Hip Hop: Origem, (r)evolução e treta!

Hip Hop: Origem, (r)evolução e treta!

Uma roda se forma em torno de dois homens. Todos à volta dos dois não querem perder nenhum detalhe. Aparentemente, aquele é um duelo aguardado por todos. Os dois homens se olham friamente no centro do círculo, que é formado por uma pequena multidão de olhares curiosos. Não ficou claro quem desafiou quem, mas sabe-se que houve muita bebedeira e gritaria. Depois de alguns insultos de ambos os lados, em tom de pilhéria, vale ressaltar, a turma de amigos que acompanhavam os dois, ao invés de conter os ânimos com o protocolar “deixa disso”, bradaram incentivando o confronto! Em questão de segundos, os dois já estavam rodeados de pessoas que se acotovelavam e ficavam em silêncio esperando o início do duelo. Um deles era mais forte e alto. Tinha uma barba ruiva, suja e cheia de nós, e a cabeça raspada. Já o outro era bem cabeludo, um cabelo ensebado e comprido, já meio grisalho. Também com uma barba longa e suja, este era mais gordo. Ambos tinham uma imagem intimidadora e vestiam roupas velhas e esfarrapadas. O gordo desferiu o primeiro golpe, com sua voz grave e rouca fez uma rima dizendo que seu oponente lhe fazia ter engulhos até com um vinho saboroso, pois era tão feio quanto um pútrido leproso. E se iniciou uma batalha de rimas que durou quase meia hora, um insultando o outro, sempre rimando, até que um dos dois se cansou, não conseguiu responder à altura e teve que pagar bebidas para seu oponente no resto da noite. 

Uma cena como essa acontecia praticamente todos os dias nas tavernas da Bretanha e da França entre os séculos XVII e XVIII. Era uma tradição celta muito popular. Na real, esses duelos de rimas é o tipo de coisa que era comum a vários povos em diferentes lugares do mundo, um lance muito antigo mesmo. Mas os registros mais claros disso são à partir dessa época, entre os celtas, e rapidamente se espalhando pela Europa e, consequentemente, na América. Aqui no Brasil acabou originando o repente no Nordeste e a trova na região sul entre o fim do século XIX e começo do século XX. Também gerou um tipo de música nas ilhas do Caribe, que ficou conhecido como Mento, em especial na Jamaica. O mento iria se fundir com o ska e o rocksteady para dar origem ao reggae. Reggae este que fazia parte dos sons que rolavam nos sound systems, grandes caixas de som que eram colocadas nas ruas da periferia de Kingstown e rolavam altos bailes ao ar livre. Nestes bailes, sempre tinham os toasters, caras que pegavam o microfone e falavam de forma ritmada, de acordo com a música que estava tocando, sobre o cotidiano daquela região, falavam de pobreza e política, mas também falavam muito sobre sexo, faziam piadas e tiravam sarro das pessoas. Aqui já estamos no fim dos anos 60. 

Justamente tentando fugir dessa pobreza, muitos jamaicanos começaram a migrar para os Estados Unidos. Uma das comunidades mais famosas de jamaicanos nos Estados Unidos ficava no Bronx, bairro paupérrimo no extremo norte da cidade de New York. Já nos anos 70 o jamaicano Kool Herc, trouxe um dos sound systems da Jamaica para os Estados Unidos e começou a fazer festas nas ruas do bairro. Nesta época, a pobreza e a falta do que fazer fizeram com os jovens se juntassem em gangues. A violência era generalizada, e o racismo era só mais gasolina nessa fogueira. As festas nas ruas com os sound systems eram uma oportunidade de diversão e começou a se tornar cada vez mais comum os DJs usarem o microfone. A turma que curtia som começou a criar um novo jeito de dançar. Entre as gangues, se tornou muito popular marcar territórios e se expressar através do grafite nos muros da cidade. Alguns clubes e casas noturnas quiseram colocar os sound systems pra dentro, o DJ já não dava conta de falar ao microfone e colocar os sons. Surgem então os mestres de cerimônia, os MCs. E pronto. Está criada a cultura hip hop. 

Mas não foi fácil assim. Tinha muita treta, muita briga. Foi o mestre Afrika Bambaataa quem mais ajudou a botar ordem na casa. Pregou a união das gangues de negros para combater o racismo e insistia que com a música, o grafite e a dança, era essencial que o conhecimento e a consciência social viessem junto no pacote. Ele criou a Zulu Nation e realmente mudou o mundo. Daí pra frente só foi apavoro! Nos anos 80 pintaram Run DMC, Public Enemy e Beastie Boys. Sem falar de Kurtis Blow, MC Hammer, Eazy E, Ice T e DJ Jazzy Jeff & The Fresh Prince (sim, foi onde o Will Smith começou). Nos anos 80 o rap e o hip hop estouraram! Milhões de discos vendidos, rappers ditando moda, videoclipes com produções caríssimas, muita ostentação, carrões, correntes de ouro, drogas, sexo… enfim, uma parada que deu certo, mas que tinha tudo pra dar erado. E para alguns realmente deu errado. 

Tupac Maru Shakur nasceu ali, no olho do furacão, no Bronx dos anos 70. Viveu parte de sua infância no Harlem, outra parte em Baltimore e já adolescente se mudou com sua mãe para a Bay Area, California. Lá se envolveu com tráfico de drogas e passou a trampar de roadie para a banda Digital Underground, onde teve oportunidade de cantar algumas vezes e começou a se destacar. Em 1991 ele já tem seu primeiro disco solo lançado. Mas voltando ao início dos anos 70, no bairro do Brooklyn, New York, nascia Christopher George Latore Wallace, um figura que ficaria conhecido como The Notorious B.I.G. Ao contrário de Tupac, ele teve uma infância estável vivendo sempre no mesmo bairro e estudando numa boa escola, onde teve boas noções de inglês e literatura. Mas a boa educação não impediu que ele fosse pra rua e também embarcasse no tráfico de drogas. Ainda jovem, ele já era conhecido por vender crack no bairro. B.I.G. passou a juventude e o início da vida adulta no Brooklyn traficando drogas e fazendo rap nas ruas e em pequenos bares, mas sem grande sucesso. Entre 1992 e 1993, enquanto B.I.G. ainda estava restrito ao circuito do rap nova iorquino, Tupac já tinha ganhado disco de ouro, participado de filme no cinema e até mesmo andou aos beijinhos com a Madonna. Em fevereiro de 1993 B.I.G. descolou um show para fazer em Los Angeles, e aproveitou para conhecer Tupac. Os dois se deram super bem logo de cara e ficaram bróders. 

Mas essa brodagem toda durou pouco. No dia 30 de novembro de 1993 Tupac colou no estúdio de B.I.G. e Puffy, que era produtor. Era madrugada, o estúdio ficava no segundo andar de um prédio na Times Square. Quando chegou no hall do prédio, tinham 3 caras por ali. Ao chamar o elevador, Tupac se ligou que um dos caras puxou uma pistola. Mas ele também era malandro e sempre andava armado. Só que antes de puxar seu revólver, levou cinco tiros. Os três caras caíram fora correndo. Só que Tupac não morreu. Estava em péssimo estado, claro, se arrastando. Mas conseguiu ir até o estúdio, onde foi recebido por B.I.G. e Puffy com uma cara de espanto e, segundo o próprio Tupac, culpa. Uma cara de quem quer dizer “Agora f*deu!”. Mas a vida não estava fácil pra ninguém. Nessa época, Tupac vinha enfrentando problemas sérios com a justiça, sendo acusado de estupro e de ter envolvimento com um dos maiores gângsters da época. E, aparentemente, era tudo verdade. Tanto que ele, mesmo baleado, todo enfaixado e numa cadeira de rodas, foi condenado a prisão. Ficou preso por 11 meses, saindo por pagamento parcial da fiança e por bom comportamento. 

Enquanto esteve preso, Tupac cultivou a ideia de que B.I.G. e Puffy sabiam que ele seria baleado naquela noite no estúdio. E se não sabiam, o mínimo que poderiam fazer é achar quem tinha feito aquilo e dar uma coça nos malucos, afinal ali era New York, era a quebrada de B.I.G. e não ia ser difícil descobrir quem deu os tiros. Mas nada foi feito. Nada é exagero. Foram feitas músicas. B.I.G. lançou a música Who Shot Ya? meses depois de Tupac ser baleado. E era uma música com uma letra meio irônica, pegou mal e Tupac levou pro pessoal. Hit’ Em Up foi a resposta de Tupac, uma letra direta para B.I.G. repleta de ofensas. Era 1995, e foi o auge da treta entre a cena rap/hip hop da costa leste dos Estados Unidos (B.I.G.) contra a costa oeste (Tupac) e.muitos artistas de ambas as cenas compraram a briga, cada um com o seu território. Uma disputa estúpida e descabida, mas que rendeu muito para a mídia, que sempre tinha alguma coisa pra noticiar a respeito. Só que a treta extrapolou a música. No dia 7 de setembro de 1996 Tupac foi baleado e morreu em Las Vegas. Não há nenhum indício de que B.I.G. tenha algum envolvimento com o crime. Aliás, ali pelo fim de 1996 já rolava um papo de apaziguar e acabar com aquela rixa besta. Em 9 de março de 1997 B.I.G. estava em Los Angeles para um show e deu entrevistas pedindo paz e o fim daquela rivalidade. No mesmo dia também foi baleado e morto. 

Tupac e Notorious B.I.G. eram os dois maiores nomes do rap no mundo nos anos 90. A morte dos dois finalmente fez com que os ânimos se acalmassem e a rivalidade entre costa leste e costa oeste acabasse. Um preço muito alto para o fim de uma rivalidade tão imbecil. Mas apesar dos pesares, o hip hop sobreviveu firme e forte. Ainda nos anos 90, sob o legado desses dois gigantes nomes como Dr. Dre, Snoopy Doggy Dogg, Cypress Hill, Fugees, Jay-Z, Busta Hymes, Eminem, N.W.A., Ice T, Outkast, De La Soul, Ice Cube, Lauryn Hill e tantos outros dominassem a parada! Pode crer que se não fossem as estripulias de Kurt Cobain, Eddie Vedder e companhia, o hip hop teria dominado a indústria musical nos anos 90, como domina desde o começo do século XXI até hoje. Atualmente, mais de 70% de toda música ouvida nas principais plataformas de streaming em todo mundo é rap e hip hop

É um estilo de música e de vida muito rico, com uma história incrível! E olha que a gente se limitou a falar apenas dos Estados Unidos. Só a história do hip hop no Brasil, com Thaíde & DJ Hum, DJ Marlboro e toda a turma, já dava outro texto delicioso. Mas por hora, ficamos por aqui. Lembrando, é claro, que o hip hop, a cultura do grafite, a luta contra o racismo, a poesia e a música são parte essencial na formação da Strip Me. Então você obviamente encontra várias camisetas sensacionais com referências a este universo maravilhoso, bem como tantas outras estampas de música, cinema, arte, cultura pop e muito mais. Se liga nos nossos lançamentos e visite a nossa loja

Vai fundo! 

Para ouvir: Uma playlist no capricho do que há de melhor no hip hop dos anos 90. Top 10 Tracks 90’s Hip Hop 

Para assistir: A série The Get Down, produção da Netflix é impecável e retrata muito bem o início do hip hop no Bronx. É mais que imperdível, essencial. 

Tapas, Tropeços e outros memes semelhantes: A História do Oscar.

Tapas, Tropeços e outros memes semelhantes: A História do Oscar.

Como é possível mensurar a arte? Pensa bem. Quais são os critérios usados para dizer que as sinfonias de Mozart são melhores que as do Beethoven? Ou que as obras do Picasso são melhores que as do Dali? Ou que Forrest Gump é melhor que Um Sonho de Liberdade? Se a gente realmente parar pra pensar, é uma avaliação tão pessoal e subjetiva que é impossível estabelecer definitivamente que uma obra de arte é melhor que a outra. Simplesmente porque não são só os aspectos técnicos que importam. Na verdade, eles são os que menos importam. O talento nato, o sentimento, o carisma… tudo isso pesa muito.

Uma vez o Dave Grohl deu uma zoada nesses programas tipo The Voice. Ele disse: “Imagina só. O Bob Dylan num programa desses cantando Blowing in the Wind, e a Jennifer Lopez reprovando, dizendo ‘Hmmm… não gostei. Sua voz é muito anasalada e aguda.’”. Mas o fato é que, apesar disso tudo, a arte é frequentemente alvo de comparações, e todo ano são várias premiações que elegem o melhor disco do ano, a melhor banda, o melhor videoclipe, o melhor ator, a melhor atriz, o melhor diretor de cinema e, é claro, o melhor filme. 

