Well, whatever… Nevermind.

Well, whatever… Nevermind.

 Um dos vídeos mais famosos do Nirvana é uma filmagem amadora de um show da banda em Dallas numa pequena casa de shows. O show foi um caos, vários problemas técnicos, PAs falhando e etc. Sem falar que o som do Nirvana sempre foi barulhento, abusando de microfonias. Eis que durante a música Love Buzz, na hora do solo de guitarra, Kurt Cobain faz um stage dive com guitarra no lombo e tudo. Ele está lá curtindo, se debatendo em cima da plateia, quando um dos seguranças o puxa de volta para o palco. Mas ele não quer ir, e, no reflexo, enfia a guitarra na testa do tal segurança. Quando Kurt volta ao palco, o segurança com a cabeça sangrando tá full pistola e já chega no soco e na bicuda pra cima dele e o caos se instaura. Nem o mais otimista dos seres humanos que visse este vídeo antes de setembro de 1991 acreditaria que aquela banda seria capaz de desbancar Michael Jackson na lista dos discos mais vendidos do ano.

A música pop produziu os mais variados fenômenos da década de 1950 pra cá. Um branco do sul dos Estados Unidos que misturou country com música negra, 4 moleques de uma cidadezinha portuária da Inglaterra que faziam músicas de amor e aposentaram a fase dos topetes no rock, um inglês que imortalizou sua imagem com um raio na cara e uma música plural e por aí vai. Mas nenhum desses fenômenos foi tão radical quanto a ascensão da banda Nirvana. Por mais que Elvis tenha sido um revolucionário misturando o country dos brancos com o R&B dos negros, o cenário musical estava pronto para isso. Os Beatles foram uma evolução natural daquele movimento que já contava com Buddy Holly e Little Richards. Bowie foi um gênio justamente por saber ler o que havia de melhor na vanguarda da música pop e recriar à sua maneira. Em nenhum desses casos houve ruptura. Com o Nirvana foi diferente.

Photo by: Michael Lavine

Até dá pra dizer que o rock estava em evidência em 1991. Mas era um rock afetado, narcisista. Guns n’ Roses lançava o megalomaníaco Use Your Illusion I e II, U2 se rendia ao pop em Atchung Baby e no front do rock mais pesado, o Metallica se rendia a baladas e mais melodias do que agressividade no clássico Black Album. O punk rock estava esquecido. A música alternativa, que sempre foi efervescente, vale dizer, continuava de boa ali no underground sem incomodar ninguém.  Pra não falar que não rolava rock alternativo no mainstream, o clipe de Losing my Religion, do R.E.M. estava bombando e o Sonic Youth tinha lançado Goo, um disco bem sucedido por uma grande gravadora, um ano antes.

Photo by: Kirk Weedle

Aliás, foi por causa do Sonic Youth que o Nirvana acabou assinando com a Geffen Records. Dizem que o pensamento dos executivos da gravadora era o seguinte: se o Sonic Youth vendeu 50 mil discos, o que eles consideravam um bom desempenho para uma banda alternativa, se o tal Nirvana vendesse igual ou um pouco mais, já valia a pena. Acontece que em dezembro de 1991, três meses depois de lançado, Nevermind já vendia 300 mil cópias por semana! Tudo por causa de um riff de guitarra grudento, uma letra reclamona e um clipe poderoso.

Photo by: Kirk Weedle
Photo by: Kirk Weedle

Nevermind é um disco brilhante e irretocável. Ali estão as melhores composições de Kurt Cobain, executadas por uma banda afiadíssima, um baixo marcante e preciso, uma bateria cavalar, harmonias incríveis e uma produção soberba. É um monte de elogios grandiosos, eu sei, mas não é exagero. Apesar de estar recheado de hits, o disco foi puxado por Smells Like Teen Spirit. Uma música que Kurt Cobain escreveu inspirado nos Pixies com sua dinâmica de guitarras distorcidas, verso suave e explosão no refrão. O clipe reforçava a letra da música, que reclamava da apatia juvenil, apresentando uma mini rebelião num ginásio de colégio com cheerleaders com o símbolo da anarquia punk estampado em suas blusas. Era tudo que uma juventude cansada de bandas super produzidas e astros pop inatingíveis precisava.

Photo by: Michael Lavine

A honestidade, o sarcasmo e principalmente as músicas excelentes do Nirvana caíram nas graças do mundo pop. Nevermind tirou Michael Jackson do topo dos discos mais vendidos e chutou a porta para um mundo desconhecido entrar. De uma hora pra outra, roqueiros maltrapilhos, de cabelos ensebados e usando bermudas e camisas de flanela passaram a frequentar capas de revistas e ter seus discos entre os mais vendidos. Na real, a maioria das bandas que apareceram como grande novidade da música já eram veteranos, com pelo menos três ou quatro discos já lançados na bagagem. Mudhoney, Pixies, Sonic Youth, Soundgarden, Screaming Trees, L7… essa turma toda já estava na ativa desde os anos 1980.

O Nevermind é o disco mais importante da década de 1990, e completa neste ano 30 anos de lançado. Responsável por uma revolução na música e no comportamento. Não se trata só de um disco com 12 músicas ótimas. Trata-se do disco de uma banda que sempre que podia, falava bem de outras bandas, que tinha personalidade e muito talento. Nevermind é a obra prima, mas tudo que o Nirvana lançou é bom demais. Bleach, Incestcide, In Utero, Unplugged in NY, os singles, discos ao vivo, bootlegs… não tem coisa ruim. É por isso que a morte de Kurt Cobain em 5 de abril de 1994 ainda é sentida e lembrada até hoje. E enquanto existirem jovens descontentes com guitarras na mão, continuará sendo.

Photo by: Charles Peterson

Vai fundo!

Para ouvir: Todo mundo conhece os clássicos do Nirvana. Mas tem muita coisa nas beiradas de toda a obra da banda que é genial e merece ser ouvida. Por isso, fizemos um top 10 tracks Nirvana que fogem do óbvio.

Para assistir:Tem muito material interessantíssimo sobre o Nirvana. Vou citar dois: Primeiro o home vídeo Nirvana Live! Tonight! Sold Out! que conta toda a trajetória da banda até a morte prematura de Kurt Cobain. O outro é o documentário Montage of Heck, que se presta a contar a história do Kurt Cobain através de sua própria obra e com vídeos e gravações cedidos pela família. Inclusive a produção é assinada pela Frances Bean Cobain, filha de Kurt.

Para ler: Claro! A indispensável biografia de Kurt Cobain  Heavier than Heaven, escrita pelo jornalista Charles R. Cross. Um livro completíssimo, super bem escrito e delicioso de se ler. Livro essencial para quem gosta de música.

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