Lennon & McCartney que nada! É Lennon & Bowie!

Lennon & McCartney que nada! É Lennon & Bowie!

Londres. Janeiro de 1966. 
Já era tarde da noite quando um jovem músico de 19 anos, conhecido como Davy Jones, entra num pub nos arredores de Westminster com dois amigos. O pub não estava muito cheio. Os rapazes se encostam no balcão e logo cada um está com um pint cheio na mão. Ao lado deles, estava um senhor de meia idade, que parecia estar sentado ali a horas, visivelmente bêbado e falando alto. Em dado momento, alguém pede para o tal senhor falar mais baixo. Indignado, ele responde: “Não me enche o saco! Você sabe quem eu sou? Sabe com quem você está falando? Eu sou Alfred Lennon! Meu filho ganhou uma medalha da rainha, é um dos homens mais importantes deste país!”. Davy Jones não acreditou no que ouviu e foi conversar com o suposto Alfred Lennon. Depois de fazer algumas perguntas, Davy se deu conta que estava realmente falando com o pai de um de seus grandes heróis da música. “Senhor Lennon, eu espero um dia poder conhecer pessoalmente o seu filho.” e Alfred balbucia quase caindo da cadeira “Claro, claro. Quem sabe um dia, garoto…”. 

Em 1967 o tal Davy Jones decide mudar seu nome artístico para David Bowie. Depois de dois discos sem grande repercussão na década de 60, Bowie entra nos anos 70 com tudo. Em 1970 The Man Who Sold the World já chama a atenção na Inglaterra. Em 1972 The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars transforma Bowie num fenômeno mundial. Na sequência, Alladin Sane, Pin Ups e Diamond Dogs o consagram como grande astro do rock. Porém, curiosamente, até então sem ter alcançado o número 1 da Billboard nos Estados Unidos, mesmo sendo cultuado no país. Mas o ano de 1974 chegava recheado de surpresas para Bowie. 

Em 1974 John Lennon estava morando provisoriamente em Los Angeles, separado de Yoko Ono, vivendo com May Pang o período que entrou para a história como “o fim de semana perdido”, quatorze meses de muita loucura, festas e drogas na companhia de gente como Keith Moon, Elton John, entre outros. Foi em fevereiro de 1974 que John Lennon foi convidado para uma grande festa na casa da atriz Elizabeth Taylor. Lá foi então Lennon e sua turminha do barulho. Coincidente, quem estava na festa também era David Bowie. Porém, nem mesmo as quantidades nada recomendáveis de cocaína que Bowie consumia conseguiram deixa-lo à vontade na frente de seu grande herói. Liz Taylor apresentou Bowie a Lennon. Mesmo John sendo muito simpático na ocasião, Bowie se limitou a cumprimentar John formalmente, disse que tinha todos os discos dos Beatles e da carreira solo dele e finalizou com um “com licença, preciso ir agora.”. Não se sabe se ele foi embora da festa, ou se evitou a noite toda estar no mesmo ambiente em que Lennon estivesse. Um encontro constrangedor. Mas não seria o único. 

Em junho de 1974 Bowie já estava com a pré-produção de seu novo disco praticamente finalizada. E ele queria incluir no tracklist do álbum a música Across the Universe, composição de Lennon que consta no disco Let it Be, dos Beatles. Bowie queria pedir pessoalmente a autorização de Lennon para gravar a faixa e aproveitar para apagar a má impressão causada no primeiro encontro. Para isso, Bowie convocou Tony Visconti, que estava produzindo o disco e conhecia John, para intermediar o encontro. Bowie estava numa suíte do requintado hotel Sherry Netherland, em New York. John chegou no quarto de hotel de Bowie, que mais uma vez estava apavorado com a presença do beatle. Bowie se limitou a ficar sentado no chão, encostado numa parede com um bloco de papel, onde fazia alguns desenhos, enquanto Lennon conversava com Visconti. Depois de muito tempo, quase duas horas, sem que Bowie se manifestasse, John pediu a ele algumas folhas daquele bloco e um lápis, dizendo “Vou desenhar você.”. Bowie sorriu, e os dois começaram a fazer caricaturas um do outro e rir e começaram a conversar. Finalmente. E realmente se tornaram amigos. 

Depois de “matar” Ziggy Stardust, Bowie estava na pilha de se reinventar. Começou a levar sua música por um caminho mais dançante, flertando com funk, R&B e disco. Para seu novo disco, além de contar com a produção de Tony Visconti, Bowie se uniu ao esplêndido guitarrista Carlos Alomar para conceber o ótimo Young Americans. Em janeiro de 1975 John Lennon foi até o estúdio onde Bowie estava gravando para fazer uma participação em Across the Universe, onde tocou guitarra. Após a gravação, Bowie e Lennon desataram a conversar sobre suas experiências ruins com a fama, como eles lidavam com aqueles problemas de superexposição e etc. Depois de muito papo, numa jam session Bowie e Lennon começaram a improvisar em cima de um riff que Alomar cuspiu de sua guitarra. Com a conversa fresca na cabeça, a letra não poderia ser sobre outra coisa. E assim surgiu a música Fame. 

