tiravam seu sustento da arte, mas estavam sempre pintando, bordando, fotografando, fazendo música… Era um incentivo natural para que, ainda garoto, ele tivesse sua criatividade aguçada e se expressasse artisticamente. Do hábito de ler histórias e curtir desenhos, Hagler começou a desenhar e se envolver cada vez mais com arte.

Como todo bom artista livre, Guilherme Hagler não se limitou a só uma forma de expressão. Já se aventurou na fotografia e na dança, mas foi nas artes plásticas que ele encontrou seu caminho. E se dedicou muito. Inspirado por artistas impressionistas e surrealistas, em especial Paul Ranson e suas temáticas obscuras, começou a fazer reproduções de suas obras favoritas, além de muitas naturezas mortas, que são ótimas para reforçar conceitos de proporção e luz e sombra. Com o tempo, adicionou às suas referências o cinema e a música, através dos sentimentos transmitidos nas melodias e nas imagens dos videoclipes, para formatar seu trabalho autoral.

O trampo autoral do Hagler impressiona porque é muito original, mesmo sendo super iconoclasta, usando figuras conhecidos, referências da cultura pop, em especial o cinema e obras de arte famosas. Os desenhos dele demonstram muita técnica e muita sensibilidade. Por causa disso tudo, não tinha como o Guilherme Hagler não fazer parte do seleto rol de collabs da Strip Me. Um artista que tem tudo a ver com a marca! Pra finalizar, você confere o nosso bate bola com o próprio Guilherme. Se liga aí no que ele tem a dizer.

Strip Me Analógico ou digital? Você desenha direto no computador/tablet ou curte a tinta no papel?

Guilerme Hagler Eu nunca usei uma mesa digitalizadora na minha vida. Tenho vontade e receio de achar estranho hahaha. Gosto de desenhar direto no papel, com lápis e caneta. Quando o desenho fica pronto, eu fotografo ele em um ambiente bem iluminado, evitando ao máximo as distorções da câmera, pra depois transferir as “linhas” para o computador, onde eu adiciono as cores, sombras, refino as linhas, assino.

STM Além de desenhar e passar nervoso, o que tem feito em casa, durante a pandemia?

GH Muita música (sempre caçando coisas novas) e muitas horas de sono. Também descobri que podcasts me ajudam a me sentir menos sozinho nessa pandemia. Como estou trabalhando em casa, uso meu tempo livre para espairecer ou descansar (quando não estou desenhando ou fazendo tudo ao mesmo tempo)

STM Não precisa nem dizer que sua arte sempre passa uma mensagem, de todo o tipo, aliás. Tem alguma coisa que você queria dizer para as pessoas e ainda não conseguiu traduzir em um desenho?

GH Definitivamente ainda tenho muito a dizer. Mas uma das coisas que eu mais gosto na arte, são as possibilidades de interpretação. Por isso, deixo minha arte aberta a isso. Ela é o que você quiser que ela seja. Acho que se eu virar pra você e dizer exatamente o que eu estou querendo passar com uma imagem que eu fiz, posso acabar limitando a sua visão sobre ela. Já escutei interpretações de pessoas que atingiram níveis de profundidade que nem eu mesmo havia imaginado, acho essa troca muito rica.

A Barbie de cabeça pra baixo no copo d’água, por exemplo, foi uma homenagem à uma irmã que nunca foi muito fã do universo feminino. Quanto era bem pequena, ela literalmente arrancava os cabelos das Barbies que ganhava e mergulhava elas na água, rejeição total. E eu tenho certeza que muitas meninas também se sentem assim. Ser mulher não é necessariamente ser feminina. Nascer mulher não é necessariamente ser mulher. Gosto de sátiras que utilizam elementos da cultura pop.

STM Quem ou o quê te inspira e te faz desenhar? E quem ou o quê te desanima a pegar na caneta?

GH Minha vontade de desenhar é espontânea, ela não vem em momentos pontuais… Me sinto inspirado a desenhar quando tenho alguma ideia que julgo interessante, ou quando me sinto inspirado por algo que vi, uma imagem, um vídeo, um poema. Minha primeira série de desenhos foi baseada no conto “Cinco Mulheres”, do Machado de Assis. Quando começo um desenho, fico na ansiedade de terminar logo, então, mesmo que eu esteja me sentindo cansado, eu não paro. Dificilmente vou começar um desenho se tiver tido um dia muito estressante, por exemplo, mentalmente ou fisicamente. A não ser que eu tenha um prazo.

STM Os heróis do Cazuza morreram de overdose. E os seus heróis, na vida e na arte, ainda estão por aí? Quem são eles?

