As fitas da Bahia.

As fitas da Bahia.

O que seria do turismo sem a superstição? Afinal, não dá pra ir a Roma e não jogar uma moeda na Fontana de Trevi, ou ir a Verona e não colocar a mão no seio direito da estátua da Julieta, ou ir a Nuremberg e não dar três voltas em torno da Bela Fonte, ou ir a Paris e não colocar um cadeado na Pont des Arts. Isso sem falar de lugares místicos por si só, que garantem vida longa, sabedoria, prosperidade e etc só por visitá-los, como o Taj Mahal, o centro histórico de Santiago de Compostela, as pirâmides do Egito, Stonehenge, Bodh Gaya, Jerusalém, Machu Picchu e tantos outros. Claro que o Brasil não fica atrás e tem os seus pontos turísticos para supersticiosos e místicos. Alto Paraíso de Goiás está acima de uma rocha de quartzo de mais de 4 mil metros quadrados, por isso é considerado um lugar de boas vibrações. Em Gramado, no Rio Grande do Sul, você pode colocar um cadeado nas grades da Fonte do Amor Eterno e garantir a sua bem aventurança no amor. Mas não existe nada que simbolize melhor a cultura, a religiosidade e a superstição brasileira do que as inconfundíveis fitinhas de Nosso Senhor do Bonfim

As fitinhas de Nosso Senhor do Bonfim já extrapolaram as barreiras da religiosidade para se tornar ícone pop, um acessório que chegou a ser transformado em pulseira de ouro com brilhantes. Mas vamos com calma, porque vale a pena conhecer um pouco da origem dessas fitinhas tão emblemáticas. Para isso, precisamos nos lembrar que o Brasil ficou abandonado por quase quarenta anos após a chegada de Pedro Álvares Cabral por aqui. Somente em 1533 o rei português D. João III decide tomar posse das terras descobertas permanentemente através das capitanias hereditárias. Após muita confusão, violência e descaso para a instalação de tais capitanias, o rei decidiu instalar em seu novo território uma cidade que serviria de capital da colônia, com burocratas portugueses representando a coroa, para organizar melhor as coisas. Assim, em 1549 é fundada a cidade de Salvador, a primeira capital do Brasil. 

Dois séculos depois, Salvador já havia crescido muito. O nordeste brasileiro vivia o auge da produção de açúcar e todos os impostos coletados dos engenhos iam parar na capital, e nem todo esse dinheiro chegava em Portugal como deveria, se é que você me entende. O fato é que a cidade crescia, bem como o prestígio do Brasil em Portugal. Assim, em 1745 foram iniciadas as obras de uma grande igreja na península de Itapagipe, região nobre da cidade de Salvador. A construção da igreja justificava-se para abrigar as imagens do Senhor do Bonfim e de Nossa Senhora da Guia, vindas de Portugal. A Imagem de Nosso Senhor do Bonfim nada mais é que a representação de Jesus Cristo subindo aos céus. Já a Nossa Senhora da Guia é uma das muitas representações da Virgem Maria, esta, no caso, é considerada a protetora dos navegantes. A igreja ficou pronta em 1754 e logo se tornou a igreja mais importante da cidade. Acontece que nessa mesma época a descoberta do ouro na região e Vila Rica, Ouro Preto, Mariana e Diamantina fez com que Portugal, e o resto do mundo, voltasse suas atenções para o interior do Brasil. Para facilitar o transporte do ouro até o litoral, para ser enviado para Portugal, o reino acabou transferindo a capital do Brasil de Salvador para o Rio de Janeiro em 1763. Salvador entra então num período de estagnação econômica. 

Em 1809, pensando em arrecadar dinheiro para manutenção da paróquia, um dos fiéis teve a ideia de criar a Medida do Senhor do Bonfim. Era uma tira de tecido medindo exatamente 47 centímetros, a mesma medida do braço direito de Jesus na imagem do Senhor do Bonfim. Por isso, a faixa era chamada de Medida do Senhor o Bonfim. Era uma tira de cetim ou seda de 4 ou 5 centímetros de largura, com o nome da igreja bordado com fios de ouro e vendidos a altos preços, mas muito comprados pelos nobres da cidade. A faixa era usada pendurada no pescoço, presa na base de chapéus (no caso das mulheres) ou simplesmente exposta dentro de casa. A prática da venda da Medida do Bonfim durou até meados dos anos 1940. Depois ficou esquecida. Até ressurgir nos anos 60 totalmente repaginada. 

Na década de 1960 o turismo como negócio crescia muito, era uma novidade. Ao mesmo tempo, entre o fim dos anos 50 e início dos 60, o Brasil vivia um período raro de prosperidade e liberdade. Com isso, as religiões de origem africanas começam a se popularizar. O sincretismo da umbanda, que tem a representação de um santo católico para cada uma de suas entidades, fez com que a famosa Medida do Bonfim de antigamente, virasse uma fita, também com a medida de 47 centímetros, mas mais estreita, podendo ser amarrada no tornozelo ou no punho, e representando Oxalá, a mais importante divindade do candomblé, que tem na imagem do Senhor do Bonfim a sua representação. Outras fitas, desta vez coloridas, também passaram a ser comercializadas, cada cor representando uma entidade. O lance é que, ignorando a simbologia religiosa, os hippies baianos passaram a usar as tais fitinhas aos montes, pois eram coloridas e combinavam com o visual psicodélico, e a moda começou a se espalhar entre os jovens. Foi quando o setor de turismo da prefeitura viu o potencial daquelas fitinhas e entrou na jogada. 

Para impulsionar a visitação da igreja de Nosso Senhor do Bonfim, que sempre foi um dos lugares mais importantes de Salvador, a prefeitura passou incentivar a venda das tais fitinhas nos arredores da igreja, espalhando ainda que as fitinhas eram milagrosas, e se amarradas com três nós, cada nó representaria um desejo que a pessoa poderia fazer. Quando a fita arrebentasse naturalmente, com o passar do tempo, os desejos se realizariam. E a conversa funcionou bem demais. Não só os visitantes, como os próprios moradores de Salvador passaram a comprar as fitas e amarrar no braço, no tornozelo e também nas grades em volta da igreja. E normalmente, as pessoas compram as fitinhas de determinada cor, de acordo com o desejo a ser atendido. Por exemplo, a fitinha verde representa Oxóssi, a divindade da fartura e do sustento, para quem vai pedir prosperidade, amarelo é Oxum, divindade da fertilidade, para quem quer ter filhos, vermelho é Iansâ, divindade do amor e por aí vai. 

Até o fim dos anos 70 as fitinhas eram de algodão e eram produzidas em Salvador mesmo, por pequenas empresas de tecelagem. Mas nos anos 80 a coisa ficou séria, a demanda cresceu muito e as fitinhas, perderam um pouco do charme e da personalidade ao serem fabricadas numa grande fábrica em São Paulo e feitas de poliéster. Mas não pense que isso diminuiu o interesse das pessoas. Até hoje, quem vai a Salvador não sai de lá sem um pacote de fitinhas para distribuir para a família e amigos quando voltar pra casa, muito menos sem deixar uma fitinha amarrada na grade da igreja. Aliás, a grade repleta de fitinhas já virou imagem de cartão postal de Salvador. As fitinhas se tornaram tão pop que o designer baiano Carlos Rodeiro criou a Pulseira do Senhor do Bonfim, que tem versões em ouro puro e com detalhes em brilhantes, safiras, rubis e esmeraldas. E, sabe como é, do jeito que as coisas estão, não custa nada comprar uma fitinha dessa e mandar um pensamento positivo pro ar, ao amarrar um nózinho. 

As fitinhas de Nosso Senhor do Bonfim são um símbolo tão único do Brasil, cheio de simbologias diversas e positividade, que não poderia deixar de fazer parte do sincretismo antropofágico cultural da Strip Me! Afinal, somos brasileiros, mas também somos pop art! Então vem conferir nossas estampas cheias de brasilidade, além de camisetas de arte, música, cinema, cultura pop e muito mais. Fica ligado sempre na nossa loja pra não perder os lançamentos

Vai fundo! 

Para ouvir: Uma playlist com tudo que só a Bahia tem! Bahia top 10 tracks

Para assistir: Outra face inacreditável da cultura de Salvador é a música. No documentário Axé: Canto do Povo de um Lugar, lançado em 2016 e dirigido pelo Chico Kertész, dá pra ter uma ideia bem legal disso e conhecer a origem de um dos ritmos de maior sucesso no Brasil. Super recomendado e tem no catálogo da Netflix.

Deu Match! 8 encontros apaixonantes da Strip Me para o Dia dos Namorados.

Deu Match! 8 encontros apaixonantes da Strip Me para o Dia dos Namorados.

Junho é a época mais romântica do ano! Começa o friozinho, aquele clima gostoso pra ficar no sofá vendo um filminho debaixo do cobertor, ou pra sair pra tomar aquele vinho, ou quem sabe comer um fondue. E é claro que tudo isso fica muito mais gostoso quando você tem aquele alguém do lado. Pode ter sido na balada, tendo amigos em comum, ou até mesmo virtualmente em redes sociais e apps de relacionamento. O importante é que deu match!

E para mostrar que toda panela tem sua tampa, a Strip Me apresenta 8 exemplos de camisetas que são match perfeito. Se completam, harmonizam, são as duas metades da laranja.

Nightporu + América Latina

Começamos com os dois pés na nossa terra! De um lado o símbolo máximo da arte brasileira, nosso icônico Abaporu, de Tarsila do Amaral, minimalista, mas sofisticado e imponente. De outro lado uma declaração de amor à América Latina, com uma estampa delicada no lado esquerdo do peito, onde bate o coração. De quebra, a citação a uma das mais clássicas canções de Caetano Veloso, que deixa clara a força vibrante do nosso continente. Ambas as camisetas, numa pegada by night minimalista, formam um casal perfeito.

Magritte + Onda Retrô

Eis aqui um match inspirador! Um match de quem carrega a arte na alma e no coração. De um lado a obra clássica O Filho do Homem, de René Magritte, pintada em 1964, num recorte simples, que evidencia o tom provocador e iconográfico da obra. Do outro lado, uma reprodução, também em recorte, da mais famosa e celebrada xilogravura do mundo, A Grande Onda de Kanagawa, do genial artista japonês Katsushika Hokusai. Duas camisetas que carregam no coração dois dos maiores ícones da história da arte. O surrealismo de Magritte e a xilogravura delicada de Hokusai formam um casamento incomum, mas admirável de se ver!

Super Smile + Robot

Um match atemporal. Não que sejam muito distantes, talvez separados por apenas uma geração. De um lado a representação dos anos 90 sintetizada numa imagem, que mistura identidade visual da maior marca de video games com a mais revolucionária banda da época. Por si só, Nirvana e Nintendo já são um match inacreditável, visto que não só revolucionaram seus próprios segmentos, como influenciaram o comportamento de toda uma geração. De outro lado mais uma vez a representação perfeita da geração 2010, cuja vida real é frequentemente colocada à prova de maneira virtual, tendo como trilha sonora mais uma revolução musical. Não sei o que o dua Daft Punk poderia fazer para provar que não são robôs. Mas jogar video game online ouvindo uma mixtape de Nirvana e Daft Punk é um match divertidíssimo!

John Guitarra + Jam

Este sim, o match dos anos 90! De um lado a imagem distorcida, como deve ser, de um dos 5 melhores guitarristas da década de 90. John Frusciante é, indiscutivelmente, o som definitivo da guitarra dos Red Hot Chilli Peppers, e um dos mais talentosos músicos de sua geração. De outro lado, uma das imagens mais famosas de Eddie Vedder, o frontman da banda Pearl Jam. Um salto para a multidão após uma de suas famosas escaladas pelas estruturas dos palcos. Hoje, tanto Frusciante quanto Vedder já estão mais velhos, mas continuam fazendo música. E o ritmo incontrolável dos Chilli Peppers com as melodias inigualáveis do Pearl Jam formam um match irresistível. Procure ouvir a música Dirty Frank, onde as duas bandas tocam juntas, para conferir.

Come Together + Gimme Shelter

De acordo com o clichê, deveríamos dizer que aqui é o clássico caso de match de opostos que se atraem. Mas não tem match mais complementar e harmonioso do que Beatles e Rolling Stones! Ainda mais neste caso. Dois dos maiores hinos da história do rock n’ roll! Duas músicas lançadas em 1969. De um lado os Beatles apresentam uma alegoria psicodélica e um dos riffs de baixo mais famosos do mundo, conclamando a união. De outro lado um arranjo potente de guitarra e piano elétrico embalam as palavras contundentes de Jagger contra a guerra do Vietnã, implorando por abrigo. Duas músicas que se completam, uma pela união das pessoas e outra pelo fim de conflitos. Match irretocável.

Bateria + Baixo Vintage

Pra finalizar a onda musical, apresentamos um match mais contemporâneo, e tradicionalíssimo ao mesmo tempo. De um lado mãe de todos ritmos, a condutora irrepreensível e dona do tempo. Às vezes suave e discreta, às vezes infernal e exuberante. A bateria! Do outro lado, o pai das notas graves, o elo de ligação, aquele que segura a onda e mantém tudo sob controle quando todo mundo está pirando. O alquimista de ritmos e melodias. O baixo! Match mais que óbvio! Aquele casal que todo mundo sabe que sempre ficaria junto. Desde os primórdios do jazz baixo e bateria se completam, até atualmente, dando nome a uma das bases mais populares da música eletrônica, o drum n’ bass. Match batido, porém muito bem ritmado.

Friday + Sunday

O Match inevitável. De um lado aquele sextou insano, incontrolável! Ilustrado aqui de maneira primorosa com o frame de uma das cenas mais clássicas do cinema de Stanley Kubrick: Jack Nicholson arrebentando uma porta completamente transtornado no clássico O Iluminado. Do outro lado o desespero dominical, o sentimento amargo do dia que precede a infalível segunda feira. Tal desespero é ilustrado de forma brilhante através do frame da cena mais revisitada da história do cinema: a antológica cena da facada no chuveiro do indispensável filme Psicose, de Alfred Hitchcock. Não dá pra negar. Todo sextou tem dentro de si o angustiante desespero de domingo. E por isso mesmo, um nunca vai conseguir viver sem o outro. Match natural.