Fim de semana passado rolou a nonagésima quarta edição da premiação do Oscar. O Oscar, você já tá ligado, é a mais importante e significativa premiação da indústria do cinema. E como qualquer coisa levada ao público que implica em competição, julgamento e escolhas, as premiações do Oscar sempre geraram polêmicas e discussões, nem sempre por conta dos filmes em si. Em especial depois da década de 2010, com a popularização das redes sociais, o Oscar se tornou um evento ainda mais saboroso de se acompanhar, dada a avalanche de memes e comentários engraçados que passaram a pipocar internet afora. Mas não se engane, muito antes de tapa na cara, tropeços na escada, confusão na hora de anunciar o filme vencedor e selfies estreladas, o Oscar já rendia algumas polêmicas. Na real, a premiação, que já está batendo na porta do seu centenário, teve uma baita polêmica logo em uma de suas primeiras edições. 

A primeira edição do Oscar aconteceu em 1929. A Academy of Motion Picture Arts and Sciences (Academia de Artes e Ciências Cinematográficas), ou simplesmente The Academy, foi fundada em 1927 por executivos das grandes companhias de cinema de Los Angeles. Depois de dois anos de atividade, a turma da Academia resolveu criar um prêmio, para homenagear os melhores artistas e produtores do cinema, e assim fomentar novas e mais ousadas produções, em resumo, gerar competitividade. A primeira edição do Oscar foi mais um petit comité. Foi um jantar para apenas 270 pessoas num hotel de luxo em Hollywood, onde foram entregues 15 estatuetas para artistas e técnicos da indústria do cinema, referentes às produções de 1927 e 1928. Mas a partir dali a cerimônia passaria a ser anual e cresceria cada vez mais. Nos anos seguintes, ingenuamente, a Academia divulgava para os jornais locais os vencedores de cada categoria um dia antes da premiação. E por incríveis 9 anos, funcionou super bem, ninguém ficava sabendo quem eram os vencedores antes e os jornais anunciavam no dia seguinte da cerimônia, com matérias completas e etc. Mas, em 1939, os editores do Los Angeles Times receberam a lista dos vencedores na véspera da cerimônia e devem ter pensado: E se a gente divulgasse essa lista amanhã mesmo, e não depois de amanhã, quando a cerimônia já vai ter acontecido? Vai ser um furo de reportagem, certo? Pois é. Na manhã do dia 23 de fevereiro de 1939, o Los Angeles Times publicou os vencedores do Oscar daquele ano. De noite, quando a cerimônia aconteceu, o desconforto era nítido, pois todo mundo já sabia quem eram os escolhidos. É o Oscar causando climão desde 1939. 

O fato de a Academia ser formada por uma maioria de homens, brancos e de meia idade, faz com que as premiações sigam critérios conservadores. Basicamente este é o principal fator de polêmicas e discussões em boa parte das decisões que já foram consideradas injustas ao longo dos anos. O Oscar foi se tornando mais plural com o passar do tempo. Por exemplo, só em 1957 foi introduzida a categoria “Melhor Filme Estrangeiro”. Na mesma época a Academia passou a aceitar a filiação de cineastas de fora dos Estados Unidos, mas não era nada fácil conseguir entrar (e ainda não deve ser). Hoje em dia, dos aproximadamente 9 mil membros da Academia, apenas 1 mil e 200 não são norte-americanos. Ainda deste total de quase 9 mil, um terço são mulheres e 19% representam minorias, incluindo aí negros, deficientes físicos, gays e etc juntos. Em termos de premiações, essa diferença fica evidente. Por exemplo, em 94 anos foram entregues 3168 estatuetas. Dessas, apenas 47 foram entregues para negros (já contando com o Will Smith este ano). Em 2015 rolou um movimento muito forte nas redes sociais sob a hashtag #oscarsowhite, já que não havia nenhum negro entre todos os indicados daquele ano. Claro que não foi a primeira vez que isso aconteceu, mas, além de a internet não ser tão popular até vinte anos atrás, também faz pouco tempo que essas minorias finalmente estão conseguindo se fazer ouvir, sem ser por meio de protestos turbulentos em grandes cidades. 

Mas no fim das contas, o Oscar é sempre muito mais lembrado pelas tretas, polêmicas e confusões do que pelos filmes em si. E não é de hoje.

Tretas, polêmicas e confusões no Oscar

• A premiação de 1938 entrou para a história porque a atriz vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante, Alice Brady, torceu o tornozelo dias antes e não pode ir a cerimônia receber o prêmio. Quando foi anunciada como vencedora, um homem desconhecido subiu ao palco, recebeu a estatueta em nome da atriz e foi embora. E até hoje nem a atriz, nem a Academia e nem ninguém sabe quem é o tal homem, o ilustre desconhecido que levou um Oscar pra casa.

• Já em 1973 foi Marlon Brando que não compareceu para receber a sua estatueta. Ele fora indicado como melhor ator por seu papel em O Poderoso Chefão e não foi à cerimônia. Mandou em seu lugar uma jovem ativista dos povos nativos norte-americanos, para, caso ele vencesse, ela subisse ao palco em seu lugar para receber o prêmio e discursar sobre o descaso que os índios sofriam por parte da indústria cinematográfica e da sociedade como um todo. E deu certo. Ele venceu e a garota discursou entre vaias e aplausos.

• Em 1985 ficou nas mãos do ator e diretor Laurence Olivier anunciar os indicados e o vencedor da categoria mais importante da noite: Melhor Filme. Acontece que ele ficou meio confuso e emocionado com a situação toda e subiu ao palco e já abriu o envelope e anunciou o vencedor, sem sequer mencionar os demais indicados.

• Em 1998, se já tivesse internet e redes sociais, quem iria virar meme com certeza seria a Kate Winslet. Ela era disparada a favorita a ganhar a estatueta de melhor atriz, por seu papel em Titanic. Mas quem acabou ganhando foi a Helen Hunt, pela sua atuação encantadora no excelente filme Melhor Impossível. No momento em que o nome de Helen Hunt é anunciado, tem uma câmera voltada para Winslet que captura toda a sua surpresa e decepção. É uma imagem impagável! 

Mas foi depois da era Facebook e Twitter que as coisas realmente mudaram. A começar pelo meme mais duradouro do Oscar: Leonardo DiCaprio. O ator enfileirava grandes papéis, indicações, mas Oscar mesmo, que é bom, nada. A internet se ligou nisso e não perdoou. Foram bons dois ou três anos em que, na época do Oscar, éramos bombardeados com memes hilários do DiCaprio sem Oscar. Mas tudo acabou em 2016, quando ele levou pra casa o Oscar por sua atuação em O Regresso, e junto levou todos aqueles memes maravilhosos. 

Também viralizou absurdamente a selfie inacreditável da apresentadora Ellen Degeneres, que foi a mestre de cerimônia do Oscar de 2014. Ela foi para a plateia e tirou uma selfie onde aparecem Angelina Jolie, Brad Pitt, Lupita Nyong’o, Meryl Streep, Jennifer Lawrence, Bradley Cooper, Julia Roberts… só não apareceu o DiCaprio, que ainda não tinha Oscar na época.

Por falar na Jennifer Lawrence, ela protagonizou um meme memorável um ano antes. Em 2013 ela venceu a estatueta de melhor atriz pelo seu papel em O Lado Bom da Vida. Mas ao subir os degraus para o palco, ela tropeçou na barra do próprio vestido, um Dior caríssimo, diga-se, e levou um tombaço! Mas se levantou com simpatia e bom humor e recebeu o prêmio numa boa.

Em 2017 uma situação super constrangedora também viralizou e rendeu muitos memes. Warren Beatty e Faye Dunaway eram os encarregados de anunciar o vencedor da categoria Melhor Filme naquele ano. Por algum motivo, o envelope errado acabou nas mãos deles. Ali constava o nome da atriz Emma Stone, que havia vencido o prêmio de melhor atriz pelo filme La La Land. Sem pestanejar, o casal anuncia então, La La Land como vencedor. A turma responsável pelo filme já estava no palco comemorando quando o pessoal da Academia veio anunciar o equívoco. O filme vencedor era Moonlight (realmente bem melhor que La La Land). E foi aquele climão delícia! 

E esses são só alguns exemplos, tem muitos outros. Mas convenhamos, o Oscar é sobre premiar bons filmes! E é claro que inúmeras premiações questionáveis já aconteceram e geraram muita discussão. Só vou dar um exemplo aqui pra você entender:

Em 1977 cinco filmes concorriam a melhor filme:

  • Taxi Driver
  • Rede de Intrigas
  • Todos os Homens do Presidente
  • O Caminho para a Glória
  • Rocky Um Lutador

Aí todo mundo pensa, a disputa mesmo foi entre os três primeiros, é óbvio! São três baita clássicos do cinema. Pois é. Mas quem ganhou o Oscar de melhor filme foi Rocky, Um Lutador. Sim aquele mesmo, do Stallone lutando boxe! Tudo bem, o filme é bem legal… mas ganhar de Taxi Driver, passar por cima do roteiro incrível de Todos os Homens do Presidente e das atuações de Rede de Intrigas? É um pouco demais, né… Então, pra finalizar este post de maneira justa, ponderada e imparcial, fizemos duas listas: Top 5 Filmes que Mereceram Ganhar o Oscar e Top 5 Filmes que Mereciam, Mas Não Ganharam o Oscar. 

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Top 5 Filmes que Mereceram Ganhar o Oscar 

  • The Godfather (O Poderoso Chefão) – 1972 
  • Amadeus (1984) 
  • Platoon (1987) 
  • American Beauty (Beleza Americana)- 1999 
  • No Country For Old Men (Onde os Fracos Não Tem Vez) – 2007 

Top 5 Filmes que Mereciam, mas Não Ganharam o Oscar 

  • The Graduate (A Primeira Noite de Um Homem) – 1967 
  • A Clockwork Orange (Laranja Mecânica) – 1971 
  • The Color Purple (A Cor Púrpura) – 1985 
  • Goodfellas (Os Bons Companheiros) – 1990 
  • Pulp Fiction – 1994 
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E assim, finalizamos este post nada controverso. Um texto sem tombos, envelopes trocados, ou tapas na cara. Em compensação também não temos uma selfie descoladíssima repleta de atrizes e atores famosões. Mas tudo bem, porque o que não falta na Strip Me é estilo e elegância com camisetas das mais variadas estampas! Na coleção de cinema e séries você encontra os melhores filmes em estampas incríveis, isso sem falar nas camisetas de música, arte, cultura pop, comportamento… tem de tudo! Fica esperto nos nossos lançamentos e visite a nossa loja

Vai fundo! 

Para ouvir: Uma playlist com as melhores canções que já levaram o Oscar de Melhor Canção Original. Claro que uma ou outra a gente escolheu uma versão diferente da original, pra dar um sabor a mais nessa playlist! Top 10 tracks Oscar Best Original Songs 

A Nação de Caramelo

A Nação de Caramelo

De onde viemos? Para onde vamos? Essas perguntas que desde sempre estiveram presente na filosofia humana permanecem sem uma resposta concreta e definitiva. Mas tem uma coisa que é certeza absoluta. Não importa de onde viemos e para onde vamos, com certeza sempre estivemos, e sempre estaremos, acompanhados de alguns cachorrinhos. A arqueologia já comprovou que desde que que os seres humanos começaram a viver em grupo, se estabelecendo em tribos e etc, os cachorros já estavam ali no meio. Claro, não eram como são hoje, se assemelhavam muito mais aos lobos e tal. Mas o fato é que, quando o homem inventou a roda, já tinha uma cachorrada em volta latindo e tentando mordê-la. 

Falando sério, nossa relação com os cães é muito antiga. E assim como nós, seres humanos, evoluímos com o passar dos milênios, os doguinhos também. E muito da evolução deles foi por nossa causa. À medida que os seres humanos se esforçavam para domesticar os cães, eles foram se adaptando a novas rotinas, hábitos alimentares e, principalmente, sendo induzidos a se reproduzir com outras raças. Sim, porque as raças que hoje chamamos de pura, em algum momento foram um cruzamento de raças diferentes. Por exemplo, você pode ter um boxer e dizer que ele é de raça pura, pois os pais e os avós dele também eram boxers. Só que o boxer é um cruzamento de bullenbeisser, uma raça comum na Alemanha, com o bulldog inglês. E o bullenbeissere o bulldog também se originaram de outras misturas de raças. Enfim. Não dá pra se dizer que existe uma raça original que originou todas as outras, até porque, desde sempre, os cães se adaptam ao habitat em que vivem.  