GH Apesar de não ser muito fã do conceito de “herói” ou “ídolo”, admiro sim artistas que morreram de overdose, Amy Winehouse é a primeira que vem na minha mente. Ainda fico triste quando escuto as músicas dela. Mas também tenho “heróis” que morreram por outras causas hahahaha… Gauguin, Dalí, Magritte, Frida, Lygia Clark, Edith Head, Elsa Schiaparelli, Chadwick Boseman… A lista é longa! E se ainda for pensar nos que estão vivos… Marina Abramovic, Rosana Paulino, Laura Callaghan, Oh de Laval, Hajime Sorayama… Caramba! Vai ser até injusto tentar montar uma lista, não quero deixar ninguém de fora. Tem MUITA gente foda e inspiradora por aí (vivos ou não).

STM Diversão e arte além dos teus desenhos, o que você curte?

GH Gosto de tudo que mantem minha mente trabalhando, que me instiga intelectualmente. Procuro informação a todo momento. A internet tem muita coisa interessante, se você souber onde procurar… Adoro assistir debates, escutar podcasts, jogar online com amigos. (Isso quando não estou escutando música ou assistindo algum filme) Tenho procurado livros para ler também, faz tempo que não leio algo que não seja acadêmico.

STM Qual a sensação de saber que seus desenhos enchem o peito de muita gente Brasil afora através da Strip Me?

GH A sensação é de validação e de muita alegria, especialmente em um momento tão complicado quanto o que estamos vivendo. Fiquei super feliz quando fui convidado pra essa parceria e acho incrível quando marcas colaboram com artistas, especialmente os pequenos, é um diferencial. Se dedicar à arte pode ser um projeto de vida bem arriscado, ainda mais no Brasil. Mas quando o reconhecimento vem, qualquer que seja, é extremamente gratificante e motivante. Hoje estou me especializando em Moda e nunca havia imaginado pessoas andando com as minhas estampas por aí, é incrível! Sou muito grato e tenho grande admiração pela Strip Me, que já faz parte da minha história.

Siga o Gilherme Hagler no Instagram: @guilhermehagler

Vai fundo!

Para ouvir: Como sempre acontece nos textos dedicados aos collabs da Strip Me, a playlist fica por conta do próprio artista. Então confere lá as top 10 tracks favoritas do Hagler!

Arte & Treta na Renascença.

Arte & Treta na Renascença.

Você já parou pra pensar o que seria do mundo sem a treta? Claro, seria um lugar onde reinaria a paz e harmonia entre todos os seres humanos e tal. Mas será que teríamos chegado tão longe? Obras de arte magníficas ainda teriam sido produzidas, pesquisas e descobertas científicas teriam sido realizadas se não existisse aquele sentimento, aquele pensamento interior dizendo “Quem aquele f*#% d# p@%*# pensa que é? Ele acha que é melhor que eu? Pois vai ele ver só!”. Desde que o mundo é mundo e o homem vive em sociedade, rivalidades, desafetos e intrigas fazem parte da nossa história. E não é difícil supor que essas rivalidades contribuíram para que alguns gênios buscassem a perfeição. Os exemplos são muitos: Mozart e Salieri, Shakespeare e Marlowe, Darwin e Owen, Tesla e Edison, João Gordo e Dolabella… mas hoje vamos falar da grande treta da Renascença: Leonardo Da Vinci vs. Michelangelo!

Bom, Leonardo Da Vinci e Michelangelo Buonarroti dispensam apresentação, né? Dois dos maiores artistas de todos os tempos. Ambos pintores e escultores que viveram a virada do século XV para o XVI e conceberam obras admiradas até hoje. Apesar da diferença de idade entre eles, Da Vinci era 23 anos mais velho que Michelangelo, a rivalidade entre os dois era inevitável. Quando Michelangelo chegou à idade adulta e começou a se destacar, Da Vinci já era um artista consagrado. Mesmo assim, Michelangelo se recusava a aceitar que Da Vinci era esse gênio todo que se dizia, já que ele considerava a si próprio sim como o grande artista de seu tempo. Ainda que pensasse desta forma, Michelangelo não deixou de absorver minuciosamente as técnicas de pintura desenvolvidas por Da Vinci, de claro e escuro, luz e sombra e esfumaçado, bem como os estudos da anatomia humana a que Da Vinci tanto se dedicou.