Young Americans foi lançado em março de 1975 e fez um sucesso enorme! E a amizade entre Bowie e Lennon só crescia. Mesmo sendo reverenciado no mundo todo àquela altura, Bowie não se sentia tão querido pelo povo norte americano. Um dos muitos encontros entre Bowie e Lennon naquele ano aconteceu nos bastidores de um show do Elton John no Madison Square Garden. Ao saber que Bowie estava lá, o público começou a gritar seu nome. E John deu um abraço em Bowie dizendo “Eu não te disse, David? A América te ama, cara!”. Nessa época, John funcionou meio que como um conselheiro para Bowie. Inclusive no que diz respeito a confiança em empresários, finanças e etc. Tanto é que no final de 1975 Bowie demitiu Tony Defries, seu empresário há muito tempo, desconfiando que ele vinha lhe roubando. O que aparentemente era verdade. 

Em 1977 Bowie estava grudado em Iggy Pop. Os dois moravam em Berlim na época. Voltando de uma série de shows no Japão, eles fizeram uma escala em Hong Kong, na China, antes de seguir para a Alemanha. Mas acabaram não pegando o próximo voo logo de cara, porque souberam que John Lennon estava na cidade, de passagem também, a caminho de Tokyo, onde se encontraria com Yoko Ono. Rapidamente tudo se arranjou e eles se encontraram. John estava com seu filho Sean ainda com alguns meses de idade, e o apresentou a Bowie e Iggy Pop. Naquele dia, aconteceu uma passagem que Bowie nunca mais esqueceria e contaria inúmeras vezes. Ele e John saíram para dar uma caminhada pelas ruas de Hong Kong. Eis que um garoto que não devia ter mais que 15 anos de idade os interrompe e pergunta: “Ei, você não é o John Lennon, dos Beatles?”. John, espirituoso responde: “Não. Mas bem que gostaria ter o dinheiro dele.”. Bowie amou a resposta e passou a usá-la frequentemente quando perguntado se ele era o David Bowie. Meses depois, Bowie estava em New York, andando pelo Soho, quando alguém lhe cutuca as costas dizendo: “Ei, você não é o David Bowie?” Sem sequer olhar para trás, ele responde: “Não. Mas gostaria de ter o dinheiro dele.”. A mesma pessoa o segura pelo braço e diz: “Seu bastardo mentiroso! Você queria era ter o meu dinheiro!”. Era John Lennon. 

Foi May Pang, a empresária, ex- amante de Lennon e amiga de Bowie quem se encarregou de dar a David a mais triste das notícias naquele fatídico dia 8 e dezembro e 1980. Bowie estava participando de uma peça na Broadway chamada O Homem Elefante. Por isso tinha alugado um apartamento em New York. Pang foi pessoalmente até lá para dar a notícia da morte de John Lennon a David Bowie. Bowie ficou transtornado. Gritava e chorava. Meses depois, Bowie disse numa entrevista sobre a morte de John: “Um pedaço inteiro da minha vida parecia ter sido tirado, toda a razão de ser cantor e compositor parecia ter sido removida de mim.”. 

Assim terminava uma amizade das mais lendárias o rock n’roll, e uma história que começou como um sonho distante no balcão de um pub qualquer em Londres. Terminava também uma curta, porém muito eficiente parceria musical. A composição de Lennon & Bowie, Fame, foi o primeiro single de David Bowie a atingir o número 1 da Billboard nos Estados Unidos. Dali em diante, Bowie nunca mais se sentiria menosprezado pelos norte-americanos, e teria várias músicas chegando ao topo por lá até o fim de sua carreira. No final de 2013 David Bowie foi diagnosticado com um câncer no fígado. Ele combateu doença por dois longos anos. No dia 10 de janeiro de 2016 Bowie não resistiu e faleceu. 

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Vai fundo! 

Para ouvir: Uma playlist imbatível com a dobradinha Lennon & Bowie. Só o puro creme do milho verde da carreira solo do John Lennon e também do David Bowie. Lennon & Bowie Top 10 tracks

Para assistir: O John Lennon sempre pareceu ser muito simpático e camarada com o Bowie, né? Mas não pense você que ele foi sempre assim. Na época dos Beatles o John era bem arrogante e costumava destratar muita gente. O divertidíssimo filme Meu Jantar Com Jimi, retrata bem isso. O filme é de 2003, dirigido pelo Bill Fishman e escrito pelo Howard Kaylan, que era vocalista da banda The Turtles na década de 60 e numa turnê pela Inglaterra conheceu os Beatles e acabou numa noitada com Jimi Hendrix. É baseado em fatos reais e um filme imperdível! 

Para ler: Apesar de o foco hoje ter sido mais o David Bowie, vale recomendar a impecável biografia de John Lennon escrita pelo Philip Norman, onde toda essa fase do John nos Estados Unidos é contada em detalhes.. O livro John Lennon: A Vida foi lançado em 2009 pela editora Companhia das Letras. Leitura essencial. 

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