Cocada + Goiabada

Finalizamos nossa lista com um match doce e tropical. De um lado o ícone maior do verão, da praia, do clima tropicaliente: o côco. Porém, não in natura, mas transformado num doce riquíssimo, com uma textura única e um sabor equilibrado e delicado. De outro lado uma das frutas que melhor representa a América Latina. Originalmente encontrada entre o norte das matas da Colômbia até o sul do México, a goiaba caiu nas graças dos índios, que a plantaram por todo o território brasileiro, isso bem antes de europeu vir se meter a besta por essas bandas. Dela se faz um dos doces mais apreciados do Brasil, em especial no sudeste. Um doce cheio de personalidae, sabor forte, marcante e inigualável. Você pode pensar que o match ideal seria a goiabada com queijo. Mas nós estamos aqui para quebrar paradigmas e mostrar que no amor (e na gastronomia) tudo é possivel! Cocada com goiabada é um match surpreendente e delicioso!

Depois dessa lista, com tantos matchs diferentes, inusitados e certeiros, só nos resta te dizer uma coisa: De onde saíram estes, tem muitos outros mais! Na Strip Me você encontra uma diversidade inacreditável de estampas sobre arte, cinema música, cultura pop, comportamento e muito mais! Com certeza, match ali não vai faltar. Tanto para você presentear o seu match da vida, quanto para você usar e curtir a vida com estilo enquanto o seu match não chega. Visite a nossa loja e confira os nossos lançamentos.

Vai fundo!

Para ouvir: Uma playlist pra curtir o diados namorados, mas saindo um pouquinho das obviedades tipo Marvin Gaye e Barry White. Não que eles sejam ruim, são ótimos, mas é sempre legal dar uma variada e ouvir sons diferentes, né. Alt Love Top 10 Tracks

Para assistir: Essa dica é simples e direta. Ainda não fizeram um filme romântico tão divertido, emocionante, verdadeiro e descolado quanto o excelente 500 Days of Summer. Filme de 2009, dirigido por Marc Webb, protagonizado por Zooey Deschanel e Joseph-Gordon Levitt numa sintonia incrível, com um roteiro ótimo e uma trilha sonora maravilhosa. Um filmaço!

16 Fatos Surreais sobre a vida de Salvador Dali.

16 Fatos Surreais sobre a vida de Salvador Dali.

Como diria Fausto Silva, mais do que nunca, tanto no pessoal quanto no profissional, ninguém neste mundo foi mais surreal que Salvador Dali. Não é à toa que numa troca de farpas entre ele e o poeta André Breton, Dali declarou: “A única diferença entre mim e os surrealistas é que eu SOU o surrealismo.”. Parece presunção ou prepotência. Mas, falando sério, não é exagero. Extrapolando sua obra, a vida pessoal de Salvador Dali foi uma loucura, repleta de fatos inusitados, quase inacreditáveis… uma vida surreal. Dali nasceu 118 anos atrás, no dia 11 de maio de 1904. Para celebrar o mês de seu nascimento, separamos 16 fatos e curiosidades, que retratam essa vida tão incomum e extraordinária que foi a de Salvador Dali. 

1 – O Bebê reencarnado. 

Salvador Dalí i Domènech nasceu no dia 12 de outubro de 1901. Por conta de uma doença grave chamada gastroenterite, o garoto morreu prematuramente aos 3 anos de idade, no dia 1 de agosto de 1903. Salvador Dalí i Cusí e Felipa Domenech Ferrés, os pais da criança, sofreram muito. Alguns meses depois, quando Felipa descobriu que estava grávida de novo, tanto ela quanto seu marido, Salvador, tiveram certeza que se tratava da reencarnação do pequeno Salvador que havia falecido. Tal era a certeza, que quando o bebê nasceu, um menino, foi batizado com o mesmo nome do pai e de seu falecido irmão. No dia 11 de maio de 1904, nasce Salvador Felip, Jacint Dali i Domènech. Os pais nunca esconderam de Dali que acreditavam na história da reencarnação. Isso fez com que ele próprio, desde sempre questionasse sua própria existência e personalidade. Não era surrealismo que você queria? Pois então… 

Portrait of my father – Salvador Dali (1920)

2 – Impressionismo precoce

Até os 6 anos de idade, Salvador Dali frequentou uma escola tradicional em Figueres, cidade em que nasceu, extremo nordeste da Espanha. Observando o desempenho de seu filho, o velho Salvador decide transferir o pequeno Salvador Dali para o Colégio Hispano-Francês da Imaculada Conceição, um colégio francês mais rigoroso, além de ser frequentado por filhos da alta classe social de Figueres. Foi nessa escola, logo que foi transferido aos 6 aos de idade, que Dali se encantou por pinturas impressionistas de Monet e Renoir, que despertaram nele o desejo de desenhar. E você? Com que idade conheceu e se encantou por um quadro do Monet ou do Renoir? 

Landscape Near Figueres – Salvador Dali (1911)

3 – Estreia adolescente. 

Escolhemos elencar 16 fatos curiosos sobre Dali por causa deste aqui. Como os pais dele perceberam a aptidão do filho pela arte, sempre o incentivaram. Aos 16 anos ele já tinha tantos desenhos acumulados que seus pais organizaram uma exibição. Desta forma, Salvador Dali apresentou sua primeira exposição com tenros 16 anos de idade, expondo dezenas de desenhos feitos essencialmente com grafite e carvão. A exposição rolou no Teatro Municipal de Figueres, teatro este que Dali comprou nos anos 60, fez uma reforma enorme e que depois viria a se tornar o Teatro-Museo Gala Salvador Dali. 

4 – Transformação em Madri. 

Logo após sua primeira exposição em Figueres, Dali, mais uma vez incentivado por seus pais, se mudou para Madri para ingressar na escola de Belas Artes São Fernando, a mais conceituada do país. O pai de Dali sonhava que lá o jovem aprimoraria sua arte e se tornaria um bom e bem remunerado professor de desenho. Como sabemos hoje, o velho Salvador Dali errou feio, errou rude. O jovem Dali sem ambientou rapidamente e logo passou a chamar atenção entre os estudantes. Usava roupas excêntricas como calças curtas, tinha o cabelo comprido e ostentava um bigode um pouco volumoso e espetado para cima, imitando um de seus heróis, o pintor Diego Velázquez. Tal bigode era um rascunho do que viria a se tornar o icônico bigode fino e eriçado de Dali anos depois. 

Illumined Pleasures – Salvador Dali (1929)

5 – Percalços da vida acadêmica. 

Salvador Dali foi expulso da escola de Belas-Artes São Fernando duas vezes. A primeira foi em 1924 quando ele se juntou a alguns estudantes anarquistas e organizou piquetes e manifestações políticas dentro do centro acadêmico. Logo foi readmitido, mas sempre causando polêmica, em especial por se interessar por movimentos novos como o cubismo e dadaísmo, que não eram bem vistos pela ala mais conservadora dos professores. Por conta de sua insistência na pintura moderna e desprezo pelo clássico, acabou sendo expulso de novo. E dessa vez não quis voltar. Chegou a dizer para a diretoria da escola que a banca de professores não tinha competência suficiente para sequer avaliar sua obra, menos ainda compreendê-la. 

Still Life – Salvador Dali (1924)

6 – O Grande Encontro.

Claro que Dali admirava muito Pablo Picasso. Em 1924, após sua primeira expulsão da escola de Belas-Artes, Dali resolveu fazer sua primeira visita a Paris, que era onde tudo acontecia na época. Reza a lenda que o encontro de Dali e Picasso num café de Paris se deu no primeiro dia de Dali na cidade, e que as primeiras palavras que eles trocaram foram as seguintes: Dali disse a Picasso: “Fiz questão de vir conhecê-lo antes mesmo de visitar o Louvre.”. E Picasso respondeu: “Fez muito bem. Não tem muito o que se ver por lá.”. E é lógico que eles se tornaram amigos. 

7 – 1929

Enquanto investidores perdiam tudo e se jogavam do alto dos prédios de Manhattan, nos Estados Unidos em 1929, Paris fervilhava com artistas e intelectuais fazendo história. Naquele ano, depois de sua segunda expulsão da Escola de Belas-Artes de Madri, Salvador Dali decide se mudar de vez para Paris. Para lá também se mudam seus amigos de longa data, o escritor Federico Garcia Lorca e o cineasta Luis Buñuel. Eles se juntam a outros artistas, entre eles o poeta André Breton, e criam o surrealismo como movimento artístico, cujo manifesto é escrito por Breton. No mesmo ano Buñuel e Dali escrevem o roteiro do filme que melhor personifica o surrealismo: o filme Um Cão Andaluz. Ainda neste ano Dali pinta uma de suas obras mais célebres, O Grande Masturbador. 

The Great Masturbator – Salvador Dali (1929)

8 – Amor à primeira vista. 

Ainda no emblemático ano de 1929 o grupo de artistas surrealistas incorpora o casal Paul e Gala Éluard. Ele poeta, ela modelo, eram casados desde 1917. Em certa ocasião, o casal foi até o apartamento de Salvador Dali, pois queriam conhecê-lo. Dali e o casal se deram bem logo de cara. Bem até demais. Gala e Dali se encantaram um pelo outro. Logo começaram a se relacionar, ela se separa de Éluard e se casa com Dali em 1934. O nome verdadeiro de Gala era Elena Ivanovna Diakonova, ela era imigrante russa, tendo morado na Suíça e na França, e era 10 anos mais velha que Dali. Ela se tornou a musa inspiradora de Dali e eles nunca se separaram, até a morte dela em 1987. 

Galatea of the Spheres – Salvador Dali (1952)

9 – O Bigode. 

Salvador Dali deixou como sua marca registrada o fino e espevitado bigode. No início de sua carreira, quando frequentava a escola de Belas-Artes de Madri, tinha um bigode mais espesso, mas já com as pontas espetadas paa cima, inspirado no pintor Diego Velázquez. Tempos depois, foi refinando a ideia, até chegar ao model original que ficou conhecido no mundo todo. Em uma entrevista ele disse: “É a parte mais séria da minha personalidade. É um bigode húngaro muito simples. O Sr. Marcel Proust usou o mesmo tipo de pomada para esse bigode”. Em 1954 ele publicou um livro em parceria com o fotógrafo Philippe Halsman, com 28 fotos de seu bigode. O livro se chama Dali’s Mustache. Pra completar, em 2017 o corpo de Dali foi exumado, para que fosse realizado um teste de paternidade. E quem é que estava lá, intacto? Exatamente. O bigode!

10 – Pet friendly. 

A década de 1930 foi a década de ouro para Salvador ali. Foi quando ele concebeu as grandes obras que o consagraram como um artista único, revolucionário e genial. São dessa época A Persistência da Memória (1931), O Sono (1937), Metamorfose de Narciso (1937) e tantos outros. Dali ganhou muito dinheiro e passou a levar uma vida cada vez mais excêntrica. Ele adorava animais e tinha vários pets no quintal de casa, a maioria animais silvestres de lugares distantes. Entre eles destacam-se dois brasileríssimos: uma jaguatirica e um tamanduá bandeira. Inclusive há fotos de Dali passeando pelas ruas da cidade com o seu querido tamanduá na coleira. 

11 – Comida para os olhos. 

Um dos elementos mais comuns em toda a obra do Salvador Dali é o alimento. Virou e mexeu você encontra em suas obras imagens de ovo frito, pão, cálice de vinho, talheres e etc. Até mesmo a imagem mais emblemática de Dali, o relógio derretendo tem a ver com comida. Certa noite de verão de 1931 Dali estava morrendo de dor de cabeça, mal humorado. Estava tudo combinado com a turma de amigos surrealistas para eles irem ao cinema e depois jantar. Ele decidiu não ir. Gala acompanhou a turma, deixando Dali sozinho em casa. Era uma noite quente e Dali foi tomar alguma coisa na cozinha e observou uma fatia de queijo camembert derretida, escorrendo pela beirada da mesa. Veio a inspiração e ele desenhou o esboço de A Persistência da Memória

The Persistence of Memory – Salvador Dali (1931)

12 – Surrealismo Masterchef

Acredite. Salvador Dali tinha uma ligação tão forte com a comida, sabe-se lá o motivo, que na década de 1970 ele chegou a lançar um livro de receitas! Sim, um livro de culinária mesmo! É lógico que era a gastronomia nada ortodoxa de Salvador Dali, e as receitas eram de pratos meio esculhambados, com misturas improváveis de ingredientes. Mas é verdade! O livro foi lançado em 1973 e se chama Les Diners de Gala. O livro conta com as receitas e várias fotos das montagens dos pratos. Pelo que se diz a respeito das receitas contidas no livro, como chef certamente Dali seria considerado a vergonha da profissión. 

13 – Sonhando com Freud. 

Na década de 1930 Dali ficou fascinado pelas teorias de Sigmund Freud, em especial no que diziam respeito ao estado de consciência onírica, aquele estado de quase sonambulismo, sonhando acordado. Esses conceitos influenciaram muito Dali. Em 1938 Dali conheceu Freud em Londres. O encontro dos dois foi longo, Dali desenhou alguns retratos de Freud, enquanto o psicanalista o observava maravilhado, tendo declarado depois: “Eu nunca vi um exemplo mais completo de espanhol!”. Entre 1940 e 1948 Dali e Gala foram morar nos Estados Unidos, já que Paris estava sendo ocupada pelos alemães. Em 1945 Salvador Dali participou da montagem de uma sequência de um sonho para o filme Quando Fala o Coração, do Alfred Hitchcock

Sleep – Salvador Dali (1937)

14 – Minha casa minha vida

O projeto de vida de Dali sem dúvida foi o Teatro-Museum Salvador Dali. Originalmente o Teatro Municipal de Figueres, em sua terra natal, o local onde ele teve sua primeira exposição. Dali comprou o lugar e começou a reforma em 1960. Reformou, pintou, encheu de obras e outras quinquilharias e só concluiu pra valer o projeto em 1974. Apesar de não ser sua casa, foi lá onde ele morou em seus últimos anos de vida, doente e deprimido, sem conseguir aceitar a morte de Gala. 

