50 Anos de Amor ao Exílio!

50 Anos de Amor ao Exílio!

Em 1971 o tema do filme Shaft, música escrita por Isaac Hayes, extrapolou o cinema e ganhou vários clubes e casas noturnas de New York frequentadas por um público bem miscigenado, entre brancos, negros, latinos, héteros e gays. Na mesma onda de Shaft, começaram a pintar várias músicas com um ritmo frenético, com arranjos de cordas, sintetizadores e linhas de baixo e bateria bem marcantes. Nascia a disco music. A aura desses clubes noturnos espalhados pela cidade de New York, do Harlem, passando pela Upper West Side até o Village e Soho, talvez sejam o retrato mais fiel do que foi a década de 1970. 

Em especial o ano de 1972 foi muito marcante, principalmente para a cultura norte americana, que já dominava o mundo todo. Nixon acabara de ser reeleito presidente dos Estados Unidos e prometia dar um fim à guerra do Vietnã, chegando a se encontrar com o Mao Tsé Tung na China para negociar um acordo de paz. Além disso Nixon também tinha a intenção de emplacar uma mega operação de combate às drogas nos Estados Unidos. O curioso disso é que tal combate dizia respeito especificamente ao LSD, a maconha e a heroína. A cocaína que esbranquiçava cada vez mais as mesas, balcões e pias de banheiro dos night clubs era solenemente ignorada, vista no começa da década de 70 como uma droga inofensiva e que simbolizava status social. Mas tudo isso entrou pelo canudinho… quer dizer, pelo cano em junho de 1972, quando veio à tona o escândalo de Watergate, que faria com que Nixon renunciasse ao cargo em 1974. 

The Nellcôte Session by Dominique Tarlé (1971)

Os jovens do começo dos anos 70 viviam a ressaca do movimento hippie, a desilusão da vida adulta, ter que trabalhar pra ganhar a vida. O rock n’ roll também, de certa forma amadurecia, ficava um pouco mais amargo depois das mortes de Hendrix, Joplin e Jim Morrison. A psicodelia do Grateful Dead saía de cena, substituído pelo peso sombrio do Black Sabbath . Em contra partida, os discursos libertários dos hippies acabaram por dar voz às mulheres, que passaram a dar mais as caras, sair para trabalhar e sair para se divertir, enfim buscar igualdade. Da mesma forma a comunidade gay também se organizou e se sentia mais livre para se impor, principalmente depois da rebelião de Stonewall em 1969. Da mesma forma os negros e hispânicos também começavam a sair dos guetos, até porque começaram a ter algum poder aquisitivo, o que lhes permitia sair para beber e dançar. Isso tudo só reforça essa pluralidade que começou a rolar nas casas noturnas de New York dos anos 70. 

1972 foi um ano de estabelecimento dessa nova cultura. Uma cultura de excessos, de diversidade, de engajamento político. E principalmente a música conseguiu traduzir tudo isso com muita precisão. Tanto é que neste ano alguns dos discos mais importantes da música pop de todos os tempos foram lançados. Let’s Stay Together (Al Green), Harvest (Neil Young), Eat a Peach (The Allman Brothers), Pink Moon (Nick Drake), Thick as a Brick (Jethro Tull), Slade Alive! (Slade), The Kink Kronikle (The Kinks), Machine Head (Deep Purple), Rio Grande Mud (ZZ Top), Mardi Gras (Creedence Clearwater Revival), Obscured by Cluds (Pink Floyd), Lou Reed (Lou Reed), The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (David Bowie), Roxy Music (Roxy Music), #1 Record (Big Star), School’s Out (Alice Cooper), Trilogy (Emerson, Lake & Palmer), Super Fly (Curtis Mayfield), All the Young Dudes (Mott the Hoople), Vol. 4 (Black Sabbath), Transformer (Lou Reed), Trouble Man (Marvin Gaye)… e muito mais! 

The Nellcôte Session by Dominique Tarlé (1971)

Convenhamos. Uma coisa é você lançar um disco de rock muito bom numa época em que o rock está em baixa e não tem muita gente no rádio tocando alguma coisa parecida com o que faz. Tipo o que aconteceu com o Nirvana ao lançar o Nevermind. Outra coisa é você lançar um disco de rock muito bom numa época em que o estilo está em alta e os principais nomes não só estão na ativa, mas estão em seu auge! Pois foi nesse contexto de efervescência, instabilidade e novidade que foi lançado o disco que, para muita gente, é o melhor disco de rock n’ roll de todos os tempos: Exile on Main Street, o décimo terceiro disco dos Rolling Stones. 

A história e a mística que permeiam este disco já são mais que conhecidas. Todo mundo sabe que depois de Sticky Fingers, os Stones estavam devendo mais dinheiro em impostos do que ganhavam. Resolveram se mudar para a França, Keith Richards arranjou uma mansão do século XIX caindo aos pedaços com um porão espaçoso, onde a banda resolveu montar um estúdio para gravar um disco novo. Neste processo, Richards acabou abrigando uma legião de junkies e vagabundos, já que ele próprio estava entregue ao vício de heroína. Tudo isso todo mundo já sabe. No entanto, não dá pra deixar passar batida a celebração dos 50 anos do Exile on Main Street. E nossa maneira de exaltar esse disco brilhante é justamente mostrando o contexto em que ele foi lançado e qual foi a recepção que ele recebeu na época. 

