10 músicas de protesto brasileiras que marcaram a história

10 músicas de protesto brasileiras que marcaram a história
Conheça 10 músicas de protesto brasileiras que marcaram a história, da ditadura ao rap, e descubra como a música se tornou instrumento de resistência.

A arte em geral (música, artes plásticas, teatro…) é contestatória por natureza? Bom, ironicamente, essa informação pode ser amplamente contestada. Mas é inegável que o inconformismo move algumas das grandes obras de arte.

Existe uma lenda que vale ser citada, mesmo sem comprovação histórica. Durante a ocupação nazista de Paris, um oficial alemão teria visitado o ateliê de Picasso, apontado para uma reprodução de Guernica e perguntado: “Foi o senhor quem fez isso?” O artista teria respondido: “Não, foram vocês.”

Há muito tempo o protesto usa a arte como expressão. Mas foi na música que parece ter encontrado solo mais fértil para florescer, existir e resistir. No Brasil, com sua riqueza de ritmos e melodias, muitas músicas de protesto se tornaram verdadeiros clássicos.

Esta seleção reúne dez músicas de protesto brasileiras de diferentes épocas e gêneros. Não é um ranking: é uma curadoria da Strip Me sobre como a música brasileira transformou censura, autoritarismo, desigualdade, racismo e violência em expressão artística.

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10 músicas de protesto brasileiras para conhecer

A lista não segue ordem de relevância ou qualidade. Está dividida em dois períodos históricos.

1964–1984: Música contra a repressão

Opinião – Zé Kéti

Zé Kéti escreveu esse ótimo samba em 1964, ano do golpe militar que instaurou a ditadura no país. Opinião transcende o protesto contra a repressão. Fala de pertencimento e orgulho. E é exatamente isso que a torna contestadora.

O impacto foi tamanho que o samba deu nome a um dos eventos mais marcantes de 1964, o Show Opinião, que estreou no Rio em 11 de dezembro. O espetáculo reunia Zé Kéti, Nara Leão e João do Vale, representando diferentes realidades do Brasil: a vida na favela, a classe média branca e politizada e o retirante nordestino.

Em dezembro de 64 o clima já estava pesado, mas o regime ainda estava longe do endurecimento repressivo que culminaria no AI-5. Antes de Chico, Vandré e dos festivais que cristalizariam a imagem da canção de protesto, um samba já dizia que resistiria se mantendo fiel às suas raízes.

Capa do Show Opinião – 1964

Pra Não Dizer que Não Falei das Flores – Geraldo Vandré

Para a maioria dos artistas, rótulo é um negócio complicado. Se a liberdade é essencial à arte, natural que o artista não queira se prender a uma definição. Por isso, mesmo sabendo da grandeza de Pra Não Dizer que Não Falei das Flores, é compreensível que Geraldo Vandré tenha declarado: “Eu não faço canção de protesto.”

Apesar da fala, essa é a música de protesto brasileira por excelência. Pela letra que une lirismo e contestação, pela melodia que faz querer cantar junto e pela trajetória conturbada do palco de um festival à censura, até ganhar as ruas.

Foi a música mais aclamada do III Festival Internacional da Canção, em 1968, mas não ganhou o primeiro lugar, irritando a plateia. A gravação do festival chegou a sair em compacto naquele ano, mas a canção foi censurada e teve sua execução proibida. Vandré deixou o Brasil e a música se consolidou como hino contra a ditadura, cantada em manifestações. Em 1979, no contexto da abertura política, ganhou uma célebre gravação de Simone.

Cálice – Chico Buarque

Durante a ditadura, quem quisesse escrever uma canção de protesto precisava ser sagaz. Recorrer a metáforas, alusões, paronomásias… porque ser literal era veto na certa. Curiosamente, Cálice é emblemática justamente porque, dentro de suas metáforas e homofonia, acabou sendo literal.

Chico Buarque e Gilberto Gil escreveram a canção em 1973 para o Phono 73, no Anhembi. Gil teve a ideia inspirado pela Paixão de Cristo, percebendo a semelhança sonora entre cálice e cale-se. Os dois traçaram paralelos entre o sofrimento de Jesus e a violência da ditadura.

A letra foi vetada na véspera da apresentação, marcada para 11 de maio. Chico e Gil sabiam que não poderiam cantá-la e inicialmente fariam uma versão instrumental. No palco, porém, Chico insistiu na palavra “cálice”. E o som do microfone dele foi cortado. Uma música construída em torno da ideia de ser obrigado a calar foi literalmente calada enquanto seus autores tentavam apresentá-la.

A Grande Esperança – Zilo & Zalo

Quando falamos em música de protesto na ditadura, pensamos em Caetano, Gil, Chico, Elis Regina… os medalhões da MPB. Mas cantores populares tidos como bregas, como Odair José, também foram combatidos e censurados. O que ninguém esperava era uma dupla sertaneja emplacar uma música de protesto. E pró-reforma agrária, em 1965!