Allegory of an American Christmas – Salvador Dali (1934)

15 – Multimídia

Sério. Salvador Dali fez de tudo. Além de artista plástico, foi escritor, roteirista, designer de joias, estilista, mesmo sem formação, se meteu a dar mil pitacos como se fosse arquiteto, tanto no Castelo de Pubol quanto no Teatro-Museum Salvador Dali, escreveu uma autobiografia e um livro de culinária… um cara incansável! E nunca parou de trabalhar e nem de inovar, sempre em contato com o que tinha de novidade. Em 1966 chegou a fazer uma participação num filme de Andy Warhol, quando visitou a Factory e elogiou o som da recém criada banda Velvet Underground. Teve uma vida longa e muito produtiva. Realmente, um artista como nunca se viu. 

16 – Deixando uma marca

A curiosidade mais inusitada deixamos para o final. Entre tantos trampos diferentes que exerceu na vida, um deles foi dar algumas ideias numa agência de publicidade em Barcelona. Em 1969 chegou um job na agência: criar uma logo para uma marca de doces que estava crescendo muito. E salvador Dali foi lá e criou essa logo. Uma logo que com certeza você já viu muito, e provavelmente já consumiu o produto também! Sabe aqueles saquinhos de doce de leite, brigadeiro e etc, que tem sempre nos caixas de supermercado, de loja de conveniência e botequins em geral? Então, a marca desses doces é a Chupa Chups, uma marca que está presente desde os anos 60 até hoje em mais de 150 países mundo afora. E a logo super simples e simpática da marca é uma criação de ninguém menos que Salvador Dali! 

O Dali está presente em várias estampas da Strip Me. E não é pra menos! Basta conferir sua obra e, de quebra, conhecer sua história pessoal maluquíssima! Não tem como ele não ser uma inspiração e uma referência para uma marca ligadíssima em arte, tendências, comportamento, diversidade e criatividade como a Strip Me! Então aproveita pra conferir todas as nossas estampas de arte, música, cinema, cultura pop e muito mais, além dos constantes lançamentos! Dá uma olhada na nossa loja

Meditative Rose – Salvador Dali (1958)

Vai fundo!

Para ouvir: Tão eclética e plural quanto a vida e obra de Salvador Dali, a música espanhola também é super diversa e interessante. Portanto, vamos dar uma geral no que há de mais legal na música da Espanha, do tradicional ao moderno. España Top 10 tracks!

Para assistir: Em 2008 foi lançado um filme bem interessante, bem como polêmico, chamado Little Ashes. Ele conta como começou a amizade entre Salvador ali, Federico Garcia Lorca e Luis Buñuel. A polêmica está no fato de o filme abordar a história com ênfase numa suposta atração sexual entre Dali e Lorca, teoria que já foi muito comentada, mas nunca realmente comprovada. De qualquer forma, o filme é bem legal. Dirigido pelo Paul Morrison e com roteiro de Philippa Goslett. Ah, sim. Quem interpreta o Dali neste filme é o atual Batman, Robert Pattinson.

De Repente 30… anos depois: 10 coisas dos anos 90 que estão de volta.

De Repente 30… anos depois: 10 coisas dos anos 90 que estão de volta.

Moda. Uma daquelas palavrinhas que tem três significados bem distintos, mas nem tanto. Moda é como chamamos o mundo de roupas, calçados e acessórios como brincos e colares, chapéus e etc. Mas moda também é como nos referimos a um estilo, uma maneira específica de comportamento, visual e etc. Um desfile de moda, junta os dois significados da palavra, já que se trata de um desfile de roupas e também é uma maneira de mostrar o estilo da pessoa que criou aquelas peças que estão sendo apresentadas. Mas a moda tem outro significado interessante. Ela pode representar a atualidade. Dizer que tal coisa está fora de moda, significa que é uma coisa fora do tempo atual, ultrapassada, antiga. E são essas três leituras da palavra moda que tornam tudo mais interessante. Porque este texto vai te mostrar que a moda dos anos 90 está super na moda, inclusive extrapolando o mundo da moda. 

Calma, vamos, usando um termo super na moda, ressignificar essa última frase: o estilo dos anos 90 está super atual em 2022, inclusive extrapolando o mundo do vestuário. É verdade. Os anos 90 voltaram com tudo. Óbvio que isso fica mais evidente no circuito fashion. São as estampas xadrez, jaquetas jeans, calças jogger, macacão (ou jardineira), coturnos, gargantilhas e tantos outros itens. Mas a coisa vai muito além! Estamos falando de vitrolas no formato de maletas, para tocar discos de vinil, vendendo feito água, gente pirando ao jogar Super Mario, gente chorando pra ir no show da Sandy & Júnior, Mobilete voltando a ser fabricada e até mesmo o Palmeiras com um time forte ganhando vários campeonatos (menos aquele lá, né…). E nós estamos aqui para comprovar que os anos 90 estão com tudo em pleno 2022. Então apaga esse cigarro que você roubou do seu pai, coloca Smells Like Teen Spirit pra tocar, amarra essa bandana direito na cabeça e vem com a gente conferir as 10 coisas dos anos 90 que estão super na moda hoje em dia! 

10 – Brinco de Cruz 

Nos anos 90 eles eram sinal de rebeldia juvenil tanto para meninos e meninas. Figuravam nas orelhas de todo mundo, de George Michael a Mr. T, de Sarah Jessica Parker a Courtney Love. Hoje voltam à moda repaginados. Além de aparecerem nas versões clássicas, dourado e prateado, também vem com a opção de cores metalizadas super diferentes. Além disso, tem a vantagem de combinar com tudo e ser unissex. Se antes era sinal de rebeldia, hoje chega a dar um ar clássico ao look. 

9 – Pochete 

Eterna polêmica. Já nos anos 90 a pochete tinha muitos desafetos. Não é de se estranhar, convenhamos. Apesar de sua indiscutível praticidade, é uma parada difícil de gostar esteticamente. É um cinto com uma bolsa acoplada, um negócio esquisito. Acontece que essa é a impressão de só uma parte das pessoas. E a moda, aquela das vitrines fashion, conseguiu inserir a pochete em looks descolados e ela tá aí, firme e forte em pleno 2022, e não dá sinais de desaparecer tão cedo. É, parece que a pochete colocou seus detratores no bolso e fechou o zíper. 

8 – Chinelos slide 

Para quem se liga em comunicação e publicidade, esse chinelo é um verdadeiro ícone. É o tipo de produto que ficou mais conhecido pelo nome de uma marca, do que pelo próprio nome. Se você fala chinelo tipo slide, pouca gente sabe o que é, mas se disser chinelo tipo Rider, todo mundo sabe. A campanha publicitária “Rider dá férias para os seus pés” fez um sucesso inacreditável nos anos noventa, com comerciais de TV lindos embalados por músicas de Tim Maia, Paralamas do Sucesso e Lulu Santos. Depois que a Grendene, fabricante do Rider, encerrou sua parceria com a W/Brasil (atual WMcCann) o Rider ficou meio esquecido nos anos 2000. Mas agora volta como opção vintage e confortável para jovens que sequer eram nascidos quando o Brasil inteiro queria dar férias para os seus pés. 

7 – Nike Air Max 90 

Ainda falando de calçados, outro marco dos anos 90 foi o revolucionário Nike Air Max 90. Um tênis criado pensando no conforto e bom desempenho de atletas. Ele foi projetado com uma sola um pouco mais espessa, com uma câmara de ar no meio, que proporciona uma pisada mais firme, mas amortecendo o impacto. Acontece que além desse conforto tanta para quem faz caminhadas, quanto quem corre, o Nike Air Max 90 tem um design super bonito, combinando duas ou três cores. Nos anos 90 virou queridinho da moda streetwear. Mas no século XXI perdeu espaço para tênis mais espalhafatosos, com cores berrantes. Porém, você sabe que a Nike não é boba. Já de olho nessa onda nostálgica dos anos 90, que começou faz alguns anos, aproveitou que em 2020 o Nike Air Max 90 completava 30 anos de sua criação, e o relançou fazendo estardalhaço na imprensa. E todo mundo amou. Resultado: Tá aí o Nike Air Max 90 mais vivo do nunca. 

6 – Relógio Casio Digital 

A Casio é uma empresa de eletrônicos japonesa, dessas que servem de inspiração para todo empreendedor. Começou no Japão devastado no fim da década de 1940 e hoje se mantém como uma das mais fortes do segmento. Nos anos 90 a marca era conhecida aqui no Brasil por dois produtos: Um era o teclado, que vinha com um banco de centenas de timbres e emuladores de sons e dezenas de ritmos. O outro era o relógio digital. O relógio logo se tornou uma febre entre adolescentes, pois eram relógios baratos e o visor digital tornava muito mais fácil identificar a hora do que o visor de ponteiros. Talvez tenha sido a nostalgia que fez com que eles voltassem à moda de alguns anos pra cá. O fato é que a Casio não perdeu tempo e relançou vários modelos de seus clássicos relógios, incluindo uma linha feminina vintage com pulseiras douradas e rose gold muito bonitas, que venderam horrores! 

5 – Patinete 

O jovem recém formado, que vive numa grande cidade e usa um patinete motorizado para se locomover pra lá e pra cá, talvez nem imagine que tal veículo há muito tempo faz sucesso, mas até então entre crianças e adolescentes. Dizem que o patinete foi inventado no começo do século XX como um brinquedo mesmo, feito com pedaços de caixas de madeira e rodinhas de ferro, algo bem semelhante ao que vemos no primeiro filme De Volta Para o Futuro, em que Marty McFly arranca a parte de cima, transformando o brinquedo num skate e o usa para fugir do Biff e sua gangue. Uma cena deveras antológica. Nos anos 90 o patinete não só ainda fazia sucesso, como teve a sua versão motorizada, que ficou conhecida como walk machine. Mas era um brinquedo caro, e que não durou muito no mercado. E de uns tempos pra cá, a turma vem pensando mais sobre a emissão de gás carbônico e queima desenfreada de combustível a base de petróleo. Ainda bem. Assim, nas grandes cidades, começou a pintar o esquema de aluguel de bicicletas e também de patinetes elétricos, que facilitou demais a locomoção das pessoas, sem precisar usar carros, motos ou lotar trens e ônibus. Uma moda realmente útil e, por que não dizer, lúdica também. 

4 – Celular de Flip e outros pré-smartphones 

Um dos sinais de que você virou um adulto é quando começa a admitir que seus pais tem razão sobre uma porção de coisas que você não concordava antes. Se o seu pai e/ou a sua mãe são daquelas pessoas de meia idade que não se adaptaram aos smartphones e continuam com aquele Nokia velho e indestrutível, talvez seja a hora de você dar razão a eles nisso também. De 2016 pra cá, só nos Estados Unidos, foram adquiridos mais de 30 milhões de aparelhos antigos. Isso porque foi em 2016 que a famosa editora da revista Vogue, Anna Wintour, foi fotografada com um celular de flip antigo. Depois disso, a Adele apareceu no clipe de Hello com um celular do tipo Star Tac. Em seguida, celebridades começaram a aparecer com aparelhinhos desse naipe em todo o canto, como por exemplo Rihanna, Scarlet Johansson e até o nosso querido Iggy Pop. E é uma tendência que segue firme e forte. Quem abraça os celulares antigos justifica a escolha dizendo se sentirem mais livres, sem tanta distração de apps dos mais variados, sem falar na segurança de não ter um aparelho conectado à nuvem sujeito a invasões e hackers e etc. Olha, até que dá pra entender. Mas o duro é a gente se adaptar de novo com SMS, sem poder enviar stickers ou gifs com memes engraçados. 

3 – Nintendo Nes e outros consoles 

Inquestionável que os jogos recentes do Playstation e companhia são incríveis com gráficos ultra reais, roteiros complexos e cativantes e jogabilidade imersiva. Mas acontece que a turma na faixa dos trinta e poucos, quarenta anos, começou a sentir aquela saudade apertada de jogar um joguinho despretensioso, colorido e com uma musiquinha em midi embalando a brincadeira. Assim, jogos como Super Mario, Sonic, Pac Man, Final Fantasy e outros começaram a aparecer em formato de app para celular e computador. Sem perder tempo, a Nintendo já lançou o Nintendo Nes Classic Edition com vários jogos na memória. O console vendeu milhões logo de cara. E recentemente a molecada de 18, 20 anos, também tem aderido ao formato, talvez influenciados por pais, tios e irmãos mais velhos. O fato é que o filão de consoles e arcades de video games dos anos 80 e 90 vem passando de fase sem dificuldade, cada vez mais longe do game over. 

2 – Fitas K7 

Talvez a volta mais difícil de entender seja a da fita K7. Vá lá, ela tem seu charme esteticamente. Mas é uma mídia trabalhosa e que não tem no mercado tantos aparelhos toca fita assim. A fita sempre foi a segunda opção. Quando o vinil estava muito caro, ou se comprava a fita original, que era mais barata que o disco, ou então, comprava-se uma fita virgem, ainda mais barata, e pegava o disco almejado emprestado de algum amigo e gravava na fita. Sem falar na possibilidade de fazer suas próprias compilações, as mixtapes. Provavelmente, o que fez com que as fitas voltassem com tanta força tenha sido um misto de nostalgia e curiosidade. O jovem que se liga em música e não pegou o tempo das fitas hoje vê com interesse essa mídia e tenta reviver um pouco aqueles tempos de que seu pai, tio ou irmão mais velho tanto fala. Sem falar na chance de poder comprovar na prática a história que dá pra voltar a fita usando uma caneta Bic

1 – Vinil 

Aí sim. É o rei da nostalgia, né. Na real, o vinil nunca saiu muito da moda. Teve momentos de baixa, é verdade, mas sempre manteve aqueles fiéis seguidores, mesmo no fim dos anos 90, começo dos 2000. Época sombria em que o mercado da música digital engatinhava e o CD, que já tinha atingido seu ápice, começava uma descida vertiginosa e irrefreável rumo a obsolescência. Tempo em que a maioria das pessoas se desfazia de suas coleções de vinil nos sebos para adquirir CDs de suas bandas favoritas. Mas já em meados da década de 2000 o vinil começa a aparecer quase como um artigo de fetiche entre músicos e admiradores de música. A internet impulsionou a venda de discos raros até chegar ao ponto em que se tornou cool ter uma vitrolinha e uma coleçãozinha de discos de vinil. A verdade é que o vinil agrada todo mundo. Agrada o cara chato, metido a entendido de música e agrada o jovem descolado com a sua vitrola em formato de maleta que coloca o um disco do Tom Zé pra rolar e posta nos stories do Instagram com um filtro de imagem envelhecida. Seja no Spotify ou na vitrolinha, o importante é ouvir música boa. 