E vamos combinar que esse negócio de raça pura de cachorro é legal até certo ponto, né? São muitos padrões a serem seguidos, numa prática que, na maioria das vezes acaba fazendo com que os cães sejam vistos só como um produto, vira mercado. É só você dar uma pesquisada aí em qualquer raça de cachorro e procurar por um filhote que seja de raça pura. Os filhotes são vendidos por valores altíssimos! E sem falar que a maioria das raças puras de cães fazem com que os animais sejam mais suscetíveis a doenças. Afinal de contas, o bom e velho Darwin já deixou claro que praticamente todas as espécies de animais instintivamente cruzam suas raças, para que as características mais fortes de cada uma predomine, resultando num bichinho mais apto a sobreviver. Desta forma, finalmente chegamos no ponto central deste texto. 

Todo mundo sabe que não existe um cachorro mais esperto, mais saudável, mais companheiro, mais resistente, mais inteligente, mais amoroso, mais carismático, mais… tudo, do que o nosso Vira Lata Caramelo! Não é à toa que essa raça inconfundível, justamente por ser indefinida, virou símbolo máximo desta nação! Pelo que já foi dito até aqui, já deu pra sacar que é impossível cravar de quais raças o nosso amado Caramelo se origina. É uma evolução natural, que vem de muito tempo. Se a gente voltar muito no tempo, pra época das civilizações pré-colombianas na América, vamos encontrar entre os povos Maia, Azteca e Inca cães da raça Xoloitzcuintle (nome este dado pelos Aztecas, inclusive). Um cachorro que lembra um pouco o galgo greyhound, mas com a peculiaridade de praticamente não ter pelo. Ainda hoje essa raça é muito popular no México, é praticamente o Caramelo deles. É muito provável que essa raça, foi se misturando a outras trazidas pelos europeus, se adaptando a diferentes habitats e etc. Cientificamente, é possível afirmar que cães como o Caramelo reúnem as principais características das mais diferentes raças, como tamanho mediano, cabeça arredondada, focinho levemente alongado, facilidade de aprendizado, se não tem uma casa e um humano pra chamar de seu, procura andar em bandos e tem a pelagem que varia entre o preto e o caramelo. 

Aliás, a coloração do pelo é uma parada bem interessante. A cor do pelo dos cachorros tem ligação com o sistema nervoso. Originalmente a cor da pelagem de cães e lobos é preta ou cinza. À medida que os cães foram sendo domesticados e se tornando mais dóceis, a coloração do pelo foi clareando e surgindo variações, tornando-se normal surgirem cães malhados e de coloração marrom. Já nos tempos modernos, isso se intensificou com essa busca dos seres humanos por raças mais puras. Ou seja, mais um ponto positivo aí pro nosso insubstituível Caramelo, que, por ter essa cor linda da pelagem, já dá pra sacar que é um cãozinho parceiraço, daqueles que não tem tempo ruim! 

De acordo com estudos, essas mudanças todas e a evolução do lobo para o cachorro, aconteceu quando os humanos passaram a escolher os lobos mais dóceis e tolerantes ao estresse para conviver com eles. Nada mais justo, né… tem que ser um bicho muito tolerante mesmo pra aguentar viver com essa gentinha destemperada que é a humanidade. E não é só aguentar viver, eles ainda conseguem amar a gente! É impressionante! Com toda a razão e mérito os cães tem a alcunha de “melhor amigo do homem”. Alcunha esta que Vinícius de Moraes ebriamente complementou na célebre frase: “Se o cachorro é o melhor amigo do homem, o uísque é o cachorro engarrafado!” 

Mas tem uma coisa que precisa ser dita. O Caramelo só é o que é hoje em dia porque a gente vive uma sociedade bem irresponsável com relação aos animais. Claro, já foi bem pior. Tipo 30, 40 anos atrás. Nos anos 80 era normal ouvir dizer que um vizinho que não queria mais ter cachorro em casa, colocou o bicho no carro, dirigiu até um bairro afastado, pôs o cachorro pra fora e voltou pra casa. Esses abandonos foram fazendo com que animais de diferentes raças fossem cruzando indiscriminadamente nas ruas, vivendo em bando e fuçando em lixos, que é de onde vem o termo “vira-lata”. Atualmente ainda tem muito cachorrinho abandonado pelas ruas, mas pelo menos agora tem várias ONGs que fazem um trampo muito legal coletando, cuidando, alimentando esses doguinhos e deixando eles no esquema para serem adotados. Então, se você tá aí pensando em ter um cachorro em casa, desencana de comprar e adota um! 

O nosso imbatível Caramelo já virou símbolo da cultura pop! Está em todo o canto da internet, onde é sempre visto com ternura, reverenciado e aclamado. Obviamente ele também está na Strip Me, ilustrando duas estampas imperdíveis! Mas a nossa relação, não só com o Caramelo, mas com os animais em geral, vai muito além das estampas nas camisetas! A Strip Me colabora com algumas ONGs de proteção aos animais, bem como de combate à fome. Quando você faz a compra da sua camiseta, pode optar por qual causa quer que a gente ajude, e uma parte do valor da camiseta é doado para uma dessas ONGs, sem acréscimo nenhum no valor que você está pagando, é claro. Então vai lá na nossa loja, dá uma conferida nos lançamentos, nas estampas de cinema, arte, música, cultura pop, compre a sua camiseta e faça com que os Caramelos finalmente possam sentir orgulho de nós, reles seres humanos. 

Vai fundo! 

Para ouvir: Uma playlist deliciosa, cheio de lambeijos! 10 canções que foram escritas de seus donos artistas para seus amados cãezinhos. E tem música ali que você nem imaginava que era feita pra cachorro! Top 10 tracks músicas pra cachorro! 

Para assistir: Olha, eu podia te recomendar aqui um vídeo muito legal do Atila Iamarino falando sobre a origem dos Caramelos, ou algum filme do tipo Marley e Eu… mas quando eu penso em assistir alguma coisa relacionada a cachorro, eu só consigo pensar no clássico da Sessão da Tarde K9: Um Policial Bom Pra Cachorro. É um filme divertidíssimo, com o Jim Belushi solto, atuando numa canastrice deliciosa! O filme é de 1989 e dirigido pelo Rod Daniel. Vale a pena conferir! Tem no Youtube!

100% de Aproveitamento no Lollapalooza 2022

100% de Aproveitamento no Lollapalooza 2022

Tá chegando! Semana que vem vai rolar mais uma edição do nosso querido Lollapalooza! O festival de música mais descolado que este país já viu acontece nos dias 25, 26 e 27 de março no Autódromo de Interlagos, na cidade de São Paulo. Depois de 2 anos dentro de casa, tá todo mundo na pilha de curtir uns rolês, ainda mais no naipe do Lolla. E como barulho, diversão e arte é o que não falta no Lollapalooza, nada mais justo do que a Strip Me se apresentar pra dar aquelas dicas quentes pra você aproveitar cada segundo desse rolê com conforto, disposição e se mantendo bem longe de qualquer perrengue! Se liga! 

Começamos com a parte mais chatinha, mas que precisa ser falada. Ainda que não haja mais a obrigatoriedade de usar máscara em lugares abertos, o uso da máscara é uma ótima ideia. Afinal, as coisas estão voltando ao normal, mas corona ainda está saltitando por aí, ainda tem gente sendo internada e etc. É bom se cuidar, né? Então, leva umas 3 máscaras, porque você vai suar bastante. E leva também um frasquinho de álcool gel. Outra coisa fundamental é não esquecer de jeito nenhum seu comprovante de vacinação. Ele tem que ser apresentado junto do ingresso, para você poder entrar no evento. 

Pensando no seu conforto, a primeira coisa é evitar levar mochila ou bolsas grandes, que vão ocupar espaço, você pode acabar querendo levar coisas demais e ficar carregando peso desnecessário, além de se tornar um estorvo na hora de curtir os shows e pular loucamente ao som da sua música favorita. A dica aqui é levar uma bolsa pequena com alça comprida ou então a famigerada pochete. Porque o que você vai realmente precisar levar é seu celular, um carregador portátil, seu documento, dinheiro e cartão de crédito, máscaras, um frasquinho de álcool gel, um protetor solar e uma barrinha de cereal. Tudo coisa pequena e leve. Além do mais esse lance de levar mochila e bolsas grandes varia de festival pra festival. Tem uns que não permitem. O Lolla, especificamente, libera a entrada, mas não tem guarda volumes, ou seja, você tem que ficar carregando o tempo todo. A mochila serviria se o festival permitisse, por exemplo, de as pessoas entrarem com garrafas de água e tal. Mas não é o caso. Se você aparecer na catraca com uma garrafinha de água que seja, vão te mandar jogar fora ou beber tudo antes de entrar. 

Apesar disso, se hidratar é uma das dicas mais importantes. Tá fazendo um calorão e você vai ficar perambulando por ali o dia todo. Tomar uma cervejinha curtindo um belo show é uma delícia e a gente recomenda que você o faça! Mas capricha na água também, vai intercalando. Assim como a água e a cerveja, você vai precisar comprar comida. Então, duas dicas essenciais neste aspecto são: leve uma quantidade de dinheiro trocado, em notas pequenas, para não precisar ficar esperando troco, e também compre uma quantidade maior de fichas do que você quer consumir naquele momento. Assim, você evita pegar a fila do caixa várias vezes e vai direto pegar o que você quer comer ou beber. Outra coisa importante é se ligar no clima. Um dia antes de ir pro festival dá uma conferida na previsão do tempo. O Tom Jobim já cantou que são as águas de março que fecham o verão, né? Então, pode ser que chova. Neste caso, leva uma capa de chuva. Se a previsão for de sol, lambuza esse corpinho de filtro solar sem medo e ser feliz! 

Pra curtir os shows com plenitude, se programe. Faz uma listinha dos shows que você mais quer ver. No site do Lolla já tem os horários de cada show. Você vai precisar andar de um lugar para o outro, e os palcos não são tão pertinho um do outro. Então, além de elencar suas prioridades entre as atrações, também é boa ideia ter um mapa de toda a área do local e baixar o app do festival, que vai te ajudar a se localizar. Outra dica sobre os shows em particular é: aproveite o show! Lembre-se que tem pelo menos uns três canais de TV filmando e transmitindo tudo! Desencana de ficar fazendo centenas de vídeos e fotos e assista o show! A propósito, cabe aqui dar algumas dicas de shows que vão rolar no Lolla esse ano que vale a pena se programar pra ver. Na sexta feira às duas e meia da tarde, Tem o Turnstile, uma banda muito boa, pegada meio pós punk e muita presença de palco. No sábado vale conferir o show da Clarice Falcão, um show super alto astral, performático e com músicas bonitinhas e divertidas. E no domingo tem Foo Fighters, eu sei, mas imperdível mesmo é o show da Black Pumas, baita banda incrível. Show às cinco da tarde, imperdível! 

Pra finalizar as dicas, voltamos ao seu conforto e bem estar. Primeira coisa: vai de tênis! Um tênis confortável! Pensa que você vai andar muito, que lá tem grama e terra, se chover vira um lamaçal… então, nada de chinelo, sandália ou sapato de salto. Outro item de vestuário indispensável para um festival como o Lolla, claro que é uma camiseta estilosa e super confortável, com um tecido de qualidade e caimento perfeito! A Strip Me está aqui pra te oferecer tudo isso. E pra te ajudar ainda mais, sugerimos algumas estampas, pra você colar no rolê com um look imbatível São elas que ilustram este texto! Tem de tudo! Tem as good vibes pra curtir o festival na paz e amor, no maior clima californiano, tem as mais sacaninhas, que subvertem aquelas marcas famosonas, e, é claro, tem as camisetas de música, com capa de disco dos Strokes, escalação dos Foo Fighters e até aquela referência ao hip hop raiz! É pra se esbaldar nos 3 dias do Lolla no maior estilo! Então divirta-se e bom festival! 

Para conferir essas e outras estampas, dá uma olhada na nossa loja! stripme.com.br

E para mais informações sobre o Lollapalooza 2022, entra no site do festival lollapaloozabr.com

Vai fundo! 

Para ouvir: Uma playlist no capricho pra você ir esquentando os motores para o Lolla 2022! Top 10 Tracks Lolla 2022 

Para assistir: O pessoal da Strip Me obviamente não costuma perder esses rolês incríveis. Então aqui está o registro de um dos shows mais marcantes da história do Lollapalooza Brasil, e que parte da equipe da Strip Me estava ali no meio pirando com esse show inesquecível! Soundgarden no Lollapalooza Brasil 2014

Mulheres que Representam!