Diferente das letras cifradas da MPB, Zilo & Zalo abrem direto na jugular: “A classe roceira e a classe operária ansiosamente esperam a reforma agrária.” É isso mesmo! Uma dupla sertaneja de enorme apelo popular gravou uma moda de viola que tratava trabalhadores rurais e urbanos como classes, defendia a reforma agrária e denunciava desigualdade e capitalismo.

O contexto torna tudo mais impressionante. A reforma agrária integrava o plano de governo de Jango antes do golpe. Em novembro de 1964, Castelo Branco promulgou o Estatuto da Terra. Embora previsse a reforma agrária, na prática o regime privilegiou a modernização produtiva e a agroindústria, sem promover a redistribuição de terras na escala prevista. Certamente A Grande Esperança é a canção mais punk da música sertaneja.

Primavera nos Dentes – Secos e Molhados

Viver sob uma ditadura, com repressão e censura, não é fácil. Para um poeta, jornalista e formador de opinião, pior ainda. Era o caso de João Apolinário, vivendo em Portugal sob o salazarismo. Ele se mudou para São Paulo em dezembro de 1963 e, em janeiro, já trabalhava no jornal Última Hora. Poucos meses depois, estava sob uma ditadura mais uma vez.

Em 1973, seu filho João Ricardo montou os Secos e Molhados. No disco de estreia, incluiu um poema do pai musicado por ele, com interpretação poderosa de Ney Matogrosso, Gérson Conrad e do próprio João Ricardo. Primavera nos Dentes é um libelo contra a repressão com lirismo único e linguagem universal.

Seu valor vai além da poesia certeira e da melodia crescente e catártica. Está também na transgressão estética da banda que, esbanjando androginia e teatralidade em pleno governo Médici, virou fenômeno popular e chegou à marca de um milhão de discos vendidos.

Não é tão simples determinar se João Apolinário escreveu o poema pensando na ditadura salazarista, no golpe de 64 ou simplesmente na resistência à opressão. Mas isso é irrelevante. Não é necessário saber quem é o ditador, qual é o regime ou sequer qual é o país para entender o que significa inventar uma resistência dentro da engrenagem.

A androginia e teatralidade dos Secos & Molhados

1985–2005: Novos tempos, velhos problemas

Alagados – Os Paralamas do Sucesso

Em 1985, o Ultraje a Rigor fez sucesso com o disco de estreia Nós Vamos Invadir Sua Praia. Um dos hits era Rebelde sem Causa, sátira divertida à rebeldia juvenil de uma classe média alta alienada. Mas muita gente aproveitou a nova liberdade de expressão para protestar contra problemas que não acabaram com a ditadura. Foi o caso d’Os Paralamas do Sucesso.

Depois de surfar no rock de bermudas à la Blitz com Óculos, a banda amadureceu no disco Selvagem, de 1986. Alagados abre o álbum com personalidade e muito a dizer. Incorporando uma latinidade vigorosa, Herbert Vianna elenca cartões-postais da desigualdade social e seus efeitos na sociedade.

A melodia traz fortes elementos caribenhos, ampliando seu horizonte para além do rock. Alagados pode ser vista como continuação de Opinião, de Zé Kéti. A resistência agora não é contra a repressão política, mas contra a falta de oportunidades, que igualmente tira a liberdade de quem mora no morro. E ainda assim, essas pessoas resistem através da arte de viver da fé. Só não se sabe fé em quê.

Que País é Este? – Legião Urbana

Nenhum outro gênero sintetiza tão bem a música de protesto quanto o punk. Uma das canções mais emblemáticas dos anos oitenta surgiu nesse contexto. Em 1978, o jovem Renato Russo capitaneava a banda punk brasiliense Aborto Elétrico e escreveu Que País é Este?, música poderosa, questionadora e de refrão pegajoso. O grupo acabou antes de registrar suas músicas. Seus integrantes seguiram caminhos diferentes, dando origem à Legião Urbana e ao Capital Inicial, que herdaram parte do repertório.

A Legião Urbana tocava Que País é Este? frequentemente nos shows, mas chegou a 1987 com dois discos lançados e sem gravá-la. A explicação é curiosa. Mesmo vendo a empolgação do público e sabendo que a música circulava em gravações piratas, Renato Russo tinha uma esperança: que ela se tornasse datada, obsoleta.

A canção fala de corrupção, abuso de poder, miséria e desigualdade. Acabou gravada em 1987 e batizou o terceiro disco da banda, Que País é Este 1978/1987, reunindo material antigo da Legião e do Aborto Elétrico num momento em que a gravadora pressionava por um novo álbum. O disco traz ainda o clássico Faroeste Caboclo.

Renato Russo morreu em decorrência da AIDS em 1996. Não viveu para ver Que País é Este? se tornar obsoleta. Será que nós viveremos?