Sejamos francos. A década de 60 começou a porr@ toda, a década de 70 intensificou e deu brilho, a década de 80 exagerou, levando tudo a limites extremos. Coube à década de 90 chutar muitas bundas e recomeçar algumas coisas. Pode não ter sido a década mais inventiva, mas criou muita coisa boa. Além do mais é a década em que boa parte da equipe da Strip Me cresceu, e de onde tirou suas primeiras referências para criar um mundo de barulho, diversão e arte através de camisetas incríveis! São camisetas de música, cinema, arte, cultura pop, tudo indo muito além dos anos 90. Para sacar isso, basta conferir os lançamentos na nossa loja

Vai fundo! 

Para ouvir: Uma playlist caprichada com canções inesquecíveis dos anos 90! 90’s Unforgetable Hits top 10 tracks

Para assistir: Para um retrato divertido e levemente exagerado do que era a juventude os anos 90, basta assistir ao filme Singles – Vida de Solteiro, escrito e dirigido pelo Cameron Crowe. Filme todo ambientado em Seattle, contando com algumas das principais bandas do grunge. Não e um filme maravilhoso, mas é bem divertido e agradável de se ver. 

Para ler: O livro Viva la Vida Tosca, a autobiografia do João Gordo, co-escrita pelo André Barcinsky, é um livro delicioso de se ler, com vários causos interessantes sobre quase nenhum sexo, mas muitas drogas e rock n’ roll. E boa parte do livro é um baita retrato dos anos 90 no Brasil, com os causos do Gordo excursionando com os Ratos de Porão e trampando na MTV Brasil. O livro saiu pela editora Darkside com um tratamento gráfico excelente. Leitura mega recomendada. 

Mulheres que Representam!

Mulheres que Representam!

Até parece que é chover no molhado falar que o dia da mulher é todo dia, e não só o dia 8 de março. Que as mulheres são incríveis e empoderadas. E que a luta do feminismo por um mundo de real igualdade e respeito é mais que digna, é essencial para a humanidade. Acontece que a gente tem que chover no molhado sim, todo ano nessa época. É claro que todas as afirmações acima são verdadeiras e do conhecimento de muita gente. Lógico que as coisas já melhoraram bastante, e hoje as mulheres tem muito mais voz e protagonismo. Mas ainda falta muito. Então, pra gente não deixar essas ideias passarem batidas, escolhemos 5 mulheres brilhantes, com histórias inspiradoras, pra comentar por aqui, como uma homenagem, sendo que essas 5 representam com propriedade todas as mulheres deste mundo!

Carmem Miranda 

Photo by Silver Screen Collection/Hulton Archive

Por muito tempo a Carmem Miranda não era muito bem vista aqui no Brasil. Alguns críticos e intelectuais, desses que gostam muito de criticar, mas não produzem nada original ou relevante, diziam que ela era uma artista fabricada, sem originalidade, americanizada, estereotipada, que ridicularizava a imagem do Brasil no exterior… Um absurdo, né? Por mais que ela nunca tenha sido compositora, era uma artista nata! Desde criança gostava de cantar, vivia sorrindo. Teve uma vida pobre no Rio de Janeiro, onde trabalhou desde criança. Primeiro entregando marmitas, depois vendendo gravatas e, por fim, já adolescente, numa loja de chapéus onde se encantou com o mundo da moda e desenhava figurinos. Aos 20 anos de idade gravou seu primeiro disco, no ano seguinte, 1930, vendeu quase 40 mil cópias, um sucesso estrondoso para a época. Aos 22 anos era considerada a rainha do rádio! Do rádio foi para o cinema, onde estrelou 7 filmes, sendo o último deles, Banana da Terra (1939), onde imortalizou sua imagem vestida de baiana, com turbante florido, cantando O Quê que a Baiana Tem? De Dorival Caymmi. Em 1940 foi levado para Los Angeles por um produtor norte americano que passava férias no Rio. Nos Estados Unidos virou uma estrela inquestionável! Estrelou 14 filmes, sendo a maioria como protagonista, no fim dos anos 40 ela era a mulher com o maior salário de Hollywood, conquistando até uma das cobiçadas estrelas na legendária Calçada da Fama! Ela mesma desenhava seus figurinos exuberantes e exóticos, tinha um senso estético fantástico, apenas movimentando os braços e os olhos, ela dançava como ninguém! Mas o ritmo de trabalho frenético de LA cobrou seu preço. Carmem Miranda ficou viciada em anfetaminas e acabou tendo uma parada cardíaca por conta dos estimulantes, morrendo aos 46 anos de idade, em 1955. Apesar de ter morrido em LA, ela foi velada e enterrada no Rio de Janeiro, cidade que sempre amou e considerou seu verdadeiro lar. 

Audrey Hepburn 

Photo by harpersbazaar.com

Mesmo tendo origem numa família nobre, Audrey Hepburn passou longe de ser uma bonequinha de luxo. Mas tinha tudo para ser uma grande artista. Ainda criança apaixonou-se pelo balé clássico. Por conta do trabalho do pai, a família de Audrey morou em vários países, o que deu a ela uma cultura considerável. Na adolescência, ela já falava holandês, inglês, alemão, italiano, francês e espanhol. Quando a Segunda Guerra Mundial começou, Audrey tinha apenas 10 anos. Na época morando em Arnhem, na Holanda, ela viveu os horrores da guerra quando os nazistas invadiram a Holanda. Em 1942 viu um tio ser fuzilado. Há muitos boatos, e muito poucas evidências, de que ela tenha participado ativamente na resistência holandesa. Talvez ela não tenha atuado como mensageira, percorrendo as cidades destruídas, como dizem. Mas é tido como muito possível que ela tenha feito apresentações de dança nas ruas em troca de dinheiro e ter dado esse dinheiro para a resistência, a qual seu tio fazia parte. Depois da guerra, mudou-se para a Inglaterra onde se especializou como dançarina de balé e começou a atuar em peças de teatro e filmes. Em 1952 a escritora Colette estava envolvida com a produção do musical da Broadway inspirado em seu livro, Gigi. Ela viu Hepburn se apresentando num teatro em Monte Carlo e decidiu convidá-la para atuar na Broadway. Daí foi só ladeira acima. Foram 23 filmes só em Hollywood, fora os que ela atuou na Inglaterra antes, e fora as muitas peças da Broadway. Foi uma mulher que trabalhou demais, e sempre com excelência! Ela ganhou dois Oscars e foi premiada mais de 25 vezes em premiações mundo afora. Seu papel mais emblemático, claro, foi Holly Golightly, a protagonista de Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s) lançado em 1961. No final da década de 60, quando sua careira estava no auge, ela decide parar tudo para ter filhos e se dedicar à família. Claro fez um filme aqui, outro ali, mas entre 1967 e 1993, quando ela faleceu, participou de apenas 5 filmes. Mas sua vida não se limitou a ser dona de casa, ela se engajou em muitas campanhas humanitárias e foi nomeada Embaixadora da Unicef em 1989. Audrey Hepburn foi diagnosticada com um câncer no estômago em 1992 e morreu dormindo na noite do dia 20 de janeiro de 1993. Mas certamente ela é uma dessas estrelas que nunca vai deixar de brilhar. 

Frida Kahlo 

Self-portrait with thorn necklace and hummingbird by Frida Kahlo (1940)

Ah, uma artista em sua mais pura essência! Afinal o que mais pode ser a arte senão o sofrimento travestido em cores fortes, olhares misteriosos e a vida traduzida em sentidos? Assim era Frida Kahlo! Uma mulher brilhante que encontrou ao longo de sua vida muito mais desgraças do que qualquer outra coisa, tentou domar seus sentimentos na base de pinceladas, onde foi muito bem sucedida, mas também o fez de maneira dolorosa, misturando prazer e sofrimento em relacionamentos amorosos questionáveis e abuso de remédios dos mais variados. A história de Frida é louquíssima porque tem um monte de camadas. Oriunda de uma família de classe me´dia, sua infância foi triste, testemunhando o casamento falido dos pais. Teve poliomelite, o que lhe deixou de cama por meses e lhe rendeu uma saúde frágil pro resto da vida. Quando jovem, aos 18 anos, sofreu um acidente gravíssimo, quando o ônibus em que ela estava se chocou com um bonde. Um corrimão do ônibus lhe perfurou as costas, a pélvis, o abdome e o útero, teve três vértebras e a clavícula fraturadas e seu pé direito foi quase triturado. Ainda assim ela sobreviveu, se recuperou, mas viveu o resto de seus dias com dores crônicas por todo o corpo, o que justificava (mais ou menos) o uso excessivo de analgésicos. E foi depois do acidente que Frida se dedicou a pintura, além de ler muito e se engajar politicamente. Filiou-se ao partido comunista mexicano, chegou a receber em sua casa no México, e ter um affair, dizem, o lendário político russo Leon Trotsky. Aliás, se o caso com Trotsky realmente rolou, foi uma das muitas puladas de cerca de Frida, que vivia casada desde 1929. Um casamento daqueles, entre tapas e beijos, amor e ódio. Mas o importante é que Frida Kahlo se tornou uma das artistas mais emblemáticas da história! Uniu primitivismo, folclore mexicano e surrealismo, tudo com um toque de feminismo muito peculiar, que produziu uma obra autêntica, revolucionária e influente até hoje. Frida foi encontrada morta em seu quarto no dia 13 de julho de 1954. Ela tinha 47 anos e morreu de uma possível embolia pulmonar, mas não se descarta a possibilidade de uma overdose premeditada de remédios, já que ela já tinha tentado suicídio muitas vezes ao longo da vida. Uma artista em estado bruto, tão perturbadora quanto genial. 

Amy Winehouse 

Photo by Phil Griffin

Há quem tente resumir a Amy Winehouse num clichê do tipo “rockstar que perde tudo para o vício em drogas, genialidade desperdiçada, blá blá blá…” Quem diz isso não poderia estar mais errado, cara! A história da Amy Winehouse é única, apesar de conter sim alguns clichês que, infelizmente, ainda se abatem muito sobre as mulheres, sejam elas estrelas pop ou ilustres desconhecidas. Desde muito criança, Amy já demonstrava aptidão para a arte, em especial a música. Porém era muito tímida. Quando chegou na adolescência e começou a fazer suas primeiras apresentações, como cantora, se sentia insegura, sofria de ansiedade, e isso culminou numa bulimia que não foi tratada. A bulimia e a anorexia são mais comuns do que a gente pensa, mas muito pouco se fala a respeito. Aliás, cabe aqui um parênteses pra homenagear outra mulher incrível e talentosíssima, a Karen Carpenter, que morreu muito jovem em decorrência da anorexia. Mas voltando à Amy, ela foi uma menina que sempre respirou música. Teve uns empreguinhos pra levantar uma grana, mas se realizava mesmo se apresentando em clubes de jazz em Londres. Entre 2000 e 2001 ela já era conhecida no circuito undeground de jazz da cidade e tinha uma fita demo na mão. Um amigo de um amigo conseguiu uns contatos e por fim, em 2002 ela assinou com a EMI, lançando seu primeiro disco pelo selo Island Records. O disco Frank foi lançado em 2003 e foi bem recebido pela crítica, mas sem venda expressiva. Mas o jogo virou mesmo em 2006 com o antológico disco Back to Black. Amy Winehouse se mostrou uma cantora impressionante e uma compositora sensível e bem articulada, com uma sonoridade super plural. E é em cima dessa obra, curta, mas irretocável, que Amy Winehuse se imortalizou. Todo mundo sabe das tretas do casamento conturbado dela, dos vícios em drogas, dos bafões estampados nos tablóides britânicos. Mas, cara, essa mulher revigorou a música pop, revolucionou o R&B moderno e é modelo até hoje como estética fashion. A Amy Winehouse é f*d@, e para sempre será! 