O Homem Vitruviano de Leonardo Da Vinci

Eram realmente artistas antagônicos. Da Vinci ficou famoso pela procrastinação. O acervo de rascunhos e obras inacabadas dele é vasto, já suas pinturas que foram totalmente concluídas, são apenas 16, muito pouco para um artista que viveu até os 67 anos de idade. Já Michelangelo era o que se pode chamar de workaholic. Vivia em seu ateliê mais de 12 horas por dia trabalhando incansavelmente em suas obras. Da Vinci era conhecido por ser um homem sociável, de personalidade amistosa e calma, sempre bem vestido e arrumado. Já Michelangelo era comparável a um pinscher, era baixinho, arrogante e muito briguento. Ambos viviam na mesma cidade, Florença, um dos principais polos da arte renascentista. E foi justamente o governo da cidade que começou a treta entre os dois.

Palazzo della Signoria, Florença

Em 1504 o governo convidou Da Vinci e Michelangelo para pintarem, cada um em uma parede do Palazzo della Signoria, então sede do governo florentino e hoje conhecido como Palazzo Vecchio, um afresco retratando alguma batalha em que o povo de Florença tivesse lutado e saído vitorioso, claro. Os dois artistas já não iam muito com a cara um do outro, mas o dinheiro oferecido era bom demais pra se recusar. Então lá foram eles. Nos meses que se seguiram um alfinetava o outro constantemente, e as obras mesmo, nada de sair. Ficou famoso o comentário de Da Vinci vendo os esboços de Michelangelo, que sempre gostou de retratar os homens extremamente fortes e com músculos bem definidos. Da Vinci teria dito que não entendia por que Michelangelo insistia em retratar os homens como se fossem uma noz aberta.

Corpo masculino nu (estudo para o teto da capela Sistina) – Michelangelo, 1511

Mas o ápice da treta entre os dois aconteceu na rua. Antes de contar o que rolou, vale dizer que Da Vinci era um pintor irrepreensível, mas não era tão genial esculpindo. As esculturas de Da Vinci são poucas, e são bem acima da média, mas não são incríveis. E isso o frustrava muito. Uma dessas esculturas era o Cavalo de Sforza. E não preciso dizer que Michelangelo era um escultor brilhante, tá aí o Davi até hoje, que não me deixa mentir. Bom, Da Vinci estava na praça principal de Florença conversando com uma turma. E eles falavam sobre a obra de Dante Alighieri, o grande escritor. Coincidentemente Michelangelo passava por ali, e Michelangelo era admirador e grande conhecedor da obra de Dante. Da Vinci, sabendo disso, aparentemente sem más intenções, chamou Michelangelo para a conversa com uma frase do tipo: “Ô Michelangelo, chega aqui, estamos falando do Dante e tô sabendo que você manja do assunto.”. Como bom pinscher, Michelangelo ouviu o convite de Da Vinci como um desaforo cheio de ironia e sarcasmo e, raivoso, descarregou um caminhão de insultos a Da Vinci. Um dos insultos teria sido algo como: “Quem é você pra falar comigo, nem esculpir um cavalo você consegue, fez aquela aberração do Sforza!”. Da Vinci ficou ofendidíssimo e foi embora deprimido, se sentindo um artista medíocre.

Depois disso, ambos abandonaram o trampo no Palazzo della Signoria e foram embora de Florença. Da Vinci se mudou para Milão e Michelangelo foi pra Roma a convite do Papa, para fazer um job na Capela Sistina. É claro que não foi só a discussão na praça que motivou a mudança dos dois. Com certeza, eles foram atrás de melhores ofertas de trabalho. Mas com certeza a inimizade contribuiu para que abandonassem o trabalho no palácio e adiantassem sua saída de Florença, claro, os dois levando o pagamento do trabalho que ficou lá inacabado.

A Criação de Adão – Michelangelo

No fim das contas, histórias como essas são, de certa forma, um alívio para nós. Da Vinci foi o artista mais completo e brilhante de todos os tempos, além de pinturas icônicas como Mona Lisa e Dama com Arminho, era cientista, arquiteto e acadêmico. Michelangelo era um artista pungente e conseguia transformar blocos de mármore em figuras fascinantes, como é Davi e a Pietá, além de seu afresco incomparável na Capela Sistina. Foram verdadeiros gênios. Ainda bem que ficaram também registros como este contado aqui, do lado humano desses caras, que nos coloca em pé de igualdade com eles. Somos todos reles mortais sempre atrás de diversão e arte, e, de vez em quando, de uma boa treta.

Vai fundo!

Para ouvir: Uma seleção de canções para embalar aquela treta no meio da festa! Top 10 tracks da treta!

Para assistir: Uma das tretas mais célebres da história é a de Mozart e Salieri. Uma história incrivelmente bem retratada na excelente cinebiografia de Mozart, Amadeus, filme de Milos Forman lançado em 1984.

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