Da Lama ao Caos — Chico Science & Nação Zumbi

Em 1974, Jorge Mautner e Nelson Jacobina delinearam sem querer o que viria a ser o mangue beat em Maracatu Atômico, canção tropicalista que unia tradição e modernidade. Dezoito anos depois, Fred Zero Quatro escreveu o manifesto Caranguejos com Cérebro, fincando uma antena parabólica na lama do mangue. O que era visto como ambiente de pobreza passava a simbolizar fertilidade.

Nesse contexto surge Chico Science & Nação Zumbi. Em 1994, lançam Da Lama ao Caos, álbum inovador cuja faixa-título é uma música de protesto como há tempos não se via. Porque provoca, contesta, denuncia, mas também se impõe. Aponta o dedo sim, mas também se afunda na lama, fazendo sua parte para mudar as coisas. O groove pesado das alfaias embalado por uma guitarra saturada é inebriante, quase dá pra sentir o cheiro do mangue.

Chico Science morreu precocemente num acidente de carro em fevereiro de 1997, mas deixou um legado vivo. A antena parabólica que ele fincou na lama junto com Fred Zero Quatro continua captando. A fome e a miséria que Da Lama ao Caos denuncia infelizmente parecem estar longe de acabar. Mas tem cada vez mais gente por aí se organizando pra poder desorganizar.

Chico Science & Nação Zumbi

Diário de um Detento – Racionais MC’s

Parte da genialidade de Hunter S. Thompson está em escrever em primeira pessoa e colocar o leitor dentro da ação. Ao ler Medo e Delírio em Las Vegas, você se sente no banco de trás do carro rasgando as estradas do oeste dos Estados Unidos com Raoul Duke e o Doutor Gonzo. Nem toda música de protesto consegue isso: não só mostrar o que está errado, mas colocar você dentro da situação. Mano Brown e Jocenir conseguiram.

Mano Brown conheceu Jocenir no Carandiru, onde fazia visitas e Jocenir era detento. O preso escrevia poemas e relatos do cotidiano na prisão, que chegaram às mãos do rapper. Assim surgiu Diário de um Detento, do essencial Sobrevivendo no Inferno, de 1997. Jocenir trouxe a vivência do cárcere e sua poesia; Brown transformou tudo aquilo em rap. A música denuncia a brutal violência do Massacre do Carandiru, em 1992. Mas vai além disso.

O massacre é o ponto de partida para denunciar a violência do sistema carcerário e a indiferença das autoridades. A mensagem mais profunda de Diário de um Detento é plantar uma dúvida: aqui está um massivo relato de descaso e violência. Mas essa é só a perspectiva de um detento. Quem realmente se importa com isso?

A Carne – Elza Soares

Músicas de protesto correm um risco: a obsolescência. Era a esperança de Renato Russo com Que País é Este? Canções da ditadura, como Cálice, continuam funcionando pelo lirismo e força melódica, ainda que a censura institucionalizada que as inspirou não exista mais. Mas há temas que parecem nunca envelhecer. Desde que, muito tardiamente, o Brasil aboliu a escravidão, empurrou os negros para os morros e bonificou os brancos que ficaram sem sua mão de obra, o racismo está cruelmente presente. Não faltam músicas sobre o tema. Mas uma especialmente acertou em cheio.

Em 2002, Elza Soares escolheu A Carne para o disco Do Cóccix até o Pescoço e declarou numa entrevista: “Gravei A Carne porque tinha a minha cara.” Composta em 1998 por Seu Jorge, Marcelo Yuka e Wilson Cappellette, a música foi gravada pelo Farofa Carioca. Mas foi na voz de Elza que ganhou sua personalidade e força. Só mesmo uma mulher que viveu literalmente na carne o racismo, a violência e a desigualdade, no alto de seus 72 anos, a voz gasta, mas ainda potente, poderia transformar a canção num manifesto tão impactante.

Lembra quando Johnny Cash pegou Hurt do Nine Inch Nails e a transformou de tal maneira que o próprio Trent Reznor declarou: “Essa música não é mais minha.”? Foi exatamente isso que Elza Soares fez com A Carne. Ela pegou uma música de protesto ótima e a transcendeu. Mais de um século depois do fim da escravidão, tendo passado por ditaduras, chegamos ao século XXI e ainda precisamos lutar muito para que A Carne finalmente fique obsoleta.

Do Cóccix até o Pescoço – Elza Soares (2002)

Música de protesto pra levar no peito

Do samba ao rap, passando pelo sertanejo, pelo punk e pelo mangue beat, as músicas de protesto brasileiras mostram que não existe um ritmo específico para contestar o mundo. A resistência pode vir em forma de poesia, ironia, denúncia ou simplesmente da coragem de se expressar.

A Strip Me acredita que, se a música é uma forma de manifestação, a arte que vestimos também pode ser. É essa a ideia por trás das camisetas Resistance e Democracia, e muitas outras. Vem conhecer as coleções de camisetas de música, arte, brasilidades, cultura pop e muito mais.

Afinal, até mesmo o que você veste tem muito a dizer.

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