Elza Soares 

Photo by Daniel Barboza

Por falar em música e mulher f*d@, a gente finaliza essa lista com uma das mulheres mais emblemáticas da história moderna do Brasil. Nascida Elza Gomes da Conceição no Rio de Janeiro em em 23 de junho de 1930, Elza Soares conseguiu traduzir toda uma vida em música. Amores, tragédias familiares, pobreza, racismo… tá tudo lá, em mais de 60 anos de carreira musical. Logo na adolescência Elza já sentia na pele negra a dureza de ser mulher. Após ser abusada sexualmente por um “amigo” de seu pai, ela foi obrigada a se casar com esse “amigo” aos 13 anos de idade, para ter sua honra de mulher (vulgo virgindade) limpa. E, é lógico que depois de casada, vieram mais abusos e violência doméstica. Teve seu primeiro filho aos 14 anos. Com 15 anos viu seu segundo filho morrer de fome… olha a vida da Elza Soares dava um texto enorme! Enfim. O tal “amigo” finalmente morreu de tuberculose quando ela tinha 21 anos. Foi quando se viu livre para tentar realizar seu sonho: ser cantora. Vale lembrar que desde adolescente ela já se arriscava a compor umas canções. A entrada de Elza Soares no showbiz é revelador. Vestida humildemente, com um penteado todo troncho, ela se apresentou no programa de calouros de Ary Barroso. Quando a viu, o velho maestro, com bom humor perguntou: “De que planeta você veio, minha filha?”. Ela respondeu enfática: “Do mesmo planeta que o senhor, Seu Ary. Do planeta Fome.”. E é lógico que ela cantou, ganhou nota máxima e dali pra começar a gravar discos e etc, foi um pulo. Em 1962 ela já tinha uma carreira musical bem sucedida quando conheceu o craque responsável pela conquista da primeira Copa do Mundo do Brasil, o jogador Garrincha. Os dois começaram a namorar e Elza quase perdeu sua carreira de cantora, já que Garrincha abandonou sua então esposa para ficar com Elza. O público, que adorava Garrincha, começou a perseguir Elza acusando-a de destruir o casamento do jogador. Olha, foi um casamento muito conturbado. Anos depois, já morando juntos, Garrincha sofre um acidente de carro onde a mãe de Elza, que estava junto com ele, acaba morrendo. Ele entra em depressão, começa a beber muito e acaba por abandonar o futebol. Com o alcoolismo, vem a violência doméstica, o ciúmes exagerado e uma cirrose hepática que o matou em 1983. Elza segue a vida sempre cantando, gravando discos, fazendo shows… e sempre se reinventando, aglutinando novos gêneros musicais. Cantou samba, jazz, soul, funk, R&B, bossa nova, rock e até hip hop. Ela nunca parou de fazer música! Ela tem 33 discos gravados entre 1960 e 2021, sem falar nos 3 discos ao vivo e nas 7 coletâneas. Elza Soares morreu de causas naturais no dia 20 de janeiro de 2022, aos 91 anos de idade. Por coincidência, 39 anos depois, exatamente no mesmo dia que morreu Garrincha, que apesar de tudo, foi seu grande amor. Olha, a Elza Soares realmente é uma das representantes mais genuínas das mulheres não só no Brasil, mas no mundo. 

É impressionante! A vida de cada uma dessas 5 mulheres daria um livro. Resumí-las a um parágrafo é tarefa inglória. Mas a ideia é justamente que você queira saber mais e vá ler, assistir filmes, documentários… conhecer a obras de cada uma delas! Na real a gente sabe que a vida de toda mulher certamente daria um livro incrível, cheio de emoções e atitude, coragem, trabalho, ousadia e força! O dia 8 de março existe pra gente lembrar disso e entender de uma vez que igualdade não é só dividir a conta do bar, ter salário igual ou lavar uma louça no lugar dela de vez em quando. Essa igualdade tem a ver com respeito, com humanidade e sensatez. E é lógico que esses valores estão impregnados do DNA da Strip Me, que sempre celebra a diversidade, a igualdade, a responsabilidade, tudo encharcado de muito barulho, diversão e arte! Então confere lá na nossa loja os lançamentos e as estampas de arte, cinema, música, cultura pop e muito mais! 

Vai fundo! 

Para ouvir: Aquela playlist 100% Girl Power pra você curtir a semana da mulher! Girl Power Top 10 tracks

Para assistir: Tem muitos filmes excelentes sobre grandes mulheres, de A Cor Púrpura a Thelma & Louise. Mas hoje recomendamos um filme que não recebeu tanta atenção do grande público, mas é um filmaço, com uma fotogrfia linda, um roteiro forte e bem construído e uma atuação intensa da ótima atriz Reese Whiterspoon. É o filme Wild, lançado em 2014, dirigido pelo Jean-Marc Vallée, roteiro do Nick Hornby e uma história incrível de uma mulher que resolve atravessar os Estados Unidos a pé para tentar se recuperar de alguns traumas pessoais. É um filmaço! 

Para ler: Uma leitura tão deliciosa quanto fundamental é a excelente autobiografia da atriz Fernanda Montenegro! No livro Prólogo, Ato, Epílogo: Memórias de Fernanda Montenegro, ela canta com delicadeza e fluidez toda a sua história, que é cheia de momentos interessantíssimos! Mais uma história de uma mulher com M maiúsculo que merece ser lida. 

100 ANOS DA SAM-SP: DE LÁ PRA CÁ

100 ANOS DA SAM-SP: DE LÁ PRA CÁ

Não há limites para a arte! Uma vez revelada sua verdadeira voz, reconhecida sua mais pura personalidade, evidenciada sua força e originalidade, a arte se espalha contagiosamente, inspira artistas a se arriscar, a criar, dar vida àquilo que nuca foi feito antes. Neste quarto e último texto homenageando os 100 anos da Semana de Arte Moderna de São Paulo, vamos entender como o movimento modernista, que começou a tomar forma na virada da década de 1910 para 1920, realizou a Semana de Arte Moderna em 1922 e se consolidou em 1928 encontrando sua mais pura personalidade, foi fundamental para todas as expressões artísticas que viriam a seguir no Brasil. A Semana de Arte Moderna de 1922 acabou sendo o farol que guiou, e ainda guia, muitos artistas brasileiros a encontrar sua própria voz, sua personalidade. 

O combo de 1928, Manifesto Antropofágico + Abaporu + Macunaíma, realmente acendeu a luz da identidade artística essencialmente brasileira. Artistas contemporâneos a Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Mário de Andrade se reinventaram. Em especial na literatura, muitas obras únicas e geniais foram concebidas a partir de 1930. Ganham notoriedade nomes como Jorge Amado, Graciliano Ramos, Cecília Meirelles, Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiros, José Lins do Rego, Mário Quintana, Érico Veríssimo e, o maior de todos e verdadeiro alquimista da língua portuguesa, João Guimarães Rosa. Guimarães Rosa é tão importante porque é a mais evidente e brilhante síntese da metáfora antropofágica. Nascido em 27 de junho de 1908, teve uma infância tranquila no interior de Minas Gerais. Sempre afeito a leitura, ainda criança dizia que estudava por diversão. Fez faculdade de medicina, profissão que exerceu por muito tempo, mas sempre escrevendo nas horas vagas. Em meados da década de 1930 passou no concurso do Itamaraty e tornou-se diplomata. Atuou como cônsul brasileiro na Alemanha entre 1938 e 1942. Na embaixada do Brasil em Hamburgo ele conheceu e logo se casou com Aracy de Carvalho, uma mulher fantástica, funcionária da embaixada brasileira, que entrou para história como heroína ajudando judeus a escapar das garras do nazismo fugindo para o Brasil, emitindo muito mais vistos do que as cotas permitidas pelo governo. Em 1946, já de volta ao Brasil, ele lança Sagarana, seu segundo livro e o primeiro a já evidenciar uma linguagem moderna. Mas foi em 1956 que ele lança sua grande obra: Grande Sertão: Veredas! Um épico que captura a alma do regionalismo brasileiro, como só Mário de Andrade foi capaz em Macunaíma. Mas Guimarães Rosa vai além criando uma linguagem totalmente nova, criando palavras e impondo uma narrativa que preza mais pela fluidez do que pelo padrão gramatical vigente. Antropofagia pura! Numa entrevista, ele chegou a declarar o seguinte: “Eu falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituano, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do checo, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional.”. Ele faleceu no dia 19 de novembro de 1967, algumas semanas depois de ser indicado ao Prêmio Nobel da Literatura e apenas 3 dias depois de assumir sua cadeira na Academia Brasileira de Letras, ocasião em que discursou e disse emblemática frase: “A gente morre é pra provar que viveu.”. 

Nas artes plásticas, as cores e pinceladas fortes de Anita Malfatti e os traços únicos de Tarsila do Amaral foram determinantes para as gerações das décadas de 1940 e 1950. Ismael Nery, Alfredo Volpi, Aldemir Martins e, principalmente Cândido Portinari. Portinari talvez seja o pintor de maior êxito no Brasil. Produziu em abundância e com muita qualidade. Ele nasceu no interior de São Paulo, numa fazendo de café em 29 de dezembro de 1903. Apesar do pouco estudo, ele não chegou a completar o ensino primário, tinha um talento inquestionável. Quando ele tinha 14 anos um grupo de pintores e escultores italianos passou pela cidade onde ele morava. Esses artistas viajavam de cidade em cidade fazendo restauração de pinturas, esculturas e vitrais de igrejas. Tais artistas se impressionaram muito com o talento do garoto, que acabou trabalhando com o grupo por um tempo. Depois, com 16 para 17 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro para aprimorar sua arte. Ele ingressa na Escola Nacional de Belas Artes e chama a atenção de acadêmicos e até mesmo da imprensa. Era um artista tradicional, mas à partir de 1926 toma conhecimento do modernismo e se interessa pelo estilo. Após ganhar uma bolada num concurso em 1928, ele embarca para a Europa pela primeira vez, e fica em Paris por 2 anos. Volta para o Brasil cheio de novas ideias e técnicas. Assim como Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti, Portinari pinta elementos brasileiros com muita personalidade, mas incluindo uma linguagem muito mais criativa e envolvente. Suas obras ganham prestígio mundo afora, ele chegou a fazer exposições exclusivas no legendário MoMA (Museu de Arte Moderna de New York). Ele pintava compulsivamente e acabou morrendo intoxicado pelas tintas que utilizava, pois trabalhava num ateliê pequeno e abafado, em 6 de fevereiro de 1962. 

Depois do golpe de 1930, que alçou Getúlio Vargas ao poder de maneira inconstitucional, o Brasil entraria num momento particularmente nefasto. Após algumas revoltas, em 1937 Vargas instaura o Estado Novo, a ditadura mais truculenta já vista no Brasil. Apesar de ter durado de 1937 a 1945, apenas 8 anos, ela foi mais violenta do que a ditadura de 1964, que se estendeu até 1985. Fora isso, o mundo via com terror a ascensão de Hitler e os horrores da Segunda Guerra Mundial. Mesmo depois de tanta violência, inacreditavelmente, Getúlio Vargas volta ao poder nos braços do povo, eleito democraticamente em 1951 presidente do Brasil, cargo que deixaria em 1954 após cometer suicídio. Ou seja, foi uma fase de muito medo, insegurança e incerteza. Mas a segunda metade da década de 1950 parece ter trazido novos ares e o Brasil praticamente renasceu. Em 1955 Juscelino Kubitschek assume a presidência do país abrindo o Brasil para o comércio estrangeiro, cheio de planos de desenvolvimento, incluindo mudar a capital do país para uma cidade recém planejada e construída no meio do cerrado. Em 1958 o Brasil ganha sua primeira Copa do Mundo de Futebol… enfim, uma euforia pairava o ar. No meio disso tudo alguns artistas despontavam com novas linguagens, em paralelo ao não menos novidadeiro Cinema Novo de Nelson Pereira Santos e Glauber Rocha, e à moderníssima bossa nova, gênero musical que nascia da fusão do samba com o jazz na zona sul da cidade do Rio de Janeiro. 

No meio de toda essa efervescência o jovem Hélio Oiticica se estabelecia como um dos principais artistas de um coletivo chamado Frente! Um coletivo de artistas plásticos que estudavam e promoviam exposições de arte concreta e outras vertentes da arte de vanguarda. Oiticica, já absorvendo elementos da Pop Art, começou a extrapolar a tela e a tinta para criar ambientes, o que ele chamava de arte penetrável, ou arte ambiental. Em 1964 ele se interessa pela produção de carros alegóricos das escolas de samba e acaba mergulhando naquele mundo. Foi uma experiência transformadora, que o fez acrescentar mais elementos artísticos e impregnar cada vez mais suas obras com críticas sociais. Até que o ano de 1967 chega trazendo uma nova revolução. No Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Oiticica apresenta um ambiente que mistura paisagens tropicais, elementos dos morros cariocas, a pobreza, a alegria do samba e muito mais. A obra se chama Tropicália e viria a inspirar Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros músicos a criar o mais antropofágico dos movimentos culturais brasileiros: o tropicalismo. Com uma linguagem estética moderna e pop de artistas como Antonio Peticov e a música universal e super criativa dos Mutantes o tropicalismo é o filho prodígio do modernismo e da Semana de Arte Moderna de 1922. É o Brasil e o mundo ao mesmo tempo agora, em sua mais completa tradução. 

Consequentemente, o que se seguiu de lá pra cá só reforça esse conceito de evolução da arte, que encontra na metáfora mais que perfeita do Manifesto Antropofágico o meio ideal para se reinventar, evoluir e provocar, encantar, emocionar, empolgar e existir. Vieram nomes que absorveram, misturaram, subverteram e produziram uma arte contemporânea e original como Chico Science e o Manguebeat, e o Eduardo Kobra e seu grafite revolucionário. Encerramos hoje este mês de celebração dos 100 anos da Semana de Arte Moderna de São Paulo. O momento que mudou drasticamente todos os padrões da arte no Brasil, que desencadeou uma enxurrada de obras e movimentos revolucionários. A Strip Me está sempre de olho no que há de mais novo e interessante da arte, que instiga a criar. Mas também não deixa de olhar pra trás, pra aprender e se inspirar no que é clássico e abriu caminhos. Por isso a Strip Me apresenta estampas homenageando a Semana de Arte Moderna de 1922 e também tantas outras estampas de arte, música, cinema, cultura pop, tudo que nos encanta e inspira! Uma homenagem da Strip Me a todos que fizeram parte daquela semana de muito barulho, diversão e arte no Teatro Municipal de São Paulo 100 anos atrás! 

Vai fundo!  

Para ouvir: A produção musical no início do século XX era bem limitada e essencialmente de música erudita, né. Então, ao longo desses 4 posts sobre os 100 anos da Semana de Arte Moderna, vamos caprichar numa playlist cheia de brasilidade, com o que rola de som enquanto os textos são produzidos. Uma playlist que vai crescendo a cada post, até chegar a ser um top 40 tracks! SAM-SP 1922 – Top 40 Tracks.    

Para assistir: Em 2002 a TV Cultura fez um ótimo documentário sobre a semana de Arte Moderna de 1922. Com vários depoimentos de gente que fez parte do movimento modernista, em gravações antigas, claro, é um doc que vale a pena demais ser visto! Tá completinho no Youtube.    

