Capela à Michelangelo!

Capela à Michelangelo!

Neste texto celebramos uma das obras de arte mais marcantes da história! A pintura do teto da Capela Sistina por Michelangelo. Uma obra tão rica em iconografia que já inspirou várias estampas aqui na Strip Me.

A cidade de São Paulo está recebendo uma exposição sensacional. Michelangelo: O Mestre da Capela Sistina é uma experiência imersiva na obra de um dos maiores artistas da história da humanidade. A exposição conta com imagens recortadas em detalhe, reproduções de esculturas e muitas projeções com equipamento de alta tecnologia, tudo com muita informação. Tudo isso rola no MIS Experience, um espaço do Museu da Imagem e do Som feito especialmente para este tipo de experiência de imersão. A exposição está em cartaz até o dia 30 de abril, e você consegue maiores informações sobre ingressos e etc entrando neste link. Agora, para saber como é que esse job caiu no colo do Michelangelo, mesmo depois de ele ter praticamente brigado com o Papa, basta você relaxar e continuar lendo este texto.

 Uma discussão inflamada quebrava o silêncio clerical de uma ala em reforma da basílica de São Pedro. No centro da discussão o já renomado artista Michelangelo e um dos bispos do Papa Júlio II. Os dois estão rodeados por um padre, um arquiteto que vistoriava as obras da reforma da basílica e três auxiliares de Michelangelo. O artista estava ali para avisar que estava abandonando as obras do Papa e ia voltar ainda naquela noite para Florença! Ele até tentara uma audiência com o Papa, para dizer-lhe diretamente tudo aquilo, mas não conseguiu ser atendido. Portanto recorria ao bispo. Bispo este que implorava para que Michelangelo reconsiderasse, afinal era uma obra encomendada pelo Papa em pessoa. Irritado, Michelangelo levantou ainda mais a voz: “Pois que ele peça a Deus Todo Poderosos que termine a obra, porque eu não trabalho sem receber!  Muito menos permito que pegue o meu material para ser usado por outras pessoas! Você sabia que eu fiquei quase um ano naquele fim de mundo em Carrara só pra selecionar as melhores peças de mármore para eu usar? Pra chegar aqui e essa gente vir pegar o meu mármore pra usar na reforma da basílica! E ainda tem a cara de pau de me dizerem que foi por ordem do Papa! Se o Papa quer tanto reformar essa basílica, que seja! Mas eu não termino o mausoléu enquanto não receber, inclusive uma quantia maior, pelo mármore que eu iria usar e me tiraram! Estou indo para a minha casa em Florença! Passar bem!”.

Rascunhos e estudo de anatomia humana de Michelangelo – 1508

Michelangelo saiu pisando forte e apressado, seus passos ecoando pela basílica. Seus auxiliares atrás tentavam acompanhar o passo de seu mestre. Sob o sol forte do verão de 1507, Michelangelo percorreu sério as ruelas de Roma até chegar em seu atelier. Ali juntou alguns pertences, entregou para que um de seus auxiliares carregasse e dali seguiu para o norte numa carroça que o levaria até Florença. Lá chegando, se estabeleceu em sua casa e logo foi procurar trabalho. Muitos na cidade não acreditavam que ele tivesse saído de Roma assim, sem mais nem menos. Todo mundo sabia que ele tinha ido a Roma por ordem do Papa, que havia lhe pedido que erguesse um majestoso mausoléu, para quando ele morresse. A tumba do Papa Júlio II seria ornamentada por pelo menos 60 estátuas de imagens religiosas. Isso foi em 1505. Logo no início de 1506, Michelangelo foi para Carrara, escolher as melhores peças de mármore para tal trabalho. Por lá ele ficou 8 meses, afinal eram muitas esculturas e nem sempre o mármore extraído estava de acordo com o exigente padrão do escultor. De Carrara foi direto para Roma para começar a trabalhar.

O problema é que o Papa Júlio II era um megalomaníaco de mão cheia! A basílica de São Pedro sempre abrigou os sepulcros dos papas falecidos, afinal, ali está sepultado aquele que é considerado o primeiro papa e criador da igreja, o apóstolo Pedro. O Papa Júlio II queria que a sua tumba se destacasse dentre todos os outros papas, para que ele fosse lembrado como um grande líder. E nada mais justo do que contratar Michelangelo para o trabalho. Ele já havia concebido a Pietá e o Davi, comprovando seu talento inigualável. Mas aqueles eram tempos turbulentos, principalmente para a igreja católica. O renascentismo trazia de volta a filosofia grega e o humanismo, enquanto isso, na Europa central, Martinho Lutero já começava a dar as caras e questionar o catolicismo e a região que hoje é a Itália era um amontoado de pequenos reinados, onde a igreja católica, há muito já se esforçava para aumentar seu domínio territorial para além de Roma. Assim, em 1507, pressionado a dar aos povos do ocidente demonstrações de grandeza, o Papa Júlio II deixou de financiar seu próprio túmulo para dar sequência à portentosa reforma da basílica de São Pedro e outras construções imponentes. Uma dessas construções era a Capela Sistina.

Capela Sistina

A Capela Sistina já era, naquela época, uma verdadeira maravilha. Além de sua arquitetura rebuscada, em seu interior as paredes eram ornamentadas com pinturas e afrescos de alguns dos maiores artistas do século XV, como Botticelli, Domenico Ghirlandaio, Pietro Perugino, e Rafael. A Sistina também era chamada de Capela Papal, pois era, e continua sendo até hoje, onde acontecem as reuniões mais importantes da elite do Vaticano, e onde ocorrem os conclaves que escolhem o próximo Papa. Até aquela época, início dos anos 1500, o teto da capela era pintado de diferentes tonalidades de azul com algumas estrelas douradas. Foi ideia do Papa Júlio II que o teto da capela fosse pintado em afresco com grandiosidade e riqueza, enaltecendo as principais passagens bíblicas. O Papa era realmente um admirador de Michelangelo e não tinha ficado nada contente com o artista, que mal começara seu túmulo e tinha ido embora da cidade. Mandou chamar Michelangelo, deixando claro que não se tratava da obra abandonada, mas sim um novo e desafiador trabalho.

