Samba Rock Bamba Roll

Samba Rock Bamba Roll

Não dá pra negar. Apesar de todos os problemas, nós moramos num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. E esse climão gostoso de domingo de sol, pé na areia, caipirinha na mão e não ter nada mais importante pra fazer do que curtir essa vibe toda, fez com que surgissem uns caras que conseguiram transformar essa aura toda em música. Música esta que ficou conhecida, mundialmente inclusive, como samba rock.

Mas é claro que o samba rock não surgiu de caso pensado. Na verdade, gênero musical nenhum foi pensado, convenhamos. Chuck Berry não parou um dia e pensou “Vou pegar esse fraseado de guitarra do country, colocar no compasso do blues e inventar uma parada chamada rock n’ roll.”. Não. Ele simplesmente tocou essa parada, recebeu um telefonema do Marvin, o primo dele que estava fazendo um som com o Marty McFly, e compôs Johnny B. Goode. O resto é história. Mas, assim como no rock o Chuck Berry provavelmente não foi realmente o primeiro a tocar guitarra daquele jeito, o samba rock também não tem uma origem muito bem definida.

Se quiser ser pragmático, a gente teria que voltar nos idos tempos da Carmem Miranda, que disseram que voltou americanizada e tal. O fato é que pós Segunda Guerra, começou a rolar um intercâmbio forte entre a cultura dos Estados Unidos e as culturas da América Latina. Claro, a gente fala intercâmbio, mas a cultura norte americana do cinema e do jazz foi muito mais injetada por aqui do que o samba e outros ritmos latinos do lado de lá. Mas mesmo assim rolou, Carmem Miranda bombou em Hollywood, ritmos como o bolero e o tcha tcha tcha também fizeram muito sucesso. Nos anos 1950 muitos conjuntos brasileiros incorporavam uma linguagem de big bands de jazz e bebop ao tocar samba. Isso, de certa forma, foi o pontapé inicial para o que seria a bossa nova, que iria eliminar os arranjos de metais e refinar as melodias. Por outro lado, tinha uma turma que gostava mesmo era de dançar, e essas bandas mandavam ver no ritmo.

Nas periferias do Rio de Janeiro e de São Paulo aconteciam bailes nos anos 1960 que eram muito populares, onde as pessoas iam para dançar.  Como eram organizados por comunidades pobres, não tinha som ao vivo, era um DJ (que na época não tinha o glamour de hoje em dia) que ficava colocando discos para as pessoas curtirem na pista. E rolava de tudo. Tocava uma música do Ray Charles, aí entrava um Jackson do Pandeiro, na sequência um Fats Domino, Moreira da Silva… e assim ia. O importante era não deixar a pista esfriar, seguindo sempre ritmos dançantes. Muita gente diz que o samba rock nasceu nesses bailes. E faz sentido, se a gente pensar que frequentavam essas festas nomes como Jorge Ben Jor, Erasmo Carlos, Gerson King Combo, Cassiano, Hyldon, Wilson Simonal, Tim Maia

Mas o grande expoente mesmo é o Jorge Ben Jor. Se João Gilberto influenciou toda uma geração com uma batida de violão única, Jorge Ben fez o mesmo. Seu disco de estreia, Samba Esquema Novo, já mostra isso. É um disco com uma linguagem bem bossanovista, mas que já traz um suingue a mais, que ele iria mostrar em músicas como Minha Menina, em parceria com os Mutantes. Mas foi com o clássico disco Jorge Ben, de 1969, que o bicho pegou.  Nesse disco ele teve como banda de apoio o Trio Mocotó, um trio que era banda fixa de uma casa noturna de São Paulo onde Jorge Ben gostava de ir nos fins de noite se divertir e fazer umas jams. Nesse disco temos verdadeiros clássicos do samba rock como Take it Easy, My Brother Charles, Que Pena (Ela Não Gosta Mais de Mim), Cadê Tereza, Charles Anjo 45 e País Tropical. A coisa deu tão certo que o Trio Mocotó se lançou como banda e gravou vários discos muito bons. Esse estilo de som misturando suingue com uma guitarrinha e uma linguagem mais pop, fez a fama de muita gente. O caso mais interessante é o de Erasmo Carlos.


Em 1971 a Jovem Guarda já tinha acabado e Roberto Carlos dava sequência a uma inacreditável carreira se sucesso como cantor romântico. Seu parceiro Erasmo Carlos ficou mio de lado e começou a perder popularidade. Incentivado por André Midani, presidente da gravadora Philips no Brasil, e por Jorge Ben, seus amigos de longa data, Erasmo se inspirou nessa nova onda do samba rock e concebeu um clássico absoluto da música pop brasileira, o excelente disco Carlos, Erasmo! Neste disco estão canções brilhantes como De Noite na Cama, Masculino e Feminino, É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo, Agora Ninguém Chora Mais e Maria Joana.

Pra concluir este texto, vale contar a inacreditável história que resultaria no disco Gil & Jorge: Ogum Xangô, um disco que tem sua base no samba rock, mas se tornou uma obra de experimentalismo harmônico e rítmico que extrapola qualquer rótulo. Em 1975 Eric Clapton e Cat Stevens vieram ao Brasil passar uns dias de férias a convite da gravadora Philips, que vendia seus discos por aqui. Para a chegada dos artistas internacionais, o presidente da gravadora, André Midani, organizou em sua casa uma festinha privé com vários artistas, entre eles Caetano Veloso, Rita Lee, Gilberto Gil e Jorge Ben. Noite adentro aparecem violões por toda a parte e começa uma jam session daquelas. Cat Stevens em poucos minutos pede o boné e encosta o violão, não acompanhando o som frenético que rolava. Um tempo depois, Eric Clapton também não aguenta o tranco e se retira da roda, ficando somente a observar incrédulo o som que Gilberto Gil e Jorge Ben improvisavam. Gil e Jorge tocaram por um tempão para um seleto público boquiaberto. Eles nunca tinham tocado juntos antes. No fim da festa, André Midani chegou para os dois músicos e falou: “Ainda essa semana quero vocês no estúdio. Se virem pra reproduzir no estúdio o que fizeram aqui.”. Assim saiu o disco Gil & Jorge: Ogum Xangô, um disco com 9 faixas, algumas com mais de dez minutos de duração, de puro ritmo e improvisos deliciosos. É um disco incrível. E quem estava presente naquela lendária noite, diz que o disco não reproduz metade do que os caras fizeram lá ao vivo.

O samba rock é isso. Brasilidade contemporânea, antropofagia sonora, liberdade, barulho, diversão e arte. Te soa familiar? Mas é claro! A Strip Me é total samba rock e todo esse clima alto astral libertário! Vem aproveitar e conferir!

Vai fundo!

Para ouvir: Uma playlist repleta de som e malemolência pra você curtir. Top 10 tracks samba rock.

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