Para ler: Com certeza a obra mais emblemática da literatura modernista brasileira veio a ser publicada 6 anos depois da Semana de Arte Moderna. Claro, é o indispensável Macunaíma, de Mário de Andrade. Um livro delicioso, divertido e que diz muito, mas muito mesmo, sobre o Brasil de ontem, de hoje e de sempre. Leitura necessária! 

100 ANOS DA SAM-SP: A REVOLUÇÃO

100 ANOS DA SAM-SP: A REVOLUÇÃO

Tudo tem um ponto de partida, um início. O fogo no rastilho que precede a explosão. Por exemplo: Não é nenhum absurdo afirmar que se Bruce Pavitt e Jonathan Poneman não tivessem criado a Sub Pop, o grunge, movimento musical que mudou os rumos da música pop nos anos 90, não existiria. A maioria das bandas, como Nirvana, Soundgarden e Alice in Chains seriam bandas alternativas conhecidas somente no underground dos Estados Unidos. A verdadeira revolução que os discos Nevermind, Superunknow e Facelift causaram só aconteceu graças à existência da Sub Pop. Neste terceiro texto dedicado aos 100 anos da SAM-SP, a gente vai entender que a mesma coisa aconteceu com o movimento modernista brasileiro no começo do século XX. A Semana de Arte Moderna de 1922 foi considerada um marco, o ponto de ruptura, só algumas décadas depois de ter acontecido. Na época teve alguma repercussão na imprensa paulistana, um burburinho no meio artístico, que deu um novo incentivo aos artistas mais ousados. uma chancela aos artistas para realmente buscarem novos formatos, novas linguagens, novas inspirações. Os anos que sucederam a Semana de Arte Moderna de São Paulo trariam a verdadeira revolução na arte brasileira, em especial na literatura e nas artes plásticas. Revolução esta que teve como protagonistas um casal extraordinário. 

É muito importante lembrar que os artistas brasileiros, em especial os modernistas, eram totalmente influenciados pelas escolas artísticas europeias. Sim, era uma arte de vanguarda, o expressionismo, surrealismo, eram escolas que causavam a mesma repulsa nos conservadores tanto aqui no Brasil quanto no exterior. Por mais que Anita Malfatti e Di Cavalcante na pintura, Oswald de Andrade e Menotti del Picchia na literatura, imprimissem sua própria personalidade em suas obras, não só as técnicas, mas todas as referências eram estrangeiras. Faltava alguma coisa.  

Alguns meses depois da Semana de Arte Moderna ter acontecido, o escritor Oswald de Andrade partiu para a Europa, para passar uma temporada em Paris. Lá conheceu uma mulher extraordinária! Uma mulher linda e cheia de talentos! Além de muito inteligente, era uma pintora sensibilíssima e muito criativa. Ali, na Paris do final da belle époque, aquela mulher cativante vivia cercada de amigos, que eram também grandes artistas. Entre eles estavam os artistas plásticos Fernand Léger, Constantin Brâncuși, Georges Braque, Pablo Picasso e o poeta Blaise Cendras. Brasileira, essa mulher incrível reunia esses e outros artistas em sua casa em Paris, onde oferecia granes almoços, servindo feijoada, caipirinha, doce de abóbora com coco, cigarros de fumo enrolados em palha de milho e cafézinho coado na hora. Você já deve ter lido esta história aqui neste blog a um tempo atrás. É claro que estamos falando da brilhante Tarsila do Amaral

A Tarsila do Amaral nasceu numa fazenda enorme de café em Americana, interior de São Paulo. Sua família era muito rica e progressista. Ela teve uma educação invejável e foi incentivada pelos pais a seguir carreira de artista, dando a ela a oportunidade de ir à Europa frequentemente. Em 1922 ela já morava em Paris. Em fevereiro daquele ano, recebeu uma carta de sua amiga, Anita Malfatti, contando sobre o grande acontecimento da Semana de Arte Moderna em São Paulo e como os ares começavam a mudar nas artes do Brasil. No fim de 1922 ela conheceu em Paris Oswald de Andrade. Os dois se deram bem logo de cara, se apaixonaram e não tardariam a se casar. Para isso, voltaram ao Brasil em 1923, trazendo consigo o poeta Blaise Cendras para conhecer o país. Durante sua estadia no país, o poeta francês conheceu toda a turma modernista e se encantou com a efervescência da cidade de São Paulo. Mas foi uma pequena viagem para o interior de Minas Gerais que mudaria pra valer as coisas. 

Acompanhado de Oswald e Tarsila, Cendras conheceu o interior paulista e as cidades históricas mineiras. Ficou completamente estupefato com o que viu e viveu. A simplicidade poética do povo do campo, o chamado caipira, a beleza e exuberância da arte barroca de Minas Gerais, a comida inacreditavelmente deliciosa, a fauna e flora da região… O impacto foi tamanho que Cendras, numa conversa com seus amigos artistas brasileiros, fez um desabafo revelador. Ele disse que não entendia o que os brasileiros buscavam tanto na arte europeia se a própria existência do Brasil caipira era de uma riqueza inesgotável! Ele não entendia como aqueles artistas não buscavam inspiração em sua própria terra, sua própria gente, sua própria cultura! Foi um soco no estômago que abriu os olhos daquele pessoal. A revolução começara finalmente! Em 18 de março de 1924 é publicado no jornal Correio da Manhã o Manifesto da Poesia Pau Brasil, que seria mais encorpado e lançado em livro de mesmo título ainda naquele ano. Escrito por Oswald de Andrade, o texto sugere uma busca da identidade brasileira, um aceno ao primitivismo, mas com uma linguagem moderna, uma narrativa com a fluidez e liberdade do expressionismo. Os modernistas acabavam de descobrir o Brasil! 

Mas as grandes e fundamentais obras do modernismo brasileiro vão surgir somente em 1928, graças a um livro até então desconhecido escrito em 1557. Era o livro Hans Staden: Suas Viagens e Cativeiro Entre os Selvagens do Brasil. Hans Staden foi um aventureiro alemão que esteve no Brasil como explorador por duas vezes, uma em 1548, voltando para a Europa em 1549, e voltando ao Brasil em 1550. A história toda de Staden é inacreditável e merece ser lida. Nessa sua segunda viagem ao Brasil, aconteceu de tudo. Seu navio foi atacado por piratas, depois naufragou durante uma tempestade próximo a Santa Catarina, foi a pé até São Vicente, em São Paulo, uma epopeia cheia de aventuras. Até que em janeiro de 1554 ele estava na região onde hoje é a cidade de Bertioga. Praticamente na mesma semana em que o padre Manoel da Nóbrega fundava a cidade de São Paulo, do outro lado da Serra do Mar, Hans Staden foi capturado pelos índios Tamoio. Era uma tribo muito afeita à violência, desprezava os homens brancos e praticavam a antropofagia. Não eram meros canibais que comiam carne humana para matar a fome. Era um ritual eucarístico em que eles acreditavam que comendo a carne de seus prisioneiros, absorviam todas as virtudes do morto. Hans Staden viu aquilo acontecer mais de uma vez enquanto esteve preso na tribo. Ele conseguiu escapar dos índios em 1557, voltou para a Alemanha e escreveu este livro riquíssimo em detalhes sobre tudo que viveu no Brasil. 

Este livro é tão importante porque uma cópia dele, com texto original em alemão, foi adquirido em 1900, pelo barão do café Eduardo Prado, um dos paulistas mais ricos da época. Ele deu este livro para um botânico suíço que vivia no Brasil, chamado Albert Löfgren, que o traduziu para o português. Para ser editado e lançado no Brasil com o financiamento do próprio Eduardo Prado. Eduardo Prado este que era pai do Paulo Prado, o jovem e rico cafeicultor amigo dos modernistas que bancou a Semana de Arte Moderna no Teatro Municipal de São Paulo. Foi Paulo Prado que, na metade da década de 1920, notando o interesse e a busca dos modernistas, em especial Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Tarsila do Amaral, pelo Brasil profundo, deu a eles este livro. O casal Oswald e Tarsila ficaram impressionados com aquela história toda. E dali veio a inspiração para o antológico Manifesto Antropofágico e para a pintura brasileira mais icônica e importante da nossa história, o Abaporu, de Tarsila do Amaral. A saber, Abaporu em tupi significa Comedor de Gente. 

Tanto o Manifesto Antropofágico quanto o Abaporu foram lançados em 1928. No mesmo ano também foi lançado o livro Macunaíma, um verdadeiro divisor de águas na lieratura brasileira, que também foi influenciado diretamente pelo Hans Staden no sentido das tradições indígenas, mas que se misturou com a vida simples do caipira e a malandragem do brasileiro de camadas mais pobres das grandes cidades. Foram essas três obras grandiosas e geniais que realmente mudaram a maneira de se entender e de se fazer arte no Brasil. A Semana de Arte Moderna de 1922 foi o pé na porta, e as obras de Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Mário de Andrade realmente concretizaram a revolução que o modernismo tanto buscava. 

Uma história tão rica, tão interessante, tão recheada de atitude, de barulho, diversão e arte como é tudo que envolve a Semana de Arte Moderna de 1922 não poderia nunca passar em branco aqui na Strip Me! Por isso você encontra não só estampas relacionadas a este evento incrível, como muitas outras relacionadas às artes, música, cinema, cultura pop e muito mais! É só dar aquele conferida na nossa loja nos novos lançamentos

Vai fundo! 

Para ouvir: A produção musical no início do século XX era bem limitada e essencialmente de música erudita, né. Então, ao longo desses 4 posts sobre os 100 anos da Semana de Arte Moderna, vamos caprichar numa playlist cheia de brasilidade, com o que rola de som enquanto os textos são produzidos. Uma playlist que vai crescendo a cada post, até chegar a ser um top 40 tracks! SAM-SP 1922 – Top 30 Tracks.   

Para assistir: Em 2002 a TV Cultura fez um ótimo documentário sobre a semana de Arte Moderna de 1922. Com vários depoimentos de gente que fez parte do movimento modernista, em gravações antigas, claro, é um doc que vale a pena demais ser visto! Tá completinho no Youtube.   

Para ler: Com certeza a obra mais emblemática da literatura modernista brasileira veio a ser publicada 6 anos depois da Semana de Arte Moderna. Claro, é o indispensável Macunaíma, de Mário de Andrade. Um livro delicioso, divertido e que diz muito, mas muito mesmo, sobre o Brasil de ontem, de hoje e de sempre. Leitura necessária! 

100 ANOS DA SAM-SP: PÉ NA PORTA!

100 ANOS DA SAM-SP: PÉ NA PORTA!

Na semana passada você leu aqui o rebuliço que era o começo do século XX em São Paulo. Conservadores fazendo críticas, os artistas de vanguarda achando tudo chatíssimo e querendo dar uma renovada no rolê todo, o mundo recém saído de uma guerra mundial, por aqui uma república dominada pela bancada ruralista, com políticas excludentes, que só favoreciam os ricos. São Paulo se desenvolvia rapidamente com o dinheiro do café, se tornou uma cidade iluminada com a chegada da energia elétrica, o que permitiu criar-se uma fauna noturna de intelectuais endinheirados que se reuniam em bares e cafés até altas horas da noite, conspirando contra o parnasianismo, o classicismo e a chatice em geral que imperava nas artes brasileiras. E foi o artigo de Monteiro Lobato, Paranoia ou Mistificação, publicado no Estado de S. Paulo em 1917 que desencadeou uma ação mais efetiva entre o grupo de amigos de Anita Malfatti, alvo de Lobato no artigo, que destilou todo o seu desprezo pelas obras da pintora, com forte influência do surrealismo e expressionismo. Foi então que, além de Anita Malfatti, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Mário de Andrade, dentre outros artistas, passaram a se empenhar em produzir e divulgar uma arte mais contemporânea, provocadora e livre. Nesta época ainda não eram considerados modernistas, mas se auto intitulavam artistas futuristas! 

Mas demorou tanto tempo assim pra essa turma se organizar? O artigo de Monteiro Lobato foi publicado em 1917. Só 5 anos depois é que os modernistas conseguiram organizar um evento que os divulgasse amplamente? Demorou esse tempo todo sim. Mas, calma, porque muita coisa foi feita ao longo desse tempo. Um pouco antes ainda, Oswald de Andrade fez sua primeira viagem para a Europa. Voltou de Paris com o libertário texto Manifesto do Futurismo, do poeta italiano Filippo Tommaso Marinetti, embaixo do braço e disposto a implementar aquele mesmo senso de rebeldia, novidade, experimentalismo e liberdade no Brasil. No ano de 1918 ele se torna amigo muito próximo de Mário de Andrade, já que tinham em Anita Malfatti uma amiga em comum. Juntou-se á turma na mesma época o escritor Menotti del Picchia, o escultor Victor Brecheret, o pintor Di Cavalcanti e os escritores Guilherme de Almeida e Manuel Bandeira. Essa turma toda, entre 1917 e 1922 tiveram vários artigos publicados defendendo essa nova visão artística e exposições de telas e esculturas foram organizadas. 

O que viria a ser conhecido como movimento modernista tinha suas bases mais sólidas nas artes plásticas. As pinturas de Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Portinari e as esculturas de Victor Brecheret, sempre que expostas causavam muitas críticas no meio artístico e jornalístico e muita pouca atenção do público em geral. Os escritores Mario de Andrade, Menotti del Picchia e Oswald de Andrade publicavam seus artigos em periódicos insistentemente, defendendo a vanguarda da arte trazidas por eles mesmos da Europa. Foi no final de 1921 que, durante um jantar, em companhia do jovem e riquíssimo cafeicultor Paulo Prado, tiveram a ideia de fazer uma semana toda dedicada à arte moderna, com exposições e apresentações de música e leitura de textos e poesias. Paulo Prado, que não era artista, se prontificou a pedir uma ajuda a alguns de seus amigos também cafeicultores e riquíssimos, para que pudessem alugar o imponente Teatro Municipal para abrigar o evento. Já naquela noite começaram a articular ideias, pensar em que artistas participariam e etc. 