Rascunhos e estudo de anatomia humana de Michelangelo – 1508

Além de ser conhecido como pavio curto e ter um humor instável e irritadiço, Michelangelo era também, notadamente, um workaholic! Trabalhava incansavelmente e era exigente e perfeccionista. Quase um ano depois de chegar em Florença, Michelangelo voltou a Roma para ouvir o que o Papa tinha a lhe propor. Quando lhe foi proposto pintar em afresco o teto da capela Sistina, de cara, ele negou, sem sequer ouvir o valor que lhe seria pago. Ele sabia que era na escultura que ninguém se igualava a ele. Na pintura, a competição era mais acirrada. Foi uma longa conversa entre o Papa e Michelangelo, até que o artista aceitasse o trabalho. Ao longo dessa conversa, muitas exigências foram feitas. Por exemplo, Michelangelo fazia questão de que os andaimes para que ele pintasse o teto fossem modelados de forma que não se apoiassem no cão, mas sim, nas janelas, parapeitos e buracos nas paredes, com amplas pranchas de madeira em que ele pudesse andar lá em cima confortavelmente. Aqui vale dizer que é pura lenda quando dizem que Michelangelo pintou deitado o teto da capela. Ele pintou em pé, sempre olhando para cima. Também exigiu que lhe fosse dado tempo de sobre para trabalhar, assim ele poderia se preparar muito bem, pois queria fazer um trabalho tão bom ou melhor que Da Vinci, Rafael ou Botticelli, afinal, ele era um pouco competitivo também. Outra exigência é que ele tivesse liberdade total para escolher as cenas que iria pintar.

Capela Sistina

Michelangelo era um artista de seu tempo. Portanto, um renascentista. Lia Platão e outros filósofos gregos e sua arte se dedicava a enaltecer o ser humano. Mas tudo isso em harmonia com os dogmas e princípios cristãos. Antes de iniciar os rascunhos, ainda no papel, do que iria para o teto da capela, Michelangelo leu todo o antigo testamento, em busca de passagens imagéticas e inspiração. Assim ele definiu e apresentou ao Papa o ousado projeto de pintar no teto da capela Sistina a criação do mundo, a busca humana por salvação e sua aliança com Deus. O Papa ficou encantado com a ideia de Michelangelo e deu sinal verde para que ele começasse a trabalhar. Claro, sob garantia de que seria pago, e muito bem pago, pelo trabalho e sem sofrer interferências de quem quer que fosse. Michelangelo começou a pintar o teto da capela em 1508 e finalizou no final do ano de 1511. A obra foi oficialmente inaugurada e aberta à visitação pública em 1512. Porém, a obra não estava completamente finalizada. Mas isso de acordo com o Papa. Michelangelo considerava o trabalho prontinho. Mas o Papa queria que alguns detalhes da pintura fossem pintados com ouro, e alguns pedaços que já estavam pintados em azul, ilustrando o céu, o Papa queria que fossem cobertas com Lápis-Lazúli, uma rocha metamórfica de cor azul opaca e translúcida. Por sorte, Michelangelo insistiu e somente alguns poucos detalhes foram cobertos de ouro e a rocha Lápis-Lazúli acabou não sendo usada.

Rascunhos e estudo de anatomia humana de Michelangelo – 1508

Não há registro de quanto Michelangelo recebeu pela pintura dos afrescos na capela Sistina, mas certamente foi uma pequena fortuna. Além do pagamento monetário, Michelangelo acabou se tornando um protegido do Papa. Tanto que o artista abandonou de vez Florença para viver em Roma e assumiu muitos outros trabalhos para o Papa. Um deles, foi dar continuidade, como arquiteto, na reforma da basílica de São Pedro. A mesma obra que o fizera abandonar Roma anteriormente. E o túmulo do Papa Júlio II permaneceu inacabado. No momento de seu enterro, havia apenas uma estátua feita por Michelangelo inteira. O túmulo foi terminado por outros artistas posteriormente, mas sem sequer metade da grandeza que o papa que ali repousa gostaria.

É claro que uma obra tão incrível como essa teria uma história tão interessante quanto.Obras de arte icônicas, artistas geniais e rebeldes, e histórias deliciosas! É isso que a Strip Me gosta e é isso que a Strip Me quer! É isso tudo que faz a gente querer sempre criar estampas originais, lindas, cheias de história, mas super contemporâneas! Então se liga na nossa loja para curtir nossas camisetas de arte, de cinema, de música, de cultura pop, comportamento e muito mais, sem falar dos lançamentos que pintam toda semana.

Vai fundo!

Para ouvir: Para entrar no clima deste texto, que fica entre Roma e Florença, entregamos uma playlist caprichada, com o que há de mais legal na música pop italiana! Italia Top 10 tracks.

Para assistir: Apesar de não ter ligação direta com a Capela Sistina e o Michelangelo, vale a pena demais ver o excelente filme Dois Papas. Um filme delicado e surpreendente dirigido pelo Fernando Meirelles e escrito pelo Anthony McCarten. Produção da Netflix, lançado em 2019 e teve 3 indicações ao Oscar. Filme recomendadíssimo!

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