Mulheres que Representam!

Até parece que é chover no molhado falar que o dia da mulher é todo dia, e não só o dia 8 de março. Que as mulheres são incríveis e empoderadas. E que a luta do feminismo por um mundo de real igualdade e respeito é mais que digna, é essencial para a humanidade. Acontece que a gente tem que chover no molhado sim, todo ano nessa época. É claro que todas as afirmações acima são verdadeiras e do conhecimento de muita gente. Lógico que as coisas já melhoraram bastante, e hoje as mulheres tem muito mais voz e protagonismo. Mas ainda falta muito. Então, pra gente não deixar essas ideias passarem batidas, escolhemos 5 mulheres brilhantes, com histórias inspiradoras, pra comentar por aqui, como uma homenagem, sendo que essas 5 representam com propriedade todas as mulheres deste mundo!

Carmem Miranda 

Photo by Silver Screen Collection/Hulton Archive

Por muito tempo a Carmem Miranda não era muito bem vista aqui no Brasil. Alguns críticos e intelectuais, desses que gostam muito de criticar, mas não produzem nada original ou relevante, diziam que ela era uma artista fabricada, sem originalidade, americanizada, estereotipada, que ridicularizava a imagem do Brasil no exterior… Um absurdo, né? Por mais que ela nunca tenha sido compositora, era uma artista nata! Desde criança gostava de cantar, vivia sorrindo. Teve uma vida pobre no Rio de Janeiro, onde trabalhou desde criança. Primeiro entregando marmitas, depois vendendo gravatas e, por fim, já adolescente, numa loja de chapéus onde se encantou com o mundo da moda e desenhava figurinos. Aos 20 anos de idade gravou seu primeiro disco, no ano seguinte, 1930, vendeu quase 40 mil cópias, um sucesso estrondoso para a época. Aos 22 anos era considerada a rainha do rádio! Do rádio foi para o cinema, onde estrelou 7 filmes, sendo o último deles, Banana da Terra (1939), onde imortalizou sua imagem vestida de baiana, com turbante florido, cantando O Quê que a Baiana Tem? De Dorival Caymmi. Em 1940 foi levado para Los Angeles por um produtor norte americano que passava férias no Rio. Nos Estados Unidos virou uma estrela inquestionável! Estrelou 14 filmes, sendo a maioria como protagonista, no fim dos anos 40 ela era a mulher com o maior salário de Hollywood, conquistando até uma das cobiçadas estrelas na legendária Calçada da Fama! Ela mesma desenhava seus figurinos exuberantes e exóticos, tinha um senso estético fantástico, apenas movimentando os braços e os olhos, ela dançava como ninguém! Mas o ritmo de trabalho frenético de LA cobrou seu preço. Carmem Miranda ficou viciada em anfetaminas e acabou tendo uma parada cardíaca por conta dos estimulantes, morrendo aos 46 anos de idade, em 1955. Apesar de ter morrido em LA, ela foi velada e enterrada no Rio de Janeiro, cidade que sempre amou e considerou seu verdadeiro lar. 

Audrey Hepburn 

Photo by harpersbazaar.com

Mesmo tendo origem numa família nobre, Audrey Hepburn passou longe de ser uma bonequinha de luxo. Mas tinha tudo para ser uma grande artista. Ainda criança apaixonou-se pelo balé clássico. Por conta do trabalho do pai, a família de Audrey morou em vários países, o que deu a ela uma cultura considerável. Na adolescência, ela já falava holandês, inglês, alemão, italiano, francês e espanhol. Quando a Segunda Guerra Mundial começou, Audrey tinha apenas 10 anos. Na época morando em Arnhem, na Holanda, ela viveu os horrores da guerra quando os nazistas invadiram a Holanda. Em 1942 viu um tio ser fuzilado. Há muitos boatos, e muito poucas evidências, de que ela tenha participado ativamente na resistência holandesa. Talvez ela não tenha atuado como mensageira, percorrendo as cidades destruídas, como dizem. Mas é tido como muito possível que ela tenha feito apresentações de dança nas ruas em troca de dinheiro e ter dado esse dinheiro para a resistência, a qual seu tio fazia parte. Depois da guerra, mudou-se para a Inglaterra onde se especializou como dançarina de balé e começou a atuar em peças de teatro e filmes. Em 1952 a escritora Colette estava envolvida com a produção do musical da Broadway inspirado em seu livro, Gigi. Ela viu Hepburn se apresentando num teatro em Monte Carlo e decidiu convidá-la para atuar na Broadway. Daí foi só ladeira acima. Foram 23 filmes só em Hollywood, fora os que ela atuou na Inglaterra antes, e fora as muitas peças da Broadway. Foi uma mulher que trabalhou demais, e sempre com excelência! Ela ganhou dois Oscars e foi premiada mais de 25 vezes em premiações mundo afora. Seu papel mais emblemático, claro, foi Holly Golightly, a protagonista de Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s) lançado em 1961. No final da década de 60, quando sua careira estava no auge, ela decide parar tudo para ter filhos e se dedicar à família. Claro fez um filme aqui, outro ali, mas entre 1967 e 1993, quando ela faleceu, participou de apenas 5 filmes. Mas sua vida não se limitou a ser dona de casa, ela se engajou em muitas campanhas humanitárias e foi nomeada Embaixadora da Unicef em 1989. Audrey Hepburn foi diagnosticada com um câncer no estômago em 1992 e morreu dormindo na noite do dia 20 de janeiro de 1993. Mas certamente ela é uma dessas estrelas que nunca vai deixar de brilhar. 

Frida Kahlo 

Self-portrait with thorn necklace and hummingbird by Frida Kahlo (1940)

Ah, uma artista em sua mais pura essência! Afinal o que mais pode ser a arte senão o sofrimento travestido em cores fortes, olhares misteriosos e a vida traduzida em sentidos? Assim era Frida Kahlo! Uma mulher brilhante que encontrou ao longo de sua vida muito mais desgraças do que qualquer outra coisa, tentou domar seus sentimentos na base de pinceladas, onde foi muito bem sucedida, mas também o fez de maneira dolorosa, misturando prazer e sofrimento em relacionamentos amorosos questionáveis e abuso de remédios dos mais variados. A história de Frida é louquíssima porque tem um monte de camadas. Oriunda de uma família de classe me´dia, sua infância foi triste, testemunhando o casamento falido dos pais. Teve poliomelite, o que lhe deixou de cama por meses e lhe rendeu uma saúde frágil pro resto da vida. Quando jovem, aos 18 anos, sofreu um acidente gravíssimo, quando o ônibus em que ela estava se chocou com um bonde. Um corrimão do ônibus lhe perfurou as costas, a pélvis, o abdome e o útero, teve três vértebras e a clavícula fraturadas e seu pé direito foi quase triturado. Ainda assim ela sobreviveu, se recuperou, mas viveu o resto de seus dias com dores crônicas por todo o corpo, o que justificava (mais ou menos) o uso excessivo de analgésicos. E foi depois do acidente que Frida se dedicou a pintura, além de ler muito e se engajar politicamente. Filiou-se ao partido comunista mexicano, chegou a receber em sua casa no México, e ter um affair, dizem, o lendário político russo Leon Trotsky. Aliás, se o caso com Trotsky realmente rolou, foi uma das muitas puladas de cerca de Frida, que vivia casada desde 1929. Um casamento daqueles, entre tapas e beijos, amor e ódio. Mas o importante é que Frida Kahlo se tornou uma das artistas mais emblemáticas da história! Uniu primitivismo, folclore mexicano e surrealismo, tudo com um toque de feminismo muito peculiar, que produziu uma obra autêntica, revolucionária e influente até hoje. Frida foi encontrada morta em seu quarto no dia 13 de julho de 1954. Ela tinha 47 anos e morreu de uma possível embolia pulmonar, mas não se descarta a possibilidade de uma overdose premeditada de remédios, já que ela já tinha tentado suicídio muitas vezes ao longo da vida. Uma artista em estado bruto, tão perturbadora quanto genial. 

Amy Winehouse 

Photo by Phil Griffin

Há quem tente resumir a Amy Winehouse num clichê do tipo “rockstar que perde tudo para o vício em drogas, genialidade desperdiçada, blá blá blá…” Quem diz isso não poderia estar mais errado, cara! A história da Amy Winehouse é única, apesar de conter sim alguns clichês que, infelizmente, ainda se abatem muito sobre as mulheres, sejam elas estrelas pop ou ilustres desconhecidas. Desde muito criança, Amy já demonstrava aptidão para a arte, em especial a música. Porém era muito tímida. Quando chegou na adolescência e começou a fazer suas primeiras apresentações, como cantora, se sentia insegura, sofria de ansiedade, e isso culminou numa bulimia que não foi tratada. A bulimia e a anorexia são mais comuns do que a gente pensa, mas muito pouco se fala a respeito. Aliás, cabe aqui um parênteses pra homenagear outra mulher incrível e talentosíssima, a Karen Carpenter, que morreu muito jovem em decorrência da anorexia. Mas voltando à Amy, ela foi uma menina que sempre respirou música. Teve uns empreguinhos pra levantar uma grana, mas se realizava mesmo se apresentando em clubes de jazz em Londres. Entre 2000 e 2001 ela já era conhecida no circuito undeground de jazz da cidade e tinha uma fita demo na mão. Um amigo de um amigo conseguiu uns contatos e por fim, em 2002 ela assinou com a EMI, lançando seu primeiro disco pelo selo Island Records. O disco Frank foi lançado em 2003 e foi bem recebido pela crítica, mas sem venda expressiva. Mas o jogo virou mesmo em 2006 com o antológico disco Back to Black. Amy Winehouse se mostrou uma cantora impressionante e uma compositora sensível e bem articulada, com uma sonoridade super plural. E é em cima dessa obra, curta, mas irretocável, que Amy Winehuse se imortalizou. Todo mundo sabe das tretas do casamento conturbado dela, dos vícios em drogas, dos bafões estampados nos tablóides britânicos. Mas, cara, essa mulher revigorou a música pop, revolucionou o R&B moderno e é modelo até hoje como estética fashion. A Amy Winehouse é f*d@, e para sempre será! 

Elza Soares 

Photo by Daniel Barboza

Por falar em música e mulher f*d@, a gente finaliza essa lista com uma das mulheres mais emblemáticas da história moderna do Brasil. Nascida Elza Gomes da Conceição no Rio de Janeiro em em 23 de junho de 1930, Elza Soares conseguiu traduzir toda uma vida em música. Amores, tragédias familiares, pobreza, racismo… tá tudo lá, em mais de 60 anos de carreira musical. Logo na adolescência Elza já sentia na pele negra a dureza de ser mulher. Após ser abusada sexualmente por um “amigo” de seu pai, ela foi obrigada a se casar com esse “amigo” aos 13 anos de idade, para ter sua honra de mulher (vulgo virgindade) limpa. E, é lógico que depois de casada, vieram mais abusos e violência doméstica. Teve seu primeiro filho aos 14 anos. Com 15 anos viu seu segundo filho morrer de fome… olha a vida da Elza Soares dava um texto enorme! Enfim. O tal “amigo” finalmente morreu de tuberculose quando ela tinha 21 anos. Foi quando se viu livre para tentar realizar seu sonho: ser cantora. Vale lembrar que desde adolescente ela já se arriscava a compor umas canções. A entrada de Elza Soares no showbiz é revelador. Vestida humildemente, com um penteado todo troncho, ela se apresentou no programa de calouros de Ary Barroso. Quando a viu, o velho maestro, com bom humor perguntou: “De que planeta você veio, minha filha?”. Ela respondeu enfática: “Do mesmo planeta que o senhor, Seu Ary. Do planeta Fome.”. E é lógico que ela cantou, ganhou nota máxima e dali pra começar a gravar discos e etc, foi um pulo. Em 1962 ela já tinha uma carreira musical bem sucedida quando conheceu o craque responsável pela conquista da primeira Copa do Mundo do Brasil, o jogador Garrincha. Os dois começaram a namorar e Elza quase perdeu sua carreira de cantora, já que Garrincha abandonou sua então esposa para ficar com Elza. O público, que adorava Garrincha, começou a perseguir Elza acusando-a de destruir o casamento do jogador. Olha, foi um casamento muito conturbado. Anos depois, já morando juntos, Garrincha sofre um acidente de carro onde a mãe de Elza, que estava junto com ele, acaba morrendo. Ele entra em depressão, começa a beber muito e acaba por abandonar o futebol. Com o alcoolismo, vem a violência doméstica, o ciúmes exagerado e uma cirrose hepática que o matou em 1983. Elza segue a vida sempre cantando, gravando discos, fazendo shows… e sempre se reinventando, aglutinando novos gêneros musicais. Cantou samba, jazz, soul, funk, R&B, bossa nova, rock e até hip hop. Ela nunca parou de fazer música! Ela tem 33 discos gravados entre 1960 e 2021, sem falar nos 3 discos ao vivo e nas 7 coletâneas. Elza Soares morreu de causas naturais no dia 20 de janeiro de 2022, aos 91 anos de idade. Por coincidência, 39 anos depois, exatamente no mesmo dia que morreu Garrincha, que apesar de tudo, foi seu grande amor. Olha, a Elza Soares realmente é uma das representantes mais genuínas das mulheres não só no Brasil, mas no mundo. 