Dois fatos são muito curiosos nisso tudo. O primeiro é que Anita Malfatti precisou ser convencida a participar expondo algumas de suas telas. Depois de tanta crítica ao longo do tempo, a pioneira do expressionismo no Brasil estava cansada daquilo e não queria se expor. Ela não vinha de uma família rica, como Oswald de Andrade por exemplo, e tentava se manter longe dos holofotes, ganhando dinheiro pintando telas sob encomenda, dando aulas de pintura e etc. Sentia que participar de um evento como aquele colocaria seu nome em todos os jornais com críticas ferozes, que poderiam prejudicar sua imagem e fazer com que ela perdesse alguns trabalhos. Coube a Mario de Andrade, amigo e confidente de Anita, a missão de convencê-la. Missão esta cumprida com louvor. Outra curiosidade inacreditável é que o primeiro nome mais cotado para presidir a Semana, que seria responsável por fazer o discurso de abertura e seria uma espécie de mestre de cerimônias, era ninguém menos que Monteiro Lobato! Sim, porque apesar de todos os pesares, Lobato era amigo da maioria dos escritores modernistas. E ter Lobato na linha de frente significaria muito diante do público e da crítica especializada. Mas ele declinou o convite sem nem pensar, pois jamais pactuaria com aquele tipo de arte ultrajante (segundo ele próprio). Por sorte, de última hora, chega ao Brasil o diplomata e escritor Graça Aranha, um dos nomes mais respeitados na época, um homem rico, encantador e muito talentoso, um brasileiro que residia já há muitos anos em Paris, mas sempre vinha visitar sua terra natal. Em contato com a cultura europeia de vanguarda, Graça Aranha, ao ser convidado para presidir a semana de arte moderna de São Paulo, adorou a ideia e aceitou no ato! 

Com Paulo Prado financiando o Teatro Municipal e Graça Aranha confirmado para presidir o evento, não tinha como dar errado! E não deu mesmo. A Semana de Arte Moderna de São Paulo aconteceu de 13 a 17 de fevereiro de 1922. A programação era a seguinte: O saguão do Teatro Municipal de São Paulo ficaria aberto diariamente para visitação de uma enorme exposição com obras dos artistas Emiliano Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Zaina Aita, Ferrignac, Yan de Almeida Prado, John Graz, Vicente do Rego Monteiro, Antonio Paim Vieira, Victor Brecheret, Hildegardo Leão Velloso e Haarberg. Na noite do dia 13, uma segunda feira, a semana foi aberta com um discurso de Graça Aranha intitulado A emoção estética da arte moderna. Foi um discurso longo e bem monótono que rendeu nada mais do que aplausos protocolares. Em seguida sobe ao palco um conjunto de câmara que interpreta algumas composições de Heitor Villa-Lobos. Depois de um intervalo pro cafezinho e dar uma conferida nas obras expostas no saguão, o público retorna para que o poeta Ronald de Carvalho fizesse uma breve palestra falando sobre pintura e escultura moderna e declamando alguns versos de sua autoria. O público torceu o nariz, mas não fez muito alarde. Depois de algumas vaias, Ronald de Carvalho, espirituoso, respondeu ao público dando de ombros com indiferença: “Cada um fala com a voz que Deus lhe deu.”. A noite foi concluída com a apresentação do maestro Ernani Braga. 

A segunda noite de apresentações, na quarta-feira, dia 15 de fevereiro, não foi nada parecida com a estreia. Após a noite de segunda feira, os jornais fizeram duras críticas à exposição de obras de arte e às apresentações lítero-musicais pretensiosas. Farejando treta e algazarra, o público paulistano lotou o Municipal! Quem abre a noite é Menotti del Picchia com uma palestra sobre a literatura contemporânea. Ao exaltar uma literatura que foge dos padrões clássicos, del Picchia vai bem, mas recebe uma vaia enorme. Até que, no fim, ele anuncia que subirá ao palco Oswald de Andrade. O teatro vem abaixo, fazendo com que a vaia que del Picchia levou parecesse um abafado assobio. A vaia era descomunal. Oswald fica no palco parado por alguns minutos até que a vaia cesse. Finalmente em silêncio, ele começa a ler seu texto. E a vaia explode mais uma vez. Oswald declamou seu texto para ninguém, debaixo de vaias permanentes. Na sequência, Mario de Andrade sobe ao palco e a recepção é a mesma. Ele começa a ler com muita dificuldade. Em certo momento, ele para e espera que se faça silêncio. Quando todos param, ele diz: “Se for pra continuar assim, eu não continuo falando!” e uma gargalhada e um aplauso retumbante enchem o teatro. É feito um intervalo. Na volta das apresentações, a noite decorre com mais tranquilidade com uma apresentação de dança de Yvonne Daumerie e finalizando com um concerto de piano da pianista Guiomar Novaes, uma artista já consagrada e muito querida, a única a sair do palco sob aplausos satisfeitos. 

A noite de encerramento, na sexta-feira, dia 17 de fevereiro não foi tão movimentada. A atração principal era o compositor Heitor Villa-Lobos, que começava a ganhar notoriedade dentro e fora do Brasil. Apesar de sua formação erudita, era um músico contemporâneo, que começava a criar peças sinfônicas misturando elementos africanos e outras linguagens pouco convencionais. Entretanto, sua música era razoavelmente bem aceita. Por seu apelo popular, a noite de sexta feira foi toda dedicada à sua música, sem discursos e leituras e textos e poemas de escritores controversos, que poderiam gerar animosidade no público. Porém, o público lá estava para ver o circo pegar fogo. Quando Villa-Lobos sobe ao palco de fraque e calçando chinelos, o público desabou em vaias, acreditando ser aquela uma provocação a seja lá o que fosse. Porém, nada mais era do que uma unha encravada, ou algo parecido, que o impedia de calçar sapatos fechados. Mas com o tempo o público logo se acalmou e foi possível ouvir boa parte da apresentação de Villa-Lobos ao piano acompanhado de uma orquestra, que encerraria grandiosamente a Semana de Arte Moderna de São Paulo. 

Foi realmente um evento muito marcante e fundamental. Porém, o Brasil se daria conta disso só muito tempo depois. De imediato, a Semana de Arte Moderna causou muito falatório entre a sociedade paulistana, mas acabou dando origem a grandes obras e uma reestruturação enorme da arte no Brasil um bom tempo depois. Foi um verdadeiro pé na porta da arte moderna, que chegava pra ficar! E o que aconteceu nos meses e anos logo depois deste evento tão emblemático, você fica sabendo na semana que vem, no próximo texto deste mês, que é todo dedicado aos 100 anos da SAM-SP! Nesse meio tempo, você pode conferir as estampas especiais da Strip Me da Semana de Arte Moderna de 1922, sem falar de tantas outras estampas incríveis de arte, música, cinema, cultura pop e muito mais. Confere os lançamentos lá na nossa loja

Vai fundo! 

Para ouvir: A produção musical no início do século XX era bem limitada e essencialmente de música erudita, né. Então, ao longo desses 4 posts sobre os 100 anos da Semana de Arte Moderna, vamos caprichar numa playlist cheia de brasilidade, com o que rola de som enquanto os textos são produzidos. Uma playlist que vai crescendo a cada post, até chegar a ser um top 40 tracks! SAM-SP 1922 – Top 20 Tracks.  

Para assistir: Em 2002 a TV Cultura fez um ótimo documentário sobre a semana de Arte Moderna de 1922. Com vários depoimentos de gente que fez parte do movimento modernista, em gravações antigas, claro, é um doc que vale a pena demais ser visto! Tá completinho no Youtube.  

Para ler: Com certeza a obra mais emblemática da literatura modernista brasileira veio a ser publicada 6 anos depois da Semana de Arte Moderna. Claro, é o indispensável Macunaíma, de Mário de Andrade. Um livro delicioso, divertido e que diz muito, mas muito mesmo, sobre o Brasil de ontem, de hoje e de sempre. Leitura necessária! 

100 anos da SAM-SP: Origens

100 anos da SAM-SP: Origens

Nenhuma revolução é legítima se não passar pela arte! A gente não quer só comida, a gente quer comida, barulho diversão e arte! Nenhuma revolução é legítima se não tiver uma identidade própria muito clara! O orgulho de ser quem somos passa necessariamente pelo autoconhecimento. Nenhuma revolução é legítima se não causar consequências, se não deixar marcas permanentes! Portas da percepção abertas para tudo que é novo! Novas formas, novas cores. Novos Baianos. Deglutição tropical, antropofagia cultural. Nesta altura do campeonato, você já deve estar desconfiado, mas eu vou te confirmar. É fevereiro! E nós vamos passar todo o mês celebrando uma das mais legítimas revoluções brasileiras! A Semana de Arte Moderna de 1922, que neste mês completa 100 anos. Então se prepara! Porque vão ser quatro posts, cada um abordando um aspecto específico deste que foi, com absoluta certeza, o momento mais importante das artes no Brasil. 

É lógico que pra começar a gente precisa dar aquela geral na situação toda antes de a Semana de Arte Moderna ser idealizada e acontecer. E aqui é fundamental que a gente dê uma olhada no contexto histórico do Brasil até então. Era o começo do século XX e o Brasil tinha recentemente se tornado uma república, depois de um golpe militar todo esculhambado, mas que acabou depondo o imperador Dom Pedro II. No início da república, apesar de a cidade do Rio de Janeiro ser a capital do país, era São Paulo quem dava as cartas, pois a maior parte da renda do Brasil vinha do café, e os estados de São Paulo e Minas Gerais eram os maiores produtores dessa delícia. Você já ouviu falar na escola da república do café com leite, né? Pois então, é dessa época que estamos falando. À medida que os cafeicultores enriqueciam e acabavam por colocar quem bem entendiam nos cargos públicos, a cidade de São Paulo crescia, tornava-se cosmopolita, vibrante. E começam a pipocar pelos bares e cafés da cidade, que a partir de 1905 podiam ficar abertos até tarde da noite graças à instalação da energia elétrica, muitos intelectuais. 

Importante lembrar uma coisa aqui. As camadas sociais eram muito mais definidas no começo do século XX. Existiam os muito ricos, a classe média, que tinha uma vida confortável, e os muito pobres, essencialmente negros “livres” desde 1888, que viviam sem emprego em cortiços e barracos na periferia. Claro que já existia uma cultura popular entre os pobres, mas era tudo muito separado. Intelectuais e artistas reconhecidos eram todos de famílias ricas, jovens que estudaram na Europa e etc. As coisas só começariam a mudar e o popular se misturar com o erudito (leia-se o pobre com o rico) com a popularização do rádio, a partir da década de 1930. Isso posto, fica mais claro entender quem eram esses artistas e intelectuais que criariam o movimento modernista brasileiro e acabariam dando luz à Semana de Arte Moderna. 

Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Menotti del Picchia, Victor Brecheret, Anita Malfatti, Sérgio Millet, Di Cavalcante e tantos outros eram todos artistas e intelectuais ricos, em contato com o que havia de mais atual nas artes da Europa. Eles começaram a se reunir e debater sobre o atraso do Brasil no aspecto cultural. Realmente, o Brasil, conservador que só ele desde sempre, tinha uma literatura baseada no parnasianismo (uma escola literária que preza pelo uso mais rebuscado da língua, poesias com rimas dentro da métrica… enfim, uma chatice!), a pintura classicista, que respeita formas, cores, sombras, luz, etc, e uma música erudita baseada nos compositores clássicos europeus. Deu pra sacar que era tudo importado, né? Não existia uma linguagem genuinamente brasileira. Vá lá que na literatura já rolava o movimento primitivista, ou seja, alguns autores que olhavam para dentro do Brasil para ambientar suas ideias. Seu maior nome foi Monteiro Lobato, com seu personagem clássico Jeca Tatu. Entretanto, a linguagem de obras como a de Lobato ainda eram rebuscadas na escrita, apesar de trazer elementos brasileiros. Mas até a turma que seria conhecida no futuro como modernista trazia seus conceitos de arte de vanguarda, como o cubismo, surrealismo e etc, da Europa. 

Além de tudo, 1922 é um ponto de intersecção fundamental entre a história política e artística, que gerou mudanças essenciais para a história do Brasil como conhecemos hoje. Como já foi dito aqui, no começo do século XX era São Paulo quem dava as cartas no país. À medida que o ano de 1922 se aproximava, era preparada uma infinidade de festividades Brasil afora, pois aquele seria o ano do primeiro centenário da independência do país. E existe um aspecto muito importante da história que precisa ficar claro pra todo mundo: A história é fabricada! Os fatos chegam até nós no colégio distorcidos, exagerados, com alguns lados ocultos. A independência do Brasil é um ótimo exemplo disso. Por muito tempo após o fatídico 7 de setembro, era considerada como a data oficial da independência o dia 12 de outubro de 1822, que foi quando aconteceu a solenidade de coroação de Dom Pedro I como imperador do Brasil. O revisionismo histórico impulsionado por Dom Pedro II e pelos militares positivistas, já quase no fim do império, motivou algumas mudanças, fazendo com que alguns momentos soassem mais heroicos do que realmente foram. Assim passou-se a considerar o 7 de setembro como data oficial, mas sem grande alarde. Após a proclamação da república e São Paulo tendo seus intelectuais e milionários mandando no país, um novo revisionismo histórico passou a acontecer, ainda mais com o centenário da independência se avizinhando. Até então, a história do Brasil era essencialmente contada tendo como cenário os estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Pernambuco. São Paulo, buscando algum protagonismo na história, deu ênfase na independência ter sido proclamada às margens do Rio Ipiranga e criou a imagem dos bandeirantes como grandes heróis desbravadores, que até então não tinham esse nome e eram apenas caçadores de pedras preciosas e exterminadores de indígenas, ou seja, nada mais que uma nota de rodapé nas páginas da história. 