The Nellcôte Session by Dominique Tarlé (1971)

Já temos o contexto do mundo do showbiz em 1972, quando o Exile… foi lançado. Agora vamos dar uma geral na situação dos Stones pouco antes de irem para a França em 1971. Eles tinham acabado de lançar o Sticky Fingers, disco que fez grande sucesso e causou polêmica por conta de sua capa. Mas a verdade é que, há anos os Stones pareciam não ter sequer um minuto de paz, claro que muito por conta de suas próprias atitudes. Em 1968 Richards e Jagger foram presos por porte de drogas, em 1969 Richards começou a sair com a namorada de Brian Jones, então guitarrista da banda. Baita climão. Jones é expulso da banda por se drogar demais e é substituído por Mick Taylor. Meses depois de sua saída da banda, Brian Jones é encontrado morto na piscina de sua casa. Morte esta envolta em mistério e que abala muito a banda. Pra piorar, no fim do ano rola o incidente em Altamont, que pirou ainda mais os ânimos dos Stones. Em 1971, quando o Sticky Fingers foi lançado, eles se deram conta que o disco vendia muito bem, mas eles não ganhavam dinheiro algum. Foi quando se ligaram que estavam falidos por conta de contratos mal intencionados de seu ex empresário Allen klein. E se mudaram para a França para não perder o resto de bens que ainda possuíam. 

Os Stones ficaram literalmente isolados no sul da França entre 1971 e 1972. Estavam todos estressados e decepcionados. Claro, soma-se a isso uma dieta irresponsável de álcool e drogas das mais variadas e em quantidades perigosas, para dizer o mínimo. Desligados das tendências que rolavam no centro de Londres e de New York, os Stones se voltaram para as raízes do blues, do country e do gospel num disco introspectivo, confessional e caótico. A produção aparentemente desleixada, com a voz de Jagger soterrada por camadas de guitarras e naipes de metal, traz a claustrofobia de um porão embolorado e úmido de um casarão no meio do nada, mas ao mesmo tempo traz a espontaneidade de jam sessions de blues, como as que aconteciam em bares só para negros no meio do delta do Mississippi no começo do século XX. 

The Nellcôte Session by Dominique Tarlé (1971)

Quando foi lançado, no dia 12 de maio de 1972, pouca gente realmente entendeu o disco. Grande parte da crítica citava Exile on Main Street como o trabalho mais fraco dos Rolling Stones, um disco desconexo e mal gravado. Entretanto, houveram poucos críticos que enxergaram no disco a intensidade, o calor e a originalidade que aquelas canções transmitiam. Antes do álbum ser lançado, em março de 1972, Tumbling Dice fora lançada como single e estourou nas paradas de sucesso dos Estados Unidos e da Inglaterra, catapultando a venda do disco 2 meses depois. Por parte do público, o disco foi muito bem aceito e celebrado como um dos melhores discos dos Stones. Curioso que bastou virar a década para que a visão da crítica mudasse a respeito do Exile… a partir dos anos 80 ele passou a figurar em tudo quanto é lista de discos mais importantes do rock de todos os tempos, sempre bem rankeado. Mais do que o reconhecimento da crítica, os ecos de Exile on Main Street podem ser ouvidos em boa parte da produção musical desde o fim dos anos 70 até hoje. Em especial no som de bandas como MC5 e The Stooges, posteriormente Dinossaur Jr e The Black Crowes. E esses são só alguns exemplos. 

De 1972 até agora, muita coisa mudou. A era disco, o punk, new wave, grunge, nu metal… na real muita coisa muito boa foi produzida ao longo desses 50 anos. Mas não é exagero nenhum dizer que a essência mais pura e cristalina do rock n’ roll foi melhor traduzida em somente um disco. É compreensível que os próprios integrantes dos Rolling Stones alimentem os mitos e lendas sobre Nellcôte e aqueles meses de loucura e gravação, afinal de contas, isso ajuda muito a continuar vendendo discos. Mas o que importa é que nos foi entregue o melhor disco de rock n’ roll de todos os tempos, e isso não é mito nenhum. E todas as histórias de chapação, intrigas e ímpetos momentâneos de genialidade podem até tornar tudo mais interessante, mas mesmo se elas não existissem, se fosse um disco gravado num estúdio convencional, mas que trouxesse as mesmas canções, a mesma sonoridades, as mesmas sensações, ainda assim Exile on Main Street seria um disco indispensável para a música pop. 

The Nellcôte Session by Dominique Tarlé (1971)

São obras tão fortes, cheias de personalidade e recheadas de histórias como este disco que inspiram e instigam a Strip Me a sempre produzir estampas surpreendentes e descoladas exaltando a arte, a música, o cinema, enfim, a cultura pop. Então dá uma olhada na nossa loja pra conferir nossos lançamentos e também algumas estampas referentes aos Rolling Stones! It’s only barulho diversão e arte, but I like it! 

The Nellcôte Session by Dominique Tarlé (1971)

Vai fundo! 

Para ouvir: Olha, com certeza deve ser um pecado muito grave selecionar só 10 músicas de um disco tão bom quanto o Exile on Main Street. Então, hoje não tem playlist com top 10. A playlist de hoje é todo o disco Exile on Main Street

Para assistir: Impossível não recomendar o ótimo documentário Stones in Exile, lançado em 2010 e dirigido pelo Stephen Kijak! Um mergulho delicioso dentro das sessões de gravação do Exile on Main Street! 

Para ler: Uma das melhores autobiografias do mundo do rock já escritas com certeza é a de Keith Richards. Um livro enorme, mas delicioso, onde Richards conta toda sua história com bom humor, honestidade e uma fluência incrível. Leitura recomendadíssima! O livro se chama Vida, escrito pelo próprio Richards, saiu aqui no Brasil em 2010 pela Editora Globo. 

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