É impressionante! A vida de cada uma dessas 5 mulheres daria um livro. Resumí-las a um parágrafo é tarefa inglória. Mas a ideia é justamente que você queira saber mais e vá ler, assistir filmes, documentários… conhecer a obras de cada uma delas! Na real a gente sabe que a vida de toda mulher certamente daria um livro incrível, cheio de emoções e atitude, coragem, trabalho, ousadia e força! O dia 8 de março existe pra gente lembrar disso e entender de uma vez que igualdade não é só dividir a conta do bar, ter salário igual ou lavar uma louça no lugar dela de vez em quando. Essa igualdade tem a ver com respeito, com humanidade e sensatez. E é lógico que esses valores estão impregnados do DNA da Strip Me, que sempre celebra a diversidade, a igualdade, a responsabilidade, tudo encharcado de muito barulho, diversão e arte! Então confere lá na nossa loja os lançamentos e as estampas de arte, cinema, música, cultura pop e muito mais! 

Vai fundo! 

Para ouvir: Aquela playlist 100% Girl Power pra você curtir a semana da mulher! Girl Power Top 10 tracks

Para assistir: Tem muitos filmes excelentes sobre grandes mulheres, de A Cor Púrpura a Thelma & Louise. Mas hoje recomendamos um filme que não recebeu tanta atenção do grande público, mas é um filmaço, com uma fotogrfia linda, um roteiro forte e bem construído e uma atuação intensa da ótima atriz Reese Whiterspoon. É o filme Wild, lançado em 2014, dirigido pelo Jean-Marc Vallée, roteiro do Nick Hornby e uma história incrível de uma mulher que resolve atravessar os Estados Unidos a pé para tentar se recuperar de alguns traumas pessoais. É um filmaço! 

Para ler: Uma leitura tão deliciosa quanto fundamental é a excelente autobiografia da atriz Fernanda Montenegro! No livro Prólogo, Ato, Epílogo: Memórias de Fernanda Montenegro, ela canta com delicadeza e fluidez toda a sua história, que é cheia de momentos interessantíssimos! Mais uma história de uma mulher com M maiúsculo que merece ser lida. 

Vida Digital

Vida Digital

Todas as barreiras já foram quebradas. Não tem mais aquela conversa que rede social, smartphone e ter uma vida digital é coisa de jovem. Da criancinha ao senhorzinho que passou dos 80 anos, todo mundo já está habituado a ter um smartphone na mão e curte postar uma foto da caneca de café que está tomando enquanto espera o Uber chegar. Na real, já quebramos várias outras barreiras, fases que não fazem mais sentido. Ninguém aguenta mais aquele papo de “quando eu cheguei isso era tudo mato”. Isso não tem mais importância nenhuma. 

Hoje em dia todo mundo acaba tendo uma vida digital ativa, quer queira, quer não. E não se trata só de ter um perfil no Instagram. O celular se faz cada dia mais necessário. Facilita o seu transporte, você faz pagamentos sem precisar ter dinheiro nem cartão de crédito à mão, se comunica por voz, vídeo ou mensagem escrita, se man´tém informado e até se distrai jogando algum joguinho. Mesmo as pessoas que eram mais avessas à tecnologia e se recusavam a ter um celular já estão dando o braço a torcer. Mas é claro! Imagine! Hoje em dia se você marca uma consulta com um dentista, com certeza ele vai dizer que a consulta será confirmada um dia antes via Whatsapp. Se você faz uma compra, o comprovante ou a nota fiscal lhe é enviada ou por e-mail ou por SMS. Enfim, vai ficando cada vez mais difícil viver sem ter um celular e estar conectado. 

Chega a ser engraçado ouvir aquela conversa de um pessoal mais velho dizendo que a vida era muito melhor antigamente. Com certeza devia ser uma vida mais simples, inegável. Mas imagina se era melhor uma época em que, se você precisasse falar com uma pessoa que está numa cidade a, digamos, 200 quilômetros de distância, você teria que fazer uma ligação para uma central telefônica, que lhe colocaria em espera, para completar a ligação para a outra cidade e depois repassar para você. Nessa brincadeira, já passou mais de meia hora. Até a década de 70, ou seja só 50 anos atrás, era assim que funcionava. Imagina ligar para outro país então! Ou então, falando em outro país, imagine que você é um jornalista correspondente, que está cobrindo uma guerra na África e precisa mandar uma reportagem urgente para ser publicada no Brasil sobre os conflitos. Você teria que mandar o texto por fax, para ser redigido na redação do jornal, ou enviar por telégrafo. E se tivesse fotografias, os filmes teriam que ser enviados de avião, chegando só dois ou três dias depois, para ainda serem revelados. Até o início dos anos 90, só 30 anos atrás, era assim a vida de um jornalista. 

O lance das redes sociais é cada vez mais uma coisa a ser discutida, porque influencia a vida de todo mundo de maneira muito relevante. No começo era só curtição. Conhecer gente, reencontrar aquele crush da época do colégio, falar mal dos outros, postar clipes de músicas muito boas ou muito toscas e tomar uns spoilers na cara da série que você está vendo. Hoje em dia a parada já virou coisa séria. É business, você compra e vende coisas, empresas usam Instagram e Facebook para conhecer melhor o seu perfil antes de te contratar e, cada vez mais, a política se infiltra nesse mundo e usa como ferramenta para, não só fazer campanha a favor de um candidato, como pode disseminar notícias falsas sobre seus adversários. Mas não é por isso que vamos desencanar, apagar todos os perfis das redes sociais e viver como monges, né? O importante mesmo é ficar esperto em tudo isso, denunciar quando for preciso e usar com responsabilidade as redes sociais, como um veículo de expressão livre. Até porque, fora esse lado político, as redes sociais são massa porque além da possibilidade de você vender aquele violão velho que tá encostado pegando poeira ou comprar uma bike pra começar a dar umas pedaladas, você pode divulgar seus trampos, postar vídeos da sua banda, publicar textos, ou simplesmente anunciar que você oferece determinado serviço. 

Isso tudo é pra dizer que não importa que idade você tenha. O lance é viver o presente! Se adaptar e aproveitar ao máximo tudo que a vida digital nos oferece de bom. Tá tudo aí, na ponta dos seus dedos! Você pode fazer uma chamada de vídeo em tempo real com sua amiga que mora no Canadá, você pode chamar um Uber pra ir pessoalmente dar um abraço em quem você ama, se quer ficar em casa, você tem uma imensidão de opções de séries e filmes pra assistir nos streamings da vida, e ainda pode pedir um ranguinho delícia pra acompanhar! Você pode fazer um grupo no Whatsapp e organizar aquela festona com a turma, e já criar uma playlist matadora no Spotify pra bombar na festa. Você pode botar pra foras tuas alegrias e frustrações escrevendo sua opinião livremente, lembrando sempre que toda liberdade tem limites, é claro. Você pode ter esquecido a carteira em casa, mas consegue, com o celular, pagar por uma garrafa de água se precisar, é só fazer um pix. Eita mundo bão!

É claro que o mundo, e a vida online , digital, ainda tem muitos problemas a serem discutidos, enfrentados e resolvidos. Mas com certeza é um mundo melhor, mais prático e mais moderno. A Strip Me está sempre ligada nesse mundo moderno e conectado. Tanto que estamos cada vez mais próximos de nossos clientes, trocando ideias e experiências, além de facilitar a compra de camisetas que são verdadeiros manifestos deste mundo plural, orgânico e digital, cheio de barulho, diversão e ate, em que vivemos. Por isso temos toda uma coleção voltada para a vida digital, mas também tem estampas de música, cinema, arte, cultura pop e muito mais. Confere na nossa loja

Vai fundo! 

Para ouvir: Selecionamos uma lista com músicas que falam sobre modernidade e tecnologia, que além da temática, são grandes canções! Vida Digital Top 10 tracks

Para assistir: Indo um pouco para o lado sombrio das redes sociais, vale muito a pena assistir o filme Rede de ódio (título original: The Hater) um filme polonês lançado em 2020, produzido pela Netflix e dirigido por Jan Komasa. Uma história instigante sobre um garoto que começa a trabalhar como social media em assessorias de imprensa e vai cavando fundo no mundo de bullyng, fake news e outras drogas! Filme muito bom! 

100 ANOS DA SAM-SP: DE LÁ PRA CÁ

100 ANOS DA SAM-SP: DE LÁ PRA CÁ

Não há limites para a arte! Uma vez revelada sua verdadeira voz, reconhecida sua mais pura personalidade, evidenciada sua força e originalidade, a arte se espalha contagiosamente, inspira artistas a se arriscar, a criar, dar vida àquilo que nuca foi feito antes. Neste quarto e último texto homenageando os 100 anos da Semana de Arte Moderna de São Paulo, vamos entender como o movimento modernista, que começou a tomar forma na virada da década de 1910 para 1920, realizou a Semana de Arte Moderna em 1922 e se consolidou em 1928 encontrando sua mais pura personalidade, foi fundamental para todas as expressões artísticas que viriam a seguir no Brasil. A Semana de Arte Moderna de 1922 acabou sendo o farol que guiou, e ainda guia, muitos artistas brasileiros a encontrar sua própria voz, sua personalidade. 

O combo de 1928, Manifesto Antropofágico + Abaporu + Macunaíma, realmente acendeu a luz da identidade artística essencialmente brasileira. Artistas contemporâneos a Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Mário de Andrade se reinventaram. Em especial na literatura, muitas obras únicas e geniais foram concebidas a partir de 1930. Ganham notoriedade nomes como Jorge Amado, Graciliano Ramos, Cecília Meirelles, Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiros, José Lins do Rego, Mário Quintana, Érico Veríssimo e, o maior de todos e verdadeiro alquimista da língua portuguesa, João Guimarães Rosa. Guimarães Rosa é tão importante porque é a mais evidente e brilhante síntese da metáfora antropofágica. Nascido em 27 de junho de 1908, teve uma infância tranquila no interior de Minas Gerais. Sempre afeito a leitura, ainda criança dizia que estudava por diversão. Fez faculdade de medicina, profissão que exerceu por muito tempo, mas sempre escrevendo nas horas vagas. Em meados da década de 1930 passou no concurso do Itamaraty e tornou-se diplomata. Atuou como cônsul brasileiro na Alemanha entre 1938 e 1942. Na embaixada do Brasil em Hamburgo ele conheceu e logo se casou com Aracy de Carvalho, uma mulher fantástica, funcionária da embaixada brasileira, que entrou para história como heroína ajudando judeus a escapar das garras do nazismo fugindo para o Brasil, emitindo muito mais vistos do que as cotas permitidas pelo governo. Em 1946, já de volta ao Brasil, ele lança Sagarana, seu segundo livro e o primeiro a já evidenciar uma linguagem moderna. Mas foi em 1956 que ele lança sua grande obra: Grande Sertão: Veredas! Um épico que captura a alma do regionalismo brasileiro, como só Mário de Andrade foi capaz em Macunaíma. Mas Guimarães Rosa vai além criando uma linguagem totalmente nova, criando palavras e impondo uma narrativa que preza mais pela fluidez do que pelo padrão gramatical vigente. Antropofagia pura! Numa entrevista, ele chegou a declarar o seguinte: “Eu falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituano, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do checo, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional.”. Ele faleceu no dia 19 de novembro de 1967, algumas semanas depois de ser indicado ao Prêmio Nobel da Literatura e apenas 3 dias depois de assumir sua cadeira na Academia Brasileira de Letras, ocasião em que discursou e disse emblemática frase: “A gente morre é pra provar que viveu.”. 