Com a década de 1920 florescendo, o momento era de transformação, crescimento e busca por uma identidade própria, genuinamente brasileira. Os intelectuais e artistas mais ligados a vanguarda já davam seus primeiros passos e sofriam os ataques dos conservadores. Em 1913 o escultor Lasar Segall fez uma pequena exposição com obras claramente influenciadas pelo cubismo de Pablo Picasso e Georges Braque, que foi recebida com entusiasmo por Mário de Andrade e sua turma, mas recebeu críticas pesadas da imprensa e do público em geral. Em 1917 Anita Malfatti faz sua mais famosa exposição, com telas calcadas no surrealismo e modernismo. Monteiro Lobato escreve um artigo que ficou famoso, chamado Paranoia ou Mistificação. Neste artigo, uma crítica a exposição de Malfatti, Lobato destila todo o seu desprezo por uma pretensa arte, que não segue regras, que é provocadora e de qualidade questionável. Tal artigo foi publicado no jornal O Estado de S. Paulo e é considerado o marco zero do movimento modernista. Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Menotti del Picchia, eram todos amigos e passaram a se reunir com frequência para encontrar meios de responder artigos como aquele de Monteiro Lobato, além de divulgar e enaltecer uma arte mais moderna e repudiar as artes encharcadas de conservadorismo e padrões estéticos. 

Com todas essas cartas na mesa, o ano de 1922 nasce cheio de promessas de mudanças. E se você está achando estranho não ter lido até agora o nome do Tarsila do Amaral, ou sobre o Abaporu, sobre o Macunaíma e sobre o manifesto Pau Brasil e o manifesto Antropofágico, não se desespere! Ainda tem muita história pela frente! Nos próximos textos, vamos falar sobre como foi a Semana de Arte Moderna, as obras, os textos, as músicas que rolaram no evento, como foi a recepção do público e da crítica, depois vamos falar das consequências e das principais obras modernistas e também vamos falar sobre o impacto décadas depois e como toda essa aura seria recriada nas mãos dos tropicalistas. Mas hoje nós paramos por aqui, em janeiro de 1922, quando Mário de Andrade, em uma de suas mais célebres obras, Paulicéia Desvairada, vaticina logo no prefácio: “Está fundado o Desvairismo!” 

Enquanto você espera os próximos textos, dá uma olhada nas estampas novíssimas da Strip Me sobre a Semana de Arte Moderna de 1922, isso sem falar de tantas outras sobre arte, música, cinema, cultura pop e muito mais! Confere lá na nossa loja as novidades!  

Vai fundo! 

Para ouvir: A produção musical no início do século XX era bem limitada e essencialmente de música erudita, né. Então, ao longo desses 4 posts sobre os 100 anos da Semana de Arte Moderna, vamos caprichar numa playlist cheia de brasilidade, com o que rola de som enquanto os textos são produzidos Uma playlist que vai crescendo a cada post, até chegar a ser um top 40 tracks! SAM-SP 1922 – Top 10 Tracks

Para assistir: Em 2002 a TV Cultura fez um ótimo documentário sobre a semana de Arte Moderna de 1922. Com vários depoimentos de gente que fez parte do movimento modernista, em gravações antigas, claro, é um doc que vale a pena demais ser visto! Tá completinho no Youtube

Para ler: Com certeza a obra mais emblemática da literatura modernista brasileira veio a ser publicada 6 anos depois da Semana de Arte Moderna. Claro, é o indispensável Macunaíma, de Mário de Andrade. Um livro delicioso, divertido e que diz muito, mas muito mesmo, sobre o Brasil de ontem, de hoje e de sempre. Leitura necessária! 

Meus caminhos tortos. Meu sangue latino.

Meus caminhos tortos.     Meu sangue latino.

Em 1976 o compositor cearense Belchior cantava que tinha 25 anos de sonho, de sangue e de América do Sul, e que, por força deste destino, um tango argentino lhe caía bem melhor que um blues. Na verdade, naquele ano Belchior já tinha 30 anos de idade. Mas consideramos que a canção em que consta essa frase, À Palo Seco, foi composta em 1971, mas só foi ser gravada em 1976, quando Alucinação, o primeiro disco do cantor, foi lançado. Neste mesmo disco, Belchior afirmava que era apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e vindo do interior. Chama muito a atenção que numa época em que a cultura norte americana inundava o Brasil com bandas de rock, filmes de Hollywood e a onda disco, que resultou até em novela (Dancin’ Days), Belchior procurava afirmar suas origens, como filho da América do Sul, se dizendo um rapaz latino americano e preferindo o tango ao blues como música de lamento. O que é mais louco nisso tudo é que, ainda hoje, nós, brasileiros, ainda somos muito mais influenciados culturalmente pelo que vem dos Estados Unidos e Europa e mal conhecemos a cultura dos nossos vizinhos. 

Mas a América do Sul é um lugar incrível! Vale a pena a gente se esforçar e procurar conhecer um pouco mais do que os nossos hermanos da Argentina, Uruguai, Paraguai, Equador, Peru, Colômbia, Bolívia, Venezuela, Suriname e Guianas tem a nos oferecer.  Música, gastronomia, arte, história, comportamento, paisagens…a diversidade é enorme. Vale a pena destacar uma diferença que, às vezes, gera confusão. Pode acontecer de alguém se referir à América do Sul como América Latina. Mas qual a diferença? A América Latina abrange a América do Sul, toda a América Central e o México, que faz parte da América do Norte. Ou seja, se refere a todos os países americanos de língua latina e colonização ibérica (espanhola e portuguesa). Não vamos entrar muito aqui em pormenores históricos, mas é legal deixar claro que a distância cultural do Brasil para com seus vizinhos é compreensível e vai muito além da barreira linguística. 

Acredite, a colonização espanhola foi muito mais violenta e usurpadora do que a nossa, que se deu através dos portugueses. Além disso, por toda a região dos Andes, estavam instalados povos mais organizados e civilizados que as tribos nômades e mais vulneráveis de índios que habitavam o território brasileiro. Portanto, houve muito mais confronto nas colônias espanholas, que acabaram por se tornar independentes muito antes que o Brasil. Além do mais, mesmo depois da independência brasileira, ainda ficamos praticamente 70 anos numa monarquia liderada por descendentes da família real portuguesa. É a mesma coisa de você sair da casa dos seus pais, mas ainda depender da mesada que eles te dão pra pagar as suas contas. Enfim. Foi só no início do século XX que o Brasil começa a encontrar sua própria identidade. Uma época em que as referências culturais vinham essencialmente da Europa (França e Inglaterra) e, em seguida, a massiva campanha dos Estados Unidos como grande potência mundial importando o seu american way of life

Dado este contexto, vamos ao que interessa. Pra começar, vamos falar rapidamente das Guianas. O território da Guiana e da Guiana Francesa foi originalmente colonizado por holandeses e em seguida por ingleses e franceses, que obviamente dividiram a área entre si. A parte dos ingleses se tornou independente, já a francesa até hoje é território francês. Não é uma colônia, mas sim um Departamento Regional Ultramarino Francês (que é um nome chique e moderno para… colônia). Já a Guiana, que era inglesa, hoje é independente e tem uma cultura interessantíssima baseada na mistura de povos africanos e hindus, além da influência inglesa. É um país de praias caribenhas, uma música que se assemelha muito ao reggae e ao calipso, cujo nome mais importante é o compositor Eddy Grant. Por ser um país pobre, não desenvolveu uma cultura forte de TV e cinema, mas revelou alguns ótimos escritores como Wilson Harris, Jan Carew e Denis Williams. O país também se destaca por suas belas praias banhadas pelo Mar do Caribe e sua culinária condimentada que mistura ingredientes nativos e indianos. O Suriname completa o rol dos países da América do Sul que não fazem parte da América Latina, pois tem colonização e cultura intimamente ligada à França, Inglaterra e Holanda. O Suriname foi colonizado por holandeses. Tornou-se independente, mas o holandês ainda é o idioma oficial do país. Por ser um país pequeno, subdesenvolvido e viver constantemente sob as rédeas de um governo ditatorial, tem uma cultura própria sem muita expressão. 

Seguindo pelo mapa, vizinho da Guiana, temos a Venezuela! Aí sim! Chegamos na latinidade! Basicamente conhecemos a Venezuela como um país confuso politicamente, rico em petróleo, com 7 vencedoras Miss Universo e com uma seleção de futebol de qualidade bem duvidosa. Tudo isso é verdade, mas tem muito mais. A começar por suas praias belíssimas, comparáveis às praias das ilhas de Curaçao e Aruba, que não pertencem ao território venezuelano, mas estão ali, bem pertinho. A música venezuelana mais tradicional tem influência espanhola e caribenha, mas o país conta com uma cena efervescente de bandas de rock e música eletrônica. Destaque para a ótima banda Caramelos de Cianuro com um power pop delicioso, Arca, uma cantora de música eletrônica super contemporânea e eclética e La Vida Bohème, banda de pós punk que já ganhou Grammy e tudo! O cinema venezuelano também é digno de nota. Apesar de ser essencialmente de cunho político e social, tem grandes talentos e obras excelentes. Os principais nomes são o diretor Jonathan Jakubowicz e a diretora Mariana Rondón, responsável pelo ótimo filme Postales de Leningrado. 

Apesar de distantes um do outro, Colômbia e Bolívia são dois países que comumente, e injustamente, são resumidos a uma única atividade: a produção de cocaína. Em especial a Colômbia, acabou recebendo este rótulo por conta de Pablo Escobar, o maior produtor e traficante de cocaína que já existiu. Sua história virou filme, série, livro e o escambau! Para nós brasileiros, apenas dois nomes são lembrados quando se trata de colombianos famosos: Pablo Escobar e o jogador de Futebol Valderramas, que ficou famoso nos anos 90 por seu talento com a bola e por sua cabeleira esfuziante. Mas a Colômbia também se destaca pelas belezas de seu litoral caribenho, em especial Cartagena e Barranquilla, pela cumbia, estilo musical envolvente que mistura ritmos caribenhos e espanhóis, pela produção de café de excelente qualidade e por ser a terra natal do gênio da literatura Gabriel Garcia Márquez. Já a Bolívia é marcada pela história e se mantém como patrimônio cultural dos povos pré-colombianos. Assim como o Peru, abriga vastas áreas de preservação arqueológica das civilizações Inca, Quíchua e Aimará. Mas também se destaca pela arquitetura barroca e pintura e escultura de influência classicista dos espanhóis colonizadores. Como curiosidade, a Bolívia e o Paraguai são os dois únicos países sul americanos que não tem saída para o mar. 

Equador, Peru e Paraguai formam um bloco de países muito parecidos. Por um lado, são países pouco desenvolvidos, com uma economia fraca e marcados por governos autoritários e corruptos. Por outro lado, carregam intactas e são orgulhosos de suas tradições. O Paraguai é famoso por aqui pelo comércio de produtos falsificados, uma marca de uma economia desesperada. Mas também carrega a cultura guarani de forma muito valorosa. A música também é muito forte no Paraguai, em especial a guarânia, uma música paraguaia que lembra uma valsa, é marcada por um violão rítmico e arpejos de harpa, e influenciou muito a música sertaneja feita no Brasil. Já o Peru, além de render muitas piadas, do tipo Cusco é uma cidade do Peru, é famoso pelo incrível parque histórico de Machu Picchu. É um país fundamental para entender as civilizações que viviam na América antes dos europeus chegarem, e também para visualizar a truculência dos europeus contra esses povos antigos. 

E por fim chegamos nos países com os quais temos maior afinidade. Talvez por serem um pouco mais desenvolvidos e abertos ao turismo, talvez por estarem mais próximos do sul e sudeste do Brasil, as regiões mais populosas e fortes economicamente do país, talvez por terem maior visibilidade mundo afora. Certamente por todas essas razões juntas e muitas outras, Argentina, Chile e Uruguai já são mais próximos de nós. Uruguai é famoso por seu futebol que une garra e violência, proporcionando um espetáculo sempre emocionante, também pelas belezas de Punta Del Este, sem falar no presidente da república mais fofo que o mundo já viu, o simpático velhinho Mujica. Não podemos nos esquecer dos excelentes vinhos uruguaios e da recente legalização da maconha, que tornou o país ainda mais atraente para quem se liga num turismo de cabeça feita. Já o Chile se tornou um destino turístico concorrido por conta e suas paisagens nevadas, os lagos naturais nas montanhas, as cidades charmosas e o excelente vinho. O Chile também abriga uma cena interessante de música contemporânea om bandas como Los Prisioneiros e Los Jaivas. E, claro, terra natal de Pablo Neruda. E finalmente a Argentina! Terra de Maradona, de Carlos Gardel e da Mafalda! Certamente o mais cosmopolita dos países sul americanos depois do Brasil. A Argentina é f*da! Tem o cinema brilhante de Juan José Campanella, Gustavo Taretto e Ricardo Darín! Tem a música pop sensacional da Soda Stereo e do Fito Paez, tem o rock n’ roll dos Los Rodríguez e Los Fabulosos Cadillacs, sem falar no Sui Generis, Pappo’s Blues e até o metal do Rata Blanca. Os vinhos de Mendoza, a gastronomia, a noite, os passeios incríveis de Buenos Aires! Ah, é… tem o Messi também. 

Como é que um continente tão plural, cheio de arte, misturando antigo e contemporâneo, com tanta música boa, lugares incríveis, personalidades emblemáticas e, principalmente tanta originalidade e personalidade, não seria uma inspiração e uma referência para a Strip Me? É claro que juntamos toda essa latinidade em estampas lindas e super modernas! Vem conferir essas e outras estampas na nossa loja

Vai fundo! 

Para ouvir: Aquela playlist caprichada só com músicas deliciosas de artistas sul americanos! America Del Sur Top 10 tracks

Para assistir: A Netflix produziu e lançou em 2020 um documentário dividido em 6 episódios chamado Quebra Tudo!: A História do Rock na América Latina. É um doc interessantíssimo e cheio de bandas incríveis que vão da Argentina até o México! Tudo que é rock n’ roll cantado em espanhol desde La Bamba até hoje em dia é contado lá! Vale a pena demais! Disponível no catálogo da Netflix. 

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