Nas artes plásticas, as cores e pinceladas fortes de Anita Malfatti e os traços únicos de Tarsila do Amaral foram determinantes para as gerações das décadas de 1940 e 1950. Ismael Nery, Alfredo Volpi, Aldemir Martins e, principalmente Cândido Portinari. Portinari talvez seja o pintor de maior êxito no Brasil. Produziu em abundância e com muita qualidade. Ele nasceu no interior de São Paulo, numa fazendo de café em 29 de dezembro de 1903. Apesar do pouco estudo, ele não chegou a completar o ensino primário, tinha um talento inquestionável. Quando ele tinha 14 anos um grupo de pintores e escultores italianos passou pela cidade onde ele morava. Esses artistas viajavam de cidade em cidade fazendo restauração de pinturas, esculturas e vitrais de igrejas. Tais artistas se impressionaram muito com o talento do garoto, que acabou trabalhando com o grupo por um tempo. Depois, com 16 para 17 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro para aprimorar sua arte. Ele ingressa na Escola Nacional de Belas Artes e chama a atenção de acadêmicos e até mesmo da imprensa. Era um artista tradicional, mas à partir de 1926 toma conhecimento do modernismo e se interessa pelo estilo. Após ganhar uma bolada num concurso em 1928, ele embarca para a Europa pela primeira vez, e fica em Paris por 2 anos. Volta para o Brasil cheio de novas ideias e técnicas. Assim como Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti, Portinari pinta elementos brasileiros com muita personalidade, mas incluindo uma linguagem muito mais criativa e envolvente. Suas obras ganham prestígio mundo afora, ele chegou a fazer exposições exclusivas no legendário MoMA (Museu de Arte Moderna de New York). Ele pintava compulsivamente e acabou morrendo intoxicado pelas tintas que utilizava, pois trabalhava num ateliê pequeno e abafado, em 6 de fevereiro de 1962. 

Depois do golpe de 1930, que alçou Getúlio Vargas ao poder de maneira inconstitucional, o Brasil entraria num momento particularmente nefasto. Após algumas revoltas, em 1937 Vargas instaura o Estado Novo, a ditadura mais truculenta já vista no Brasil. Apesar de ter durado de 1937 a 1945, apenas 8 anos, ela foi mais violenta do que a ditadura de 1964, que se estendeu até 1985. Fora isso, o mundo via com terror a ascensão de Hitler e os horrores da Segunda Guerra Mundial. Mesmo depois de tanta violência, inacreditavelmente, Getúlio Vargas volta ao poder nos braços do povo, eleito democraticamente em 1951 presidente do Brasil, cargo que deixaria em 1954 após cometer suicídio. Ou seja, foi uma fase de muito medo, insegurança e incerteza. Mas a segunda metade da década de 1950 parece ter trazido novos ares e o Brasil praticamente renasceu. Em 1955 Juscelino Kubitschek assume a presidência do país abrindo o Brasil para o comércio estrangeiro, cheio de planos de desenvolvimento, incluindo mudar a capital do país para uma cidade recém planejada e construída no meio do cerrado. Em 1958 o Brasil ganha sua primeira Copa do Mundo de Futebol… enfim, uma euforia pairava o ar. No meio disso tudo alguns artistas despontavam com novas linguagens, em paralelo ao não menos novidadeiro Cinema Novo de Nelson Pereira Santos e Glauber Rocha, e à moderníssima bossa nova, gênero musical que nascia da fusão do samba com o jazz na zona sul da cidade do Rio de Janeiro. 

No meio de toda essa efervescência o jovem Hélio Oiticica se estabelecia como um dos principais artistas de um coletivo chamado Frente! Um coletivo de artistas plásticos que estudavam e promoviam exposições de arte concreta e outras vertentes da arte de vanguarda. Oiticica, já absorvendo elementos da Pop Art, começou a extrapolar a tela e a tinta para criar ambientes, o que ele chamava de arte penetrável, ou arte ambiental. Em 1964 ele se interessa pela produção de carros alegóricos das escolas de samba e acaba mergulhando naquele mundo. Foi uma experiência transformadora, que o fez acrescentar mais elementos artísticos e impregnar cada vez mais suas obras com críticas sociais. Até que o ano de 1967 chega trazendo uma nova revolução. No Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Oiticica apresenta um ambiente que mistura paisagens tropicais, elementos dos morros cariocas, a pobreza, a alegria do samba e muito mais. A obra se chama Tropicália e viria a inspirar Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros músicos a criar o mais antropofágico dos movimentos culturais brasileiros: o tropicalismo. Com uma linguagem estética moderna e pop de artistas como Antonio Peticov e a música universal e super criativa dos Mutantes o tropicalismo é o filho prodígio do modernismo e da Semana de Arte Moderna de 1922. É o Brasil e o mundo ao mesmo tempo agora, em sua mais completa tradução. 

Consequentemente, o que se seguiu de lá pra cá só reforça esse conceito de evolução da arte, que encontra na metáfora mais que perfeita do Manifesto Antropofágico o meio ideal para se reinventar, evoluir e provocar, encantar, emocionar, empolgar e existir. Vieram nomes que absorveram, misturaram, subverteram e produziram uma arte contemporânea e original como Chico Science e o Manguebeat, e o Eduardo Kobra e seu grafite revolucionário. Encerramos hoje este mês de celebração dos 100 anos da Semana de Arte Moderna de São Paulo. O momento que mudou drasticamente todos os padrões da arte no Brasil, que desencadeou uma enxurrada de obras e movimentos revolucionários. A Strip Me está sempre de olho no que há de mais novo e interessante da arte, que instiga a criar. Mas também não deixa de olhar pra trás, pra aprender e se inspirar no que é clássico e abriu caminhos. Por isso a Strip Me apresenta estampas homenageando a Semana de Arte Moderna de 1922 e também tantas outras estampas de arte, música, cinema, cultura pop, tudo que nos encanta e inspira! Uma homenagem da Strip Me a todos que fizeram parte daquela semana de muito barulho, diversão e arte no Teatro Municipal de São Paulo 100 anos atrás! 

Vai fundo!  

Para ouvir: A produção musical no início do século XX era bem limitada e essencialmente de música erudita, né. Então, ao longo desses 4 posts sobre os 100 anos da Semana de Arte Moderna, vamos caprichar numa playlist cheia de brasilidade, com o que rola de som enquanto os textos são produzidos. Uma playlist que vai crescendo a cada post, até chegar a ser um top 40 tracks! SAM-SP 1922 – Top 40 Tracks.    

Para assistir: Em 2002 a TV Cultura fez um ótimo documentário sobre a semana de Arte Moderna de 1922. Com vários depoimentos de gente que fez parte do movimento modernista, em gravações antigas, claro, é um doc que vale a pena demais ser visto! Tá completinho no Youtube.    

Para ler: Com certeza a obra mais emblemática da literatura modernista brasileira veio a ser publicada 6 anos depois da Semana de Arte Moderna. Claro, é o indispensável Macunaíma, de Mário de Andrade. Um livro delicioso, divertido e que diz muito, mas muito mesmo, sobre o Brasil de ontem, de hoje e de sempre. Leitura necessária! 

100 ANOS DA SAM-SP: A REVOLUÇÃO

100 ANOS DA SAM-SP: A REVOLUÇÃO

Tudo tem um ponto de partida, um início. O fogo no rastilho que precede a explosão. Por exemplo: Não é nenhum absurdo afirmar que se Bruce Pavitt e Jonathan Poneman não tivessem criado a Sub Pop, o grunge, movimento musical que mudou os rumos da música pop nos anos 90, não existiria. A maioria das bandas, como Nirvana, Soundgarden e Alice in Chains seriam bandas alternativas conhecidas somente no underground dos Estados Unidos. A verdadeira revolução que os discos Nevermind, Superunknow e Facelift causaram só aconteceu graças à existência da Sub Pop. Neste terceiro texto dedicado aos 100 anos da SAM-SP, a gente vai entender que a mesma coisa aconteceu com o movimento modernista brasileiro no começo do século XX. A Semana de Arte Moderna de 1922 foi considerada um marco, o ponto de ruptura, só algumas décadas depois de ter acontecido. Na época teve alguma repercussão na imprensa paulistana, um burburinho no meio artístico, que deu um novo incentivo aos artistas mais ousados. uma chancela aos artistas para realmente buscarem novos formatos, novas linguagens, novas inspirações. Os anos que sucederam a Semana de Arte Moderna de São Paulo trariam a verdadeira revolução na arte brasileira, em especial na literatura e nas artes plásticas. Revolução esta que teve como protagonistas um casal extraordinário. 

É muito importante lembrar que os artistas brasileiros, em especial os modernistas, eram totalmente influenciados pelas escolas artísticas europeias. Sim, era uma arte de vanguarda, o expressionismo, surrealismo, eram escolas que causavam a mesma repulsa nos conservadores tanto aqui no Brasil quanto no exterior. Por mais que Anita Malfatti e Di Cavalcante na pintura, Oswald de Andrade e Menotti del Picchia na literatura, imprimissem sua própria personalidade em suas obras, não só as técnicas, mas todas as referências eram estrangeiras. Faltava alguma coisa.  

Alguns meses depois da Semana de Arte Moderna ter acontecido, o escritor Oswald de Andrade partiu para a Europa, para passar uma temporada em Paris. Lá conheceu uma mulher extraordinária! Uma mulher linda e cheia de talentos! Além de muito inteligente, era uma pintora sensibilíssima e muito criativa. Ali, na Paris do final da belle époque, aquela mulher cativante vivia cercada de amigos, que eram também grandes artistas. Entre eles estavam os artistas plásticos Fernand Léger, Constantin Brâncuși, Georges Braque, Pablo Picasso e o poeta Blaise Cendras. Brasileira, essa mulher incrível reunia esses e outros artistas em sua casa em Paris, onde oferecia granes almoços, servindo feijoada, caipirinha, doce de abóbora com coco, cigarros de fumo enrolados em palha de milho e cafézinho coado na hora. Você já deve ter lido esta história aqui neste blog a um tempo atrás. É claro que estamos falando da brilhante Tarsila do Amaral

A Tarsila do Amaral nasceu numa fazenda enorme de café em Americana, interior de São Paulo. Sua família era muito rica e progressista. Ela teve uma educação invejável e foi incentivada pelos pais a seguir carreira de artista, dando a ela a oportunidade de ir à Europa frequentemente. Em 1922 ela já morava em Paris. Em fevereiro daquele ano, recebeu uma carta de sua amiga, Anita Malfatti, contando sobre o grande acontecimento da Semana de Arte Moderna em São Paulo e como os ares começavam a mudar nas artes do Brasil. No fim de 1922 ela conheceu em Paris Oswald de Andrade. Os dois se deram bem logo de cara, se apaixonaram e não tardariam a se casar. Para isso, voltaram ao Brasil em 1923, trazendo consigo o poeta Blaise Cendras para conhecer o país. Durante sua estadia no país, o poeta francês conheceu toda a turma modernista e se encantou com a efervescência da cidade de São Paulo. Mas foi uma pequena viagem para o interior de Minas Gerais que mudaria pra valer as coisas. 

Acompanhado de Oswald e Tarsila, Cendras conheceu o interior paulista e as cidades históricas mineiras. Ficou completamente estupefato com o que viu e viveu. A simplicidade poética do povo do campo, o chamado caipira, a beleza e exuberância da arte barroca de Minas Gerais, a comida inacreditavelmente deliciosa, a fauna e flora da região… O impacto foi tamanho que Cendras, numa conversa com seus amigos artistas brasileiros, fez um desabafo revelador. Ele disse que não entendia o que os brasileiros buscavam tanto na arte europeia se a própria existência do Brasil caipira era de uma riqueza inesgotável! Ele não entendia como aqueles artistas não buscavam inspiração em sua própria terra, sua própria gente, sua própria cultura! Foi um soco no estômago que abriu os olhos daquele pessoal. A revolução começara finalmente! Em 18 de março de 1924 é publicado no jornal Correio da Manhã o Manifesto da Poesia Pau Brasil, que seria mais encorpado e lançado em livro de mesmo título ainda naquele ano. Escrito por Oswald de Andrade, o texto sugere uma busca da identidade brasileira, um aceno ao primitivismo, mas com uma linguagem moderna, uma narrativa com a fluidez e liberdade do expressionismo. Os modernistas acabavam de descobrir o Brasil! 

Mas as grandes e fundamentais obras do modernismo brasileiro vão surgir somente em 1928, graças a um livro até então desconhecido escrito em 1557. Era o livro Hans Staden: Suas Viagens e Cativeiro Entre os Selvagens do Brasil. Hans Staden foi um aventureiro alemão que esteve no Brasil como explorador por duas vezes, uma em 1548, voltando para a Europa em 1549, e voltando ao Brasil em 1550. A história toda de Staden é inacreditável e merece ser lida. Nessa sua segunda viagem ao Brasil, aconteceu de tudo. Seu navio foi atacado por piratas, depois naufragou durante uma tempestade próximo a Santa Catarina, foi a pé até São Vicente, em São Paulo, uma epopeia cheia de aventuras. Até que em janeiro de 1554 ele estava na região onde hoje é a cidade de Bertioga. Praticamente na mesma semana em que o padre Manoel da Nóbrega fundava a cidade de São Paulo, do outro lado da Serra do Mar, Hans Staden foi capturado pelos índios Tamoio. Era uma tribo muito afeita à violência, desprezava os homens brancos e praticavam a antropofagia. Não eram meros canibais que comiam carne humana para matar a fome. Era um ritual eucarístico em que eles acreditavam que comendo a carne de seus prisioneiros, absorviam todas as virtudes do morto. Hans Staden viu aquilo acontecer mais de uma vez enquanto esteve preso na tribo. Ele conseguiu escapar dos índios em 1557, voltou para a Alemanha e escreveu este livro riquíssimo em detalhes sobre tudo que viveu no Brasil. 

Este livro é tão importante porque uma cópia dele, com texto original em alemão, foi adquirido em 1900, pelo barão do café Eduardo Prado, um dos paulistas mais ricos da época. Ele deu este livro para um botânico suíço que vivia no Brasil, chamado Albert Löfgren, que o traduziu para o português. Para ser editado e lançado no Brasil com o financiamento do próprio Eduardo Prado. Eduardo Prado este que era pai do Paulo Prado, o jovem e rico cafeicultor amigo dos modernistas que bancou a Semana de Arte Moderna no Teatro Municipal de São Paulo. Foi Paulo Prado que, na metade da década de 1920, notando o interesse e a busca dos modernistas, em especial Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Tarsila do Amaral, pelo Brasil profundo, deu a eles este livro. O casal Oswald e Tarsila ficaram impressionados com aquela história toda. E dali veio a inspiração para o antológico Manifesto Antropofágico e para a pintura brasileira mais icônica e importante da nossa história, o Abaporu, de Tarsila do Amaral. A saber, Abaporu em tupi significa Comedor de Gente. 

Tanto o Manifesto Antropofágico quanto o Abaporu foram lançados em 1928. No mesmo ano também foi lançado o livro Macunaíma, um verdadeiro divisor de águas na lieratura brasileira, que também foi influenciado diretamente pelo Hans Staden no sentido das tradições indígenas, mas que se misturou com a vida simples do caipira e a malandragem do brasileiro de camadas mais pobres das grandes cidades. Foram essas três obras grandiosas e geniais que realmente mudaram a maneira de se entender e de se fazer arte no Brasil. A Semana de Arte Moderna de 1922 foi o pé na porta, e as obras de Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Mário de Andrade realmente concretizaram a revolução que o modernismo tanto buscava. 

Uma história tão rica, tão interessante, tão recheada de atitude, de barulho, diversão e arte como é tudo que envolve a Semana de Arte Moderna de 1922 não poderia nunca passar em branco aqui na Strip Me! Por isso você encontra não só estampas relacionadas a este evento incrível, como muitas outras relacionadas às artes, música, cinema, cultura pop e muito mais! É só dar aquele conferida na nossa loja nos novos lançamentos

Vai fundo! 

Para ouvir: A produção musical no início do século XX era bem limitada e essencialmente de música erudita, né. Então, ao longo desses 4 posts sobre os 100 anos da Semana de Arte Moderna, vamos caprichar numa playlist cheia de brasilidade, com o que rola de som enquanto os textos são produzidos. Uma playlist que vai crescendo a cada post, até chegar a ser um top 40 tracks! SAM-SP 1922 – Top 30 Tracks.   

Para assistir: Em 2002 a TV Cultura fez um ótimo documentário sobre a semana de Arte Moderna de 1922. Com vários depoimentos de gente que fez parte do movimento modernista, em gravações antigas, claro, é um doc que vale a pena demais ser visto! Tá completinho no Youtube.   

Para ler: Com certeza a obra mais emblemática da literatura modernista brasileira veio a ser publicada 6 anos depois da Semana de Arte Moderna. Claro, é o indispensável Macunaíma, de Mário de Andrade. Um livro delicioso, divertido e que diz muito, mas muito mesmo, sobre o Brasil de ontem, de hoje e de sempre. Leitura necessária! 

100 ANOS DA SAM-SP: PÉ NA PORTA!

100 ANOS DA SAM-SP: PÉ NA PORTA!

Na semana passada você leu aqui o rebuliço que era o começo do século XX em São Paulo. Conservadores fazendo críticas, os artistas de vanguarda achando tudo chatíssimo e querendo dar uma renovada no rolê todo, o mundo recém saído de uma guerra mundial, por aqui uma república dominada pela bancada ruralista, com políticas excludentes, que só favoreciam os ricos. São Paulo se desenvolvia rapidamente com o dinheiro do café, se tornou uma cidade iluminada com a chegada da energia elétrica, o que permitiu criar-se uma fauna noturna de intelectuais endinheirados que se reuniam em bares e cafés até altas horas da noite, conspirando contra o parnasianismo, o classicismo e a chatice em geral que imperava nas artes brasileiras. E foi o artigo de Monteiro Lobato, Paranoia ou Mistificação, publicado no Estado de S. Paulo em 1917 que desencadeou uma ação mais efetiva entre o grupo de amigos de Anita Malfatti, alvo de Lobato no artigo, que destilou todo o seu desprezo pelas obras da pintora, com forte influência do surrealismo e expressionismo. Foi então que, além de Anita Malfatti, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Mário de Andrade, dentre outros artistas, passaram a se empenhar em produzir e divulgar uma arte mais contemporânea, provocadora e livre. Nesta época ainda não eram considerados modernistas, mas se auto intitulavam artistas futuristas! 

Mas demorou tanto tempo assim pra essa turma se organizar? O artigo de Monteiro Lobato foi publicado em 1917. Só 5 anos depois é que os modernistas conseguiram organizar um evento que os divulgasse amplamente? Demorou esse tempo todo sim. Mas, calma, porque muita coisa foi feita ao longo desse tempo. Um pouco antes ainda, Oswald de Andrade fez sua primeira viagem para a Europa. Voltou de Paris com o libertário texto Manifesto do Futurismo, do poeta italiano Filippo Tommaso Marinetti, embaixo do braço e disposto a implementar aquele mesmo senso de rebeldia, novidade, experimentalismo e liberdade no Brasil. No ano de 1918 ele se torna amigo muito próximo de Mário de Andrade, já que tinham em Anita Malfatti uma amiga em comum. Juntou-se á turma na mesma época o escritor Menotti del Picchia, o escultor Victor Brecheret, o pintor Di Cavalcanti e os escritores Guilherme de Almeida e Manuel Bandeira. Essa turma toda, entre 1917 e 1922 tiveram vários artigos publicados defendendo essa nova visão artística e exposições de telas e esculturas foram organizadas. 

O que viria a ser conhecido como movimento modernista tinha suas bases mais sólidas nas artes plásticas. As pinturas de Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Portinari e as esculturas de Victor Brecheret, sempre que expostas causavam muitas críticas no meio artístico e jornalístico e muita pouca atenção do público em geral. Os escritores Mario de Andrade, Menotti del Picchia e Oswald de Andrade publicavam seus artigos em periódicos insistentemente, defendendo a vanguarda da arte trazidas por eles mesmos da Europa. Foi no final de 1921 que, durante um jantar, em companhia do jovem e riquíssimo cafeicultor Paulo Prado, tiveram a ideia de fazer uma semana toda dedicada à arte moderna, com exposições e apresentações de música e leitura de textos e poesias. Paulo Prado, que não era artista, se prontificou a pedir uma ajuda a alguns de seus amigos também cafeicultores e riquíssimos, para que pudessem alugar o imponente Teatro Municipal para abrigar o evento. Já naquela noite começaram a articular ideias, pensar em que artistas participariam e etc. 

Dois fatos são muito curiosos nisso tudo. O primeiro é que Anita Malfatti precisou ser convencida a participar expondo algumas de suas telas. Depois de tanta crítica ao longo do tempo, a pioneira do expressionismo no Brasil estava cansada daquilo e não queria se expor. Ela não vinha de uma família rica, como Oswald de Andrade por exemplo, e tentava se manter longe dos holofotes, ganhando dinheiro pintando telas sob encomenda, dando aulas de pintura e etc. Sentia que participar de um evento como aquele colocaria seu nome em todos os jornais com críticas ferozes, que poderiam prejudicar sua imagem e fazer com que ela perdesse alguns trabalhos. Coube a Mario de Andrade, amigo e confidente de Anita, a missão de convencê-la. Missão esta cumprida com louvor. Outra curiosidade inacreditável é que o primeiro nome mais cotado para presidir a Semana, que seria responsável por fazer o discurso de abertura e seria uma espécie de mestre de cerimônias, era ninguém menos que Monteiro Lobato! Sim, porque apesar de todos os pesares, Lobato era amigo da maioria dos escritores modernistas. E ter Lobato na linha de frente significaria muito diante do público e da crítica especializada. Mas ele declinou o convite sem nem pensar, pois jamais pactuaria com aquele tipo de arte ultrajante (segundo ele próprio). Por sorte, de última hora, chega ao Brasil o diplomata e escritor Graça Aranha, um dos nomes mais respeitados na época, um homem rico, encantador e muito talentoso, um brasileiro que residia já há muitos anos em Paris, mas sempre vinha visitar sua terra natal. Em contato com a cultura europeia de vanguarda, Graça Aranha, ao ser convidado para presidir a semana de arte moderna de São Paulo, adorou a ideia e aceitou no ato! 

Com Paulo Prado financiando o Teatro Municipal e Graça Aranha confirmado para presidir o evento, não tinha como dar errado! E não deu mesmo. A Semana de Arte Moderna de São Paulo aconteceu de 13 a 17 de fevereiro de 1922. A programação era a seguinte: O saguão do Teatro Municipal de São Paulo ficaria aberto diariamente para visitação de uma enorme exposição com obras dos artistas Emiliano Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Zaina Aita, Ferrignac, Yan de Almeida Prado, John Graz, Vicente do Rego Monteiro, Antonio Paim Vieira, Victor Brecheret, Hildegardo Leão Velloso e Haarberg. Na noite do dia 13, uma segunda feira, a semana foi aberta com um discurso de Graça Aranha intitulado A emoção estética da arte moderna. Foi um discurso longo e bem monótono que rendeu nada mais do que aplausos protocolares. Em seguida sobe ao palco um conjunto de câmara que interpreta algumas composições de Heitor Villa-Lobos. Depois de um intervalo pro cafezinho e dar uma conferida nas obras expostas no saguão, o público retorna para que o poeta Ronald de Carvalho fizesse uma breve palestra falando sobre pintura e escultura moderna e declamando alguns versos de sua autoria. O público torceu o nariz, mas não fez muito alarde. Depois de algumas vaias, Ronald de Carvalho, espirituoso, respondeu ao público dando de ombros com indiferença: “Cada um fala com a voz que Deus lhe deu.”. A noite foi concluída com a apresentação do maestro Ernani Braga. 

A segunda noite de apresentações, na quarta-feira, dia 15 de fevereiro, não foi nada parecida com a estreia. Após a noite de segunda feira, os jornais fizeram duras críticas à exposição de obras de arte e às apresentações lítero-musicais pretensiosas. Farejando treta e algazarra, o público paulistano lotou o Municipal! Quem abre a noite é Menotti del Picchia com uma palestra sobre a literatura contemporânea. Ao exaltar uma literatura que foge dos padrões clássicos, del Picchia vai bem, mas recebe uma vaia enorme. Até que, no fim, ele anuncia que subirá ao palco Oswald de Andrade. O teatro vem abaixo, fazendo com que a vaia que del Picchia levou parecesse um abafado assobio. A vaia era descomunal. Oswald fica no palco parado por alguns minutos até que a vaia cesse. Finalmente em silêncio, ele começa a ler seu texto. E a vaia explode mais uma vez. Oswald declamou seu texto para ninguém, debaixo de vaias permanentes. Na sequência, Mario de Andrade sobe ao palco e a recepção é a mesma. Ele começa a ler com muita dificuldade. Em certo momento, ele para e espera que se faça silêncio. Quando todos param, ele diz: “Se for pra continuar assim, eu não continuo falando!” e uma gargalhada e um aplauso retumbante enchem o teatro. É feito um intervalo. Na volta das apresentações, a noite decorre com mais tranquilidade com uma apresentação de dança de Yvonne Daumerie e finalizando com um concerto de piano da pianista Guiomar Novaes, uma artista já consagrada e muito querida, a única a sair do palco sob aplausos satisfeitos. 

A noite de encerramento, na sexta-feira, dia 17 de fevereiro não foi tão movimentada. A atração principal era o compositor Heitor Villa-Lobos, que começava a ganhar notoriedade dentro e fora do Brasil. Apesar de sua formação erudita, era um músico contemporâneo, que começava a criar peças sinfônicas misturando elementos africanos e outras linguagens pouco convencionais. Entretanto, sua música era razoavelmente bem aceita. Por seu apelo popular, a noite de sexta feira foi toda dedicada à sua música, sem discursos e leituras e textos e poemas de escritores controversos, que poderiam gerar animosidade no público. Porém, o público lá estava para ver o circo pegar fogo. Quando Villa-Lobos sobe ao palco de fraque e calçando chinelos, o público desabou em vaias, acreditando ser aquela uma provocação a seja lá o que fosse. Porém, nada mais era do que uma unha encravada, ou algo parecido, que o impedia de calçar sapatos fechados. Mas com o tempo o público logo se acalmou e foi possível ouvir boa parte da apresentação de Villa-Lobos ao piano acompanhado de uma orquestra, que encerraria grandiosamente a Semana de Arte Moderna de São Paulo. 

Foi realmente um evento muito marcante e fundamental. Porém, o Brasil se daria conta disso só muito tempo depois. De imediato, a Semana de Arte Moderna causou muito falatório entre a sociedade paulistana, mas acabou dando origem a grandes obras e uma reestruturação enorme da arte no Brasil um bom tempo depois. Foi um verdadeiro pé na porta da arte moderna, que chegava pra ficar! E o que aconteceu nos meses e anos logo depois deste evento tão emblemático, você fica sabendo na semana que vem, no próximo texto deste mês, que é todo dedicado aos 100 anos da SAM-SP! Nesse meio tempo, você pode conferir as estampas especiais da Strip Me da Semana de Arte Moderna de 1922, sem falar de tantas outras estampas incríveis de arte, música, cinema, cultura pop e muito mais. Confere os lançamentos lá na nossa loja

Vai fundo! 

Para ouvir: A produção musical no início do século XX era bem limitada e essencialmente de música erudita, né. Então, ao longo desses 4 posts sobre os 100 anos da Semana de Arte Moderna, vamos caprichar numa playlist cheia de brasilidade, com o que rola de som enquanto os textos são produzidos. Uma playlist que vai crescendo a cada post, até chegar a ser um top 40 tracks! SAM-SP 1922 – Top 20 Tracks.  

Para assistir: Em 2002 a TV Cultura fez um ótimo documentário sobre a semana de Arte Moderna de 1922. Com vários depoimentos de gente que fez parte do movimento modernista, em gravações antigas, claro, é um doc que vale a pena demais ser visto! Tá completinho no Youtube.  

Para ler: Com certeza a obra mais emblemática da literatura modernista brasileira veio a ser publicada 6 anos depois da Semana de Arte Moderna. Claro, é o indispensável Macunaíma, de Mário de Andrade. Um livro delicioso, divertido e que diz muito, mas muito mesmo, sobre o Brasil de ontem, de hoje e de sempre. Leitura necessária! 

100 anos da SAM-SP: Origens

100 anos da SAM-SP: Origens

Nenhuma revolução é legítima se não passar pela arte! A gente não quer só comida, a gente quer comida, barulho diversão e arte! Nenhuma revolução é legítima se não tiver uma identidade própria muito clara! O orgulho de ser quem somos passa necessariamente pelo autoconhecimento. Nenhuma revolução é legítima se não causar consequências, se não deixar marcas permanentes! Portas da percepção abertas para tudo que é novo! Novas formas, novas cores. Novos Baianos. Deglutição tropical, antropofagia cultural. Nesta altura do campeonato, você já deve estar desconfiado, mas eu vou te confirmar. É fevereiro! E nós vamos passar todo o mês celebrando uma das mais legítimas revoluções brasileiras! A Semana de Arte Moderna de 1922, que neste mês completa 100 anos. Então se prepara! Porque vão ser quatro posts, cada um abordando um aspecto específico deste que foi, com absoluta certeza, o momento mais importante das artes no Brasil. 

É lógico que pra começar a gente precisa dar aquela geral na situação toda antes de a Semana de Arte Moderna ser idealizada e acontecer. E aqui é fundamental que a gente dê uma olhada no contexto histórico do Brasil até então. Era o começo do século XX e o Brasil tinha recentemente se tornado uma república, depois de um golpe militar todo esculhambado, mas que acabou depondo o imperador Dom Pedro II. No início da república, apesar de a cidade do Rio de Janeiro ser a capital do país, era São Paulo quem dava as cartas, pois a maior parte da renda do Brasil vinha do café, e os estados de São Paulo e Minas Gerais eram os maiores produtores dessa delícia. Você já ouviu falar na escola da república do café com leite, né? Pois então, é dessa época que estamos falando. À medida que os cafeicultores enriqueciam e acabavam por colocar quem bem entendiam nos cargos públicos, a cidade de São Paulo crescia, tornava-se cosmopolita, vibrante. E começam a pipocar pelos bares e cafés da cidade, que a partir de 1905 podiam ficar abertos até tarde da noite graças à instalação da energia elétrica, muitos intelectuais. 

Importante lembrar uma coisa aqui. As camadas sociais eram muito mais definidas no começo do século XX. Existiam os muito ricos, a classe média, que tinha uma vida confortável, e os muito pobres, essencialmente negros “livres” desde 1888, que viviam sem emprego em cortiços e barracos na periferia. Claro que já existia uma cultura popular entre os pobres, mas era tudo muito separado. Intelectuais e artistas reconhecidos eram todos de famílias ricas, jovens que estudaram na Europa e etc. As coisas só começariam a mudar e o popular se misturar com o erudito (leia-se o pobre com o rico) com a popularização do rádio, a partir da década de 1930. Isso posto, fica mais claro entender quem eram esses artistas e intelectuais que criariam o movimento modernista brasileiro e acabariam dando luz à Semana de Arte Moderna. 

Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Menotti del Picchia, Victor Brecheret, Anita Malfatti, Sérgio Millet, Di Cavalcante e tantos outros eram todos artistas e intelectuais ricos, em contato com o que havia de mais atual nas artes da Europa. Eles começaram a se reunir e debater sobre o atraso do Brasil no aspecto cultural. Realmente, o Brasil, conservador que só ele desde sempre, tinha uma literatura baseada no parnasianismo (uma escola literária que preza pelo uso mais rebuscado da língua, poesias com rimas dentro da métrica… enfim, uma chatice!), a pintura classicista, que respeita formas, cores, sombras, luz, etc, e uma música erudita baseada nos compositores clássicos europeus. Deu pra sacar que era tudo importado, né? Não existia uma linguagem genuinamente brasileira. Vá lá que na literatura já rolava o movimento primitivista, ou seja, alguns autores que olhavam para dentro do Brasil para ambientar suas ideias. Seu maior nome foi Monteiro Lobato, com seu personagem clássico Jeca Tatu. Entretanto, a linguagem de obras como a de Lobato ainda eram rebuscadas na escrita, apesar de trazer elementos brasileiros. Mas até a turma que seria conhecida no futuro como modernista trazia seus conceitos de arte de vanguarda, como o cubismo, surrealismo e etc, da Europa. 

Além de tudo, 1922 é um ponto de intersecção fundamental entre a história política e artística, que gerou mudanças essenciais para a história do Brasil como conhecemos hoje. Como já foi dito aqui, no começo do século XX era São Paulo quem dava as cartas no país. À medida que o ano de 1922 se aproximava, era preparada uma infinidade de festividades Brasil afora, pois aquele seria o ano do primeiro centenário da independência do país. E existe um aspecto muito importante da história que precisa ficar claro pra todo mundo: A história é fabricada! Os fatos chegam até nós no colégio distorcidos, exagerados, com alguns lados ocultos. A independência do Brasil é um ótimo exemplo disso. Por muito tempo após o fatídico 7 de setembro, era considerada como a data oficial da independência o dia 12 de outubro de 1822, que foi quando aconteceu a solenidade de coroação de Dom Pedro I como imperador do Brasil. O revisionismo histórico impulsionado por Dom Pedro II e pelos militares positivistas, já quase no fim do império, motivou algumas mudanças, fazendo com que alguns momentos soassem mais heroicos do que realmente foram. Assim passou-se a considerar o 7 de setembro como data oficial, mas sem grande alarde. Após a proclamação da república e São Paulo tendo seus intelectuais e milionários mandando no país, um novo revisionismo histórico passou a acontecer, ainda mais com o centenário da independência se avizinhando. Até então, a história do Brasil era essencialmente contada tendo como cenário os estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Pernambuco. São Paulo, buscando algum protagonismo na história, deu ênfase na independência ter sido proclamada às margens do Rio Ipiranga e criou a imagem dos bandeirantes como grandes heróis desbravadores, que até então não tinham esse nome e eram apenas caçadores de pedras preciosas e exterminadores de indígenas, ou seja, nada mais que uma nota de rodapé nas páginas da história. 

Com a década de 1920 florescendo, o momento era de transformação, crescimento e busca por uma identidade própria, genuinamente brasileira. Os intelectuais e artistas mais ligados a vanguarda já davam seus primeiros passos e sofriam os ataques dos conservadores. Em 1913 o escultor Lasar Segall fez uma pequena exposição com obras claramente influenciadas pelo cubismo de Pablo Picasso e Georges Braque, que foi recebida com entusiasmo por Mário de Andrade e sua turma, mas recebeu críticas pesadas da imprensa e do público em geral. Em 1917 Anita Malfatti faz sua mais famosa exposição, com telas calcadas no surrealismo e modernismo. Monteiro Lobato escreve um artigo que ficou famoso, chamado Paranoia ou Mistificação. Neste artigo, uma crítica a exposição de Malfatti, Lobato destila todo o seu desprezo por uma pretensa arte, que não segue regras, que é provocadora e de qualidade questionável. Tal artigo foi publicado no jornal O Estado de S. Paulo e é considerado o marco zero do movimento modernista. Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Menotti del Picchia, eram todos amigos e passaram a se reunir com frequência para encontrar meios de responder artigos como aquele de Monteiro Lobato, além de divulgar e enaltecer uma arte mais moderna e repudiar as artes encharcadas de conservadorismo e padrões estéticos. 

Com todas essas cartas na mesa, o ano de 1922 nasce cheio de promessas de mudanças. E se você está achando estranho não ter lido até agora o nome do Tarsila do Amaral, ou sobre o Abaporu, sobre o Macunaíma e sobre o manifesto Pau Brasil e o manifesto Antropofágico, não se desespere! Ainda tem muita história pela frente! Nos próximos textos, vamos falar sobre como foi a Semana de Arte Moderna, as obras, os textos, as músicas que rolaram no evento, como foi a recepção do público e da crítica, depois vamos falar das consequências e das principais obras modernistas e também vamos falar sobre o impacto décadas depois e como toda essa aura seria recriada nas mãos dos tropicalistas. Mas hoje nós paramos por aqui, em janeiro de 1922, quando Mário de Andrade, em uma de suas mais célebres obras, Paulicéia Desvairada, vaticina logo no prefácio: “Está fundado o Desvairismo!” 

Enquanto você espera os próximos textos, dá uma olhada nas estampas novíssimas da Strip Me sobre a Semana de Arte Moderna de 1922, isso sem falar de tantas outras sobre arte, música, cinema, cultura pop e muito mais! Confere lá na nossa loja as novidades!  

Vai fundo! 

Para ouvir: A produção musical no início do século XX era bem limitada e essencialmente de música erudita, né. Então, ao longo desses 4 posts sobre os 100 anos da Semana de Arte Moderna, vamos caprichar numa playlist cheia de brasilidade, com o que rola de som enquanto os textos são produzidos Uma playlist que vai crescendo a cada post, até chegar a ser um top 40 tracks! SAM-SP 1922 – Top 10 Tracks

Para assistir: Em 2002 a TV Cultura fez um ótimo documentário sobre a semana de Arte Moderna de 1922. Com vários depoimentos de gente que fez parte do movimento modernista, em gravações antigas, claro, é um doc que vale a pena demais ser visto! Tá completinho no Youtube

Para ler: Com certeza a obra mais emblemática da literatura modernista brasileira veio a ser publicada 6 anos depois da Semana de Arte Moderna. Claro, é o indispensável Macunaíma, de Mário de Andrade. Um livro delicioso, divertido e que diz muito, mas muito mesmo, sobre o Brasil de ontem, de hoje e de sempre. Leitura